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Subject: As classes instruídas têm essencialmente apoiado o aparelho de propaganda ao longo da história


Author:
Noam Chomsky, Donaldo Macedo
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Date Posted: 1/12/05 11:03:07
In reply to: Noam Chomsky, Donaldo Macedo 's message, "Quanto maior é a necessidade de falar sobre os ideais da democracia, menos democrático é o sistema" on 1/12/05 10:47:58

PARA ALÉM DE UMA EDUCAÇÃO DOMESTICADORA:
Um Diálogo com Noam Chomsky, Donaldo Macedo
University of Massachussets, Boston, USA
(…)

Donaldo Macedo – Como é possível que esses intelectuais que operam num enquadramento propagandístico consigam escapar incólumes com a sua cumplicidade para com as falsidades que disseminam a serviço dos poderosos interesses?

Noam Chomsky – Eles não se escapam com nada. Na realidade, estão apenas a prestar um serviço que as instituições para as quais trabalham esperam deles. E eles, voluntariamente, talvez inconscientemente, preenchem os requisitos do sistema industrial. É como se contratasse um carpinteiro e, depois de ele concluir o trabalho para que foi contratado, lhe perguntasse como é que ele se tinha safado com aquilo. Ele fez o que dele era esperado.
Bem, os intelectuais prestam um serviço semelhante. Fazem o que deles é esperado ao oferecerem uma descrição razoavelmente exacta da realidade que se adequa aos interesses da pessoas que detêm a riqueza e o poder – os donos das instituições a que chamamos escolas e, de fato, da sociedade de um modo geral.

Donaldo Macedo – É claro que historicamente os intelectuais têm tido um papel inglório de apoio ao sistema doutrinal. Dada a postura pouco honrosa que assumem, poderemos considerá-los intelectuais no verdadeiro sentido da palavra? Você refere-se com alguma freqüência a alguns professores de Harvard como “comissários”. Eu também considero o tempo mais apropriado que intelectual, dada a sua cumplicidade
com a estrutura de poder, e dos seus papéis funcionais de apoio a “valores civilizacionais” que em muitos casos deram origem a exactamente o oposto: miséria humana, genocídio, escravatura e exploração em massa das populações.

Noam Chomsky – Do ponto de vista histórico, tem sido quase exactamente esse o caso.
Recuando no tempo até à época da Bíblia, os intelectuais que mais tarde foram chamados “falsos profetas” trabalhavam para os interesses específicos de quem estava no poder.
Sabemos que existiam intelectuais dissidentes naquela época, e que esses tinham uma visão alternativa do mundo. Foram mais tarde chamados “profetas” – uma tradução dúbia de um mundo obscuro. Esses intelectuais foram marginalizados, torturados ou exilados. As coisas não mudaram muito na nossa época. Os intelectuais dissidentes continuam marginalizados pela maioria das sociedades e, em lugares como El Salvador, são simplesmente chacinados.
Foi isso que aconteceu com arcebispo Romero e os seis intelectuais jesuítas executados por tropas de elite treinadas [nos EUA], armadas e suportadas pelos nossos impostos. Um jesuíta salvadorenho comentou acertadamente no seu diário que no seu país Václav Havel (antigo prisioneiro político que se tomou presidente da Tchecoslováquia), por exemplo, não teria sido preso; teria sido esquartejado e abandonado à beira da estrada. Václav Havel, que se tornou no dissidente preferido do Ocidente, recompensou generosamente os seus apoiantes no Ocidente ao dirigir-se ao Congresso dos EUA algumas semanas após o assassinato dos seis jesuítas em El Salvador. Em vez de demonstrar solidariedade para com os camaradas dissidentes em El Salvador, louvou e enalteceu o Congresso, a quem chamou de “defensores da liberdade”. O escândalo é tão óbvio que não precisa de comentário.
Um simples teste mostrará como este escândalo é extraordinário. Consideremos, por exemplo, o seguinte caso imaginário: um comunista negro americano vai à (então) União Soviética, pouco tempo depois de seis eminentes intelectuais tchecos terem sido assassinados por forças de segurança treinadas e armadas pelos russos. Ele dirige-se à
Duma, elogiando os deputados enquanto “defensores da liberdade”. A reacção dos intelectuais e políticos aqui nos Estados Unidos seria rápida e previsível. Ele seria
denunciado por apoiar um regime assassino. Os intelectuais americanos devia perguntar-se por que razão reagiram com tal êxtase ao incrível desempenho de Havel, que é bastante comparável a esta situação imaginária.
Quantos intelectuais americanos já leram alguma coisa sobre os intelectuais da América Central assassinados por exércitos sancionados pelos EUA? Ou ouvido falar de
Dom Hélder Câmara – o bispo brasileiro defensor das causas dos pobres do Brasil? O fato de que a maioria deles teria dificuldade em dizer os nomes dos dissidentes das tiranias brutais da América Latina – e de outros locais – apoiados por nós, e cujas “forças da ordem” são treinadas por nós, oferece um comentário interessante à nossa cultura.
Para além de uma educação domesticadora intelectual. Os fatos inconvenientes ao sistema doutrinado são sumariamente ignorados como se não existissem. São simplesmente suprimidos.

Donaldo Macedo – Esta construção social do não ver caracteriza esses intelectuais, descritos por Paulo Freire como educadores que reclamam uma postura científica e
que “poderiam tentar esconder-se no que [eles] consideram a neutralidade da investigação científica, indiferentes ao modo como as [suas] invenções são utilizadas, desinteressados até em considerar para quem ou para que interesses estão a trabalhar”1. Segundo Freire, em nome da objectividade, esses intelectuais “poderiam tratar a sociedade em estudo como se [eles próprios] não fizessem parte dela. Na [sua] celebrada neutralidade, [eles poderiam] abordar esse mundo como se usassem `luvas e máscaras' para não contaminarem nem serem contaminados por ela”. Eu acrescentaria que esses intelectuais não só usam “luvas e máscaras”, mas também viseiras, para evitarem ver o óbvio.

Noam Chomsky – Não sei se concordo com esse ataque e crítica pós-moderna à objectividade. A objectividade não é algo que possamos rejeitar. Pelo contrário, deveríamos trabalhar muito para a abarcar na nossa procura da verdade.

Donaldo Macedo – Não discordo. A minha crítica da objectividade não pretende rejeitá-la. O que deve ser questionado é a capa de objectividade utilizada por muitos intelectuais para evitar incorporar nas suas análises factores inconvenientes e que possam expor a sua cumplicidade na supressão da verdade ao serviço da ideologia dominante.

Noam Chomsky – Sim. A pretensão da objectividade enquanto meio de distorção e desinformação a serviço do sistema doutrinal deve ser firmemente condenada. Essa atitude intelectual é muito mais facilmente mantida nas ciências sociais, porque os constrangimentos impostos aos investigadores pelo mundo exterior são muito mais fracos.
A compreensão é muito mais superficial e os problemas a analisar são muito mais obscuros e complexos. O resultado é que é muito mais fácil ignorar simplesmente coisas que não se quer ouvir. Existe uma diferença marcada entre as ciências naturais e as ciências sociais.
Nas ciências naturais, os fatos da natureza não deixam o investigador ignorar com tanta facilidade coisas que entrem em conflito com crenças favorecidas e é mais difícil perpetuar erros. Uma vez que nas ciências naturais as experiências são replicadas, é mais fácil expor os erros. Existe uma disciplina interna que orienta as diligências intelectuais. Ainda assim, não existe uma garantia clara de que mesmo a mais séria pesquisa conduza à verdade.
Regressemos ao ponto inicial: as escolas evitam verdades importantes. É da responsabilidade intelectual dos professores – e de qualquer indivíduo honesto – procurar dizer a verdade. Isto não é, certamente, controverso. É um imperativo moral procurar e dizer a verdade, na medida das possibilidades, acerca de coisas relevantes, ao público certo.
É uma perda de tempo dizer a verdade ao poder, no sentido literal das palavras, e o esforço de o fazer pode frequentemente ser uma forma de auto-complacência. A meu ver, é uma perda de tempo e um empreendimento inútil dizer a verdade a pessoas como Henry Kissinger ou o Presidente do Conselho de Administração da AT&T (NT3), ou outros que exerçam poder em instituições com políticas de coerção – a maioria deles já conhecem estas verdades. Gostaria de justificar o que acabei de dizer. Se e quando as pessoas que exercem o poder nas respectivas funções institucionais se dissociam do ambiente institucional e se tornam seres humanos, agentes morais, nessa altura podem juntar-se ao resto das pessoas. Mas não vale a pena dialogar com eles no seu papel de indivíduos detentores de poder. É um desperdício de tempo. Vale tanto a pena dizer a verdade ao poder quanto ao pior e mais criminoso dos tiranos, que também será um ser humano, independentemente de quão terríveis sejam as suas acções. Dizer a verdade ao poder não é uma vocação particularmente honrosa.
Deve-se procurar um público que interesse. Para os professores, esse público são os estudantes. Estes não devem ser vistos como uma mera audiência, mas como fazendo parte de uma comunidade de interesse partilhado, na qual esperamos poder participar de um modo construtivo. Não devemos falar para, mas com. Isso é algo que já se tornou uma segunda natureza em qualquer bom professor, e também o deveria ser em qualquer escritor ou intelectual. Um bom professor sabe que a melhor maneira de ajudar os alunos a aprender é deixá-los descobrir a verdade por eles próprios. Os estudantes não aprendem por mera transferência de conhecimento através da memorização mecânica e posterior regurgitação.
O verdadeiro conhecimento vem através da descoberta da verdade e não através da imposição de uma verdade oficial. Isso nunca conduz ao desenvolvimento do pensamento crítico e independente. Todos os professores têm a obrigação de ajudar os estudantes a descobrir a verdade e não suprimir informação e conhecimentos que possam ser embaraçosos para as pessoas ricas e poderosas que criam, concebem e fazem as políticas das escolas.
Vejamos mais de perto o que significa ensinar a verdade e as pessoas distinguirem mentiras de verdades. Eu acho que não é preciso mais do que bom senso, o mesmo bom senso que nos permite adoptar uma posição crítica perante os sistemas de propaganda das nações que consideramos nossas inimigas. Já sugeri antes que os eminentes intelectuais estadunidenses não seriam capazes de nomear nenhum dissidente conhecido das tiranias da esfera do nosso controle, por exemplo El Salvador. Contudo, esses mesmos intelectuais não teriam qualquer dificuldade em fornecer uma longa lista de dissidentes da antiga União Soviética. Também não teriam qualquer problema em distinguir mentiras da verdade e em reconhecer as distorções e perversões que são usadas para proteger a população da verdade nos regimes inimigos. As competências críticas que eles utilizam para desmascarar as falsidades propagadas nas nações a que chamam “hostis” desaparecem quando se trata de criticar o nosso próprio governo e as tiranias por nós suportadas. As classes instruídas têm essencialmente apoiado o aparelho de propaganda ao longo da história, e quando desvios da doutrina são reprimidos ou marginalizados, a máquina propagandística tem geralmente grande sucesso. Isso foi bem compreendido por Hitler e por Stalin, e até hoje tanto sociedades abertas como fechadas procuram e recompensam a cumplicidade da classe instruída.
A classe instruída tem sido denominada uma “classe especializada”, um pequeno grupo de pessoas que analisam, executam, tomam decisões e gerem as coisas nos sistemas
político, econômico e ideológico. A classe especializada é geralmente composta por uma pequena percentagem da população; eles têm de ser protegidos do grosso da população, a quem Walter Lippmann chamou de “rebanho desnorteado”. Esta classe especializada leva a cabo as “funções executivas”, o que significa que são eles que pensam, planejam e percebem os “interesses comuns”, que para eles são os interesses da classe empresarial. A grande maioria das pessoas, o “rebanho desnorteado”, devem funcionar na nossa democracia como “espectadores”, não como “participantes na acção”, de acordo com as crenças liberais democráticas que Lippmann articula com clareza. Na nossa democracia, de vez em quando é permitido aos membros do “rebanho desnorteado” participar na aprovação de um líder através daquilo a que chamamos “eleição”. Mas, uma vez confirmado um ou outro membro da classe especializada, devem retirar-se e voltar a ser espectadores.
Quando o “rebanho desnorteado” tenta ser mais do que simples espectadores, quando as pessoas tentam tomar-se participantes nas acções democráticas, a classe especializada reage àquilo que chama “crise de democracia”. E por isso que existiu tanto ódio entre as
elites dos anos 1960, quando grupos de pessoas que historicamente sempre foram marginalizadas se começaram a organizar e a interferir com as políticas da classe
especializada, em particular na guerra do Vietnã, mas também na política social interna.
Uma das formas de controlar o “rebanho desnorteado” é seguir a concepção da Comissão Trilateral das escolas enquanto instituições responsáveis pela “doutrinação dos jovens”. Os membros do “rebanho desnorteado” devem ser profundamente doutrinados nos valores e interesses corporativos privados e controlados pelo estado. Aqueles que são bem sucedidos em instruir-se nos valores da ideologia dominante e que provam a sua lealdade ao sistema doutrinal podem tornar-se parte da classe especializada. O resto do “rebanho desnorteado” deve ser mantido na linha, longe de problemas e mantendo-se sempre, quanto muito, espectadores da acção e distraídos das verdadeiras questões que interessam. A classe instruída considera-os demasiado estúpidos para gerirem os seus próprios assuntos, e por isso precisam da classe especializada para se assegurarem de que não terão a oportunidade de agir com base nos seus “equívocos”. Segundo a classe especializada, os 70 por cento das pessoas que consideram que a Guerra do Vietnã foi moralmente errada devem ser protegidos dos seus “equívocos” ao oporem-se à guerra: eles devem acreditar na opinião oficial de que a Guerra do Vietnã foi apenas um erro.
Para proteger o “rebanho desnorteado” de si próprio e dos seus “equívocos”, numa sociedade aberta a classe especializada precisa de se virar cada vez mais para a técnica da propaganda, para a qual se usa o eufemismo “relações públicas”. Por outro lado, em estados totalitários o “rebanho desnorteado” é mantido no lugar por um martelo que paira sobre as suas cabeças, e se alguém se desvia, tem sua cabeça esmagada. Uma sociedade democrática não se pode apoiar na força bruta para controlar a população. Por isso, é preciso confiar mais na propaganda como forma de controlar a mente pública. A classe instruída toma-se indispensável na diligência de controle da mente e as escolas têm um papel importante neste processo.

(…)

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E eu também não acrescento uma única palavra a esta infâmia!Margarida 1/12/05 15:30:40


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