Author:
Miguel Sousa Tavares
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Date Posted: 30/07/05 11:22:05
In reply to:
Ruben de Carvalho, DN, 30/07/05
's message, "Ota e TGV - a confusão" on 30/07/05 7:36:42
Um aeroporto para Coimbra
Miguel Sousa Tavares
Quando pensa em Lisboa, Vital Moreira vê vermelho. E a tal ponto fica cego, que - ele que passa a vida a criticar o que considera ser o esbanjamento de dinheiros públicos em Lisboa - é capaz de defender a construção de um novo, desnecessário e extravagantemente caro aeroporto para Lisboa apenas porque descobriu que a grande maioria dos lisboetas não quer um novo aeroporto, mas sim o actual. E se os lisboetas são contra uma coisa, é certo que ela se transforma imediatamente, aos olhos de Vital Moreira, num imperativo nacional - seja o aeroporto da Ota, a regionalização ou os estádios desertos do interior construídos para o Euro-2004. O raciocínio é simples: o que é bom para Lisboa é mau para o país e vice-versa. Tamanho e tão provinciano conceito, como é óbvio, só pode conduzir a erros de julgamento primários.
Em relação à Ota, o primeiro erro de Vital Moreira é julgar que o futuro aeroporto internacional de Lisboa é um aeroporto nacional, apenas porque fica 40 quilómetros mais perto de Coimbra do que o actual. Por mais que a peculiar concepção descentralizadora de Vital Moreira se consiga expandir, não há maneira de situar o futuro aeroporto de Lisboa equidistante entre Lisboa, Coimbra, Leiria, Vilar de Perdizes e S. Brás de Alportel. Pela simples razão de que, tirando alguns países do Terceiro Mundo, os aeroportos servem cidades e não países e são localizados em função da procura comercial, turística e profissional e não dos interesses da política de ordenamento do território de determinado país. Outras coisas sim, um aeroporto não.
Onde a argumentação de Vital Moreira se torna verdadeiramente pungente é quando ele se dá ao trabalho de enumerar os que considera serem os pérfidos integrantes do "Sindicato de Lisboa", os defensores da Portela contra a Ota: "companhias de aviação e agentes turísticos, hoteleiros e taxistas, jet-set nacional e funcionários da UE no vaivém de Bruxelas, colunistas de imprensa e médicos de partida para o próximo congresso turístico nas Caraíbas". Excepção feita aos hoteleiros, que aqui aparecem metidos sem que se perceba porquê, e aos taxistas (um autêntico erro de "casting", visto que, para os taxistas, quanto mais longe for o aeroporto de Lisboa, melhor será o negócio), todas as outras categorias que ele arrola são parte da grande massa daqueles que têm todas as razões para não quererem o aeroporto fora da cidade: os residentes na zona da Grande Lisboa ou os que a ela se dirigem, que são 90 por cento dos utentes do actual ou futuro aeroporto. Apenas essa constatação deveria dar-lhe que pensar: se a grande maioria dos utilizadores do aeroporto de Lisboa estão satisfeitos com o actual e não querem outro, para quê fazer outro? Mas, não: perante a óbvia contradição, Vital Moreira esforça-se por defender a sua velha tese de que, contra os interesses do país, está sempre a minoria de privilegiados de Lisboa. Mas, pelo menos em relação a esta suspeitíssima história do aeroporto da Ota, está enganado. O interesse do país é que os contribuintes não sejam chamados a pagar um novo aeroporto para Lisboa, que Lisboa não quer e de que não precisa. E se alguma vez Vital Moreira frequentar o aeroporto da Portela a horas nocturnas ou madrugadoras, verá que não é o "jet-set nacional" que lá está, mas sim os que só têm capacidade financeira para viajar em voos charter ou os imigrantes africanos a despacharem ou receberem toneladas de família e de bagagens e que certamente não desejam pagar táxis da Ota até Lisboa ou arredores. O "jet-set" ou tem o motorista à espera ou tanto lhe faz pagar 5 como 50 euros de táxi.
O mais da argumentação de Vital Moreira resulta apenas de ignorância ou de preconceito. O argumento de que a Portela estará saturada dentro de dez anos é um argumento falso e ofensivo. Ofensivo, porque equivale a dizer que os milhões que têm sido injectados na Portela e os que ainda vão ser é dinheiro deitado à rua. Falso, porque se funda em estudos que nunca ninguém viu e contraria tudo aquilo que todos vimos - que não há memória, nem durante o Euro-2004, de algum avião ter tido de esperar meia hora na pista para poder descolar ou ter de andar às voltas sobre Lisboa à espera de vez para aterrar, ao contrário do que sucede em todos os grandes aeroportos europeus, americanos ou asiáticos. Trata-se apenas de inventar uma necessidade para justificar uma oportunidade de negócio. E é estranho que Vital Moreira, que tanto se ofende com os investimentos do Estado em Lisboa (ao ponto de os quantificar, não per capita, mas demagogicamente em termos absolutos), fique tão contente perante tamanho exemplo de desperdício de dinheiros públicos ao serviço de interesses privados.
Porque também o argumento de que a Ota será construída essencialmente com dinheiros privados é um argumento falacioso. Primeiro, porque, mesmo que isso seja verdade, restam todos os outros encargos a pagar pelo Estado: as expropriações de terrenos, as infra-estruturas, os acessos rodoviários e ferroviários e a inevitável derrapagem de custos de tudo o que for empreitada pública. Segundo, porque, sendo a exploração do aeroporto privada e não havendo alternativa nem concorrência, seguramente que todos os utilizadores sairão a perder, conforme tem sido norma em tudo o que era serviço público em regime de monopólio e que se tornou privado. É por isso - além dos custos acrescidos derivados da própria deslocação do aeroporto - que, como bem observa Vital Moreira, as companhias aéreas e os operadores turísticos são contra a Ota (e acaso deveriam ser a favor de uma coisa que só lhes vem dificultar a vida e de que eles, que são os principais envolvidos, não vêem qualquer necessidade ou interesse? Gostaria o professor Vital Moreira que a Universidade de Coimbra fosse mudada para Oliveira do Hospital?).
Por mais argumentos que se inventem contra a manutenção da Portela, há um que ninguém consegue contrariar: Lisboa e os seus habitantes têm um interesse óbvio e evidente em continuar a ter um aeroporto na saída da cidade. Um interesse para as pessoas, para o turismo, para os negócios, para o trabalho. Parece ser isso o que verdadeiramente incomoda Vital Moreira. Ele acha que os de Lisboa têm de penar pelos "benefícios da capitalidade". E não basta as horas perdidas diariamente no trânsito e todos os outros inconvenientes de uma cidade grande e desordenada. É preciso também que o "jet-set nacional", os "colunistas de imprensa" (que não ele), os "funcionários da UE" (mas apenas os de Lisboa) e os "médicos de partida para congressos nas Caraíbas" (mas não os de Coimbra), se tiverem de apanhar um avião na Ota às 9 da manhã, tenham de sair de casa às 6, porque não sabem se não vão encontrar a saída de Lisboa engarrafada, a auto-estrada em obras ou um acidente no caminho que os deixe parados na estrada. Assim se fará justiça, descentralização e boa aplicação de dinheiros públicos. E, além do mais, é seguramente um investimento público rentável: basta que Lisboa saia a perder, que as companhias de aviação e os agentes turísticos vejam os seus custos acrescidos e que o "jet-set nacional" (aqui deveria ter escrito lisboeta, em vez de nacional...) seja incomodado, para concluir que, forçosamente, o país só pode sair a ganhar. Pelo menos os de Coimbra têm menos 40 quilómetros a percorrer até ao aeroporto, se, sei lá eu, forem funcionários da UE ou lhes apetecer ir de congresso até às Caraíbas. Eis a descentralização, tal como a visiona Vital Moreira. Jornalista
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