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albardeiro.blogs.sapo.pt
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Date Posted: 25/07/05 16:07:39
In reply to:
M. Fátima Bonifácio
's message, "Quando a polícia ameaça os cidadãos e o Governo..." on 25/07/05 15:08:08
ATLÂNTICO
Para além de nome de oceano, Atlântico passou agora também a ser nome de revista. Esta novidade editorial portuguesa, cuja responsável é Helena Matos, apresenta-se neste primeiro número de Abril de 2005 com posições firmes e propósitos determinados.
Assume-se como “projecto inconfundível”, de forte identidade e carácter. E, de facto, basta atentarmos no elenco dos seus colaboradores, para não haver dúvidas quanto à sua identidade. De Vasco Rato a Manuel de Lucena, de Joaquim Aguiar a Luciano Amaral ou de Rui Ramos a Fátima Bonifácio, encontramos aqui uma parte significativa da intelligentsia portuguesa conservadora. É, portanto, uma revista que se situa claramente à direita.
Se sobre isso houvesse alguma dúvida, bastava cotejar a prévia “Declaração Editorial” em jeito de acróstico, onde se diz que o  significa “Aliança Atlântica”, acrescentando-se que “A aliança entre europeus e norte-americanos foi e é o garante da nossa liberdade e segurança.” e de que o O diz respeito a “Ocidente” uma vez que “a civilização ocidental é aquela que maior prosperidade, direitos e liberdades conseguiu assegurar a um maior número de cidadãos. Porque o Ocidente é o nosso mundo.”
Dificilmente conseguiríamos um bilhete de identidade mais claro. Não só o seu alinhamento com a filosofia política da actual administração Bush nos parece evidente, como implicitamente são repisadas as teclas do “choque das civilizações” e a “cruzada contra o Mal” dos neoconservadores americanos.
Custa-nos mais a entender porque também se diz que a Atlântico é “única”. De facto, no panorama nacional, não faz mais que potenciar opções ideológicas disseminadas pela generalidade dos órgãos de comunicação social, desde a televisão à imprensa.
Talvez a sua única virtude seja a da sistematização desse particular entendimento do mundo e da assunção, como linha editorial própria, desse seu carácter marcadamente doutrinário. O que, apesar de tudo, não é pouco e é perfeitamente legítimo. Segue, aliás, exemplos internacionais no mesmo sentido.
Lembremo-nos do papel desempenhado pela seminal revista norte-americana The Public Interest, fundada em 1965 por Irving Kristol, que tem sido, ao longo dos anos, uma autêntica Bíblia do pensamento neoconservador e que conta, como um dos seus mais proeminentes colaboradores, com o inefável Francis Fukuyama.
Não será certamente por coincidência que, na rubrica “Gostos” da revista Atlântico, seja o último livro deste autêntico corifeu intelectual do neoconservadorismo, publicado no ano passado com o título State Building: Governance and World Order in the 21st Century, um dos livros recenseados.
O que causa verdadeira perplexidade nos propósitos da revista é o significado atribuído ao I da palavra Atlântico: “Inconformismo”, rematando-se, logo de seguida, “Contra a cultura dominante e o politicamente correcto.” O seu principal objectivo? “Fazer uma revista que rompa com o unanimismo reinante.”
Mas, afinal, de que estamos a falar? Porque se há unanimismo no mundo de hoje, esse resulta precisamente da disseminação generalizada do pensamento neoconservador americano, da lógica predadora da globalização neo-liberal e da dominação planetária dos E.U.A.
Assim se pensa nos corredores do poder da quase totalidade dos países. Por essa mesma bitola afinam governos, organizações e partidos políticos em todo o mundo. É dessa forma que os opinion makers dos mais influentes meios de comunicação social, formatam a opinião pública mundial.
Parece-nos que a linha de pensamento que a revista Atlântico segue é, pelo contrário, o da doxa instalada. O do conformismo perante a “ordem das coisas”. O da aceitação dócil do domínio imperial americano – da deriva securitária, da injustiça e da desigualdade – com todas as consequências que daí advém para a vida no nosso planeta.
Qual é, então, a novidade? Que inconformismo é este? O do poder e da cultura dominantes? O do “pensamento único” made in Washington? Sabemos da particular capacidade que o sistema capitalista tem de incorporar no seu seio as forças da sua própria subversão e, dessa forma, neutralizá-las.
Mas querer passar uma postura politicamente conservadora – em qualquer caso dominante – por uma atitude contestatária e subversiva, parece-nos algo de verdadeiramente incrível. Mais do que uma mistificação é uma fraude.
Atribui-se ao presidente norte-americano Abraham Lincoln o conhecido aforismo segundo o qual “se pode enganar toda a gente algum tempo; pode-se mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não se pode enganar toda a gente todo o tempo”. É que, de facto, as coisas são o que são.
Posted by dj_ac at 01:35 PM |, //alberdeiro.blogs.sapo.pt
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