Author:
Fernando Penim Redondo
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Date Posted: 13/07/05 13:10:26
Meu caro visitante,
as suas denodadas investidas contra o comunismo, pese embora o cuidado posto nos textos, são uma iniciativa quixotesca digna da investida contra os moinhos de vento. Como não pretendo ser ofensivo passo a explicar porquê.
A ideia do comunismo continua refém do tal, como gosta de dizer, “socialismo real do gostinho especial”.
Os que se dizem de esquerda ainda hoje se distinguem, no essencial, por aquilo que rejeitam ou dizem rejeitar da “experiência soviética”.
Ora essas rejeições são insuficientes para uma nova definição do projecto; os que rejeitam pouco é como se herdassem tal experiência e só aguardassem o momento próprio para a reeditar, os que rejeitam muito ficam por assim dizer num vazio teórico.
Por isso as críticas ao comunismo, como as do Visitante, ou são críticas à experiência soviética ou não são nada pois é impossível criticar o que não existe. Na prática consistem em presumir que todos, os que rejeitam muito e os que rejeitam pouco, lá no fundo o que querem é voltar aos “gloriosos tempos de Lenine”.
Isso nem sempre é sério, ou justo, como explicarei mais adiante.
Aconteceu com a ideia do comunismo mais ou menos o mesmo que com as máquinas fotográficas que a certa altura toda a gente denominava de KODAK.
Como são raras as teses sobre um após-capitalismo que não seja um comunismo, como os comunistas desempenharam um enorme papel na difusão da utopia libertadora das taras do capitalismo, resulta que hoje qualquer caricatura de estratégia anti-capitalista corre sérios riscos de ser considerada uma via para o comunismo (vide a inacreditável entrevista do Jerónimo de Sousa, hoje, ao Público).
O comunismo constitui hoje como que um genérico, que muitos receitam, mas de que ninguém conhece o princípio activo.
Voltando às rejeições da “experiência soviética” e ao XIII Congresso do PCP.
Eu conhecia suficientemente bem os mecanismos congressuais, já então, para não ter ilusões acerca das consequências práticas da minha intervenção. Tratou-se de responder a um imperativo do tipo “estas coisas têm que ser ditas” ou se quiser “eu tenho a responsabilidade de não calar estas discordâncias”.
Foi bastante impressionante, à medida que lia o meu discurso, sentir as quatro mil pessoas que conversavam distraidamente baixarem gradualmente o volume até se atingir um silêncio quase total. Demorou digamos um minuto até toda a gente na sala perceber que o meu discurso não era apenas mais um recheado de lugares comuns.
Quando terminei fui aplaudido hesitantemente.
O que é verdadeiramente notável e demonstra a ausência de verdadeira discussão nos congressos é que ninguém, repito ninguém, contestou ou apoiou as “enormidades” que eu tinha dito nos discursos que sucederam ao meu.
Feita esta descrição do vivido em 1990 penso que se justifica explicar melhor aquilo que eu, desde então, venho rejeitando. Justifica-se antes de mais porque o Visitante dá a entender que eu rejeitava a prática da URSS para poder preservar, intocada, a teoria que lhe fora subjacente: “Tal como a dos ortodoxos, esta tese tem uma comodidade: permite manter a fé na utopia comunista”.
Vejamos algumas coisas que eu então disse:
1. Este é o resultado de ao longo dos anos termos reduzido as questões da transição aos problemas da tomada e exercício do poder político e à apropriação dos meios de produção.
É claro que eu aqui me distancio quer da ideia insurreccional quer da ideia do socialismo como “propriedade social dos meios de produção”.
Ou seja, já em 1990 eu considerava:
- que as insurreições podem substituir governos, ou até regimes políticos, mas não alteram modos de produção
- que a propriedade social dos meios de produção (eufemismo para designar propriedade estatal dos meios de produção) não garante, como se viu na URSS, relações de produção de novo tipo.
2. Demonstremos que é possível organizar a sociedade de forma não só mil vezes mais justa como mil vezes mais eficiente e produtiva
Há muito que combato o afunilamento das teses comunistas em volta das injustiças do capitalismo. Como a história mostra os sistemas não morrem só por serem injustos mas também, fundamentalmente, por se tornarem ineficazes.
Não sou adepto da concepção das classes que transformam a sociedade serem “as que nada têm a perder senão as suas grilhetas”; penso que a história mostra que as transformações foram lideradas por aqueles que julgavam ter muito a ganhar.
3. O socialismo chegará, estou seguro, tanto pela luta dos explorados como pelo desenvolvimento da tecnologia. Não posso concordar com um lugar-comum também incluído nas Teses do CC, que considera estar a ser «artificialmente» adiado o fim do capitalismo em consequência da revolução científica e técnica. Os sistemas sociais caducos dão-se mal com revoluções, mesmo tecnológicas; ou então não estariam tão caducos como estão.
Trata-se de combater o voluntarismo e exigir o estudo dos modos de produção e das suas contradições como base da acção política. Trata-se de retomar a concepção marxista de que os modos de produção não são alteráveis senão quando deixam de cumprir o seu papel. Aí a tecnologia, como tento demonstrar, tem um papel importante.
Não concordo com a formulação do Visitante quando diz que a Revolução Industrial surgiu depois do capitalismo; só a Revolução Industrial permitiu a massificação do assalariamento que antes não passava de uma relação muito minoritária na sociedade. Quando a manufactura se desenvolve em Inglaterra no Século XVII nove décimos da população vive ainda da agricultura e, na Europa, mesmo em regime de servidão (que dura até ao fim do século XIX, tanto mais quanto mais a leste).
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Podemos assim tirar uma, ou várias, das seguintes conclusões:
1. que a derrocada da URSS se deveu a erros, desvios, incompetências, etc.
2. que não tinha qualquer hipótese de sucesso pois não estavam reunidas as condições necessárias
3. que não tinha qualquer hipótese de sucesso porque o projecto estava mal perspectivado
4. que não tinha qualquer hipótese de sucesso porque o projecto, em si mesmo, é irrealizável
Como já ficou claro a minha posição corresponde aos pontos 2. e 3.
O ponto 4., que é a opinião do Visitante, não faz sentido pelas razões que expliquei na fase inicial deste texto.
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