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| Subject: Um colóquio inquietante | |
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Author: Rui Ramos (Público, 4 Outubro 2006) |
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Date Posted: 5/10/06 9:48:25 In reply to: André Freire 's message, "O compromisso ultraliberal e a tibieza das respostas" on 2/10/06 11:24:03 Duas semanas depois da convenção do movimento Compromisso Portugal, no Convento do Beato, em Lisboa, as ondas de choque na imprensa ainda não pararam. Há dois dias, neste jornal, foi a vez de o meu estimado colega André Freire cumprir o seu dever cívico de derramar alguma indignação sobre o que lhe deu jeito imaginar como uma missa negra de grandes patrões, e "extremistas de direita" - uma espécie de Festa do Avante! do mitológico "liberalismo selvagem". Ora, aconteceu-me ter passado pelo Beato, como outras dezenas de cidadãos que não eram necessariamente grandes patrões, e muito menos extremistas. Um dos cavalheiros que nos governam, menos dramático do que os cavalheiros que escrevem nos jornais, chamou à reunião do Beato um "colóquio". Porque é que, duas semanas depois, esse colóquio continua a incomodar tanta gente? Por causa do atrevimento de ter discutido o "papel do Estado"? É um velho tema. Por causa da ousadia das suas "propostas concretas"? Muitas delas, como os próprios promotores da convenção notaram, vêem ao encontro do que este Governo está a fazer ou a discutir. Não. O que ofendeu no Beato não foi a doutrina, nem foram as políticas, mas o simples facto de haver um grupo de cidadãos que, sem reclamar uma identidade corporativa nem um projecto partidário, se atreve a discutir e a fazer sugestões sobre a forma como a sociedade portuguesa está organizada e é governada. É significativo que a primeira das críticas à convenção tenha sido essa. Alguns dos organizadores eram empresários e gestores, como todos sabem, porque foi só neles que a imprensa quis reparar. É antiga, em Portugal, a tradição da intervenção política das "forças vivas" e dos "interesses económicos", isto é, dos grupos de empresários e proprietários unidos para exigirem ao Estado que garanta os seus haveres e rendimentos. O regime democrático, seguindo o Estado Novo, arranjou lugar para os representantes associativos desses grupos. Os organizadores do Compromisso Portugal procuraram escapar a essa lógica corporativa. Mas foi em nome dessa velha mentalidade que foram confrontados com a censura de que deveriam ter-se limitado a falar das suas próprias empresas e da maneira de as gerir. Não ocorreu a esses censores que os empresários e gestores que ali estavam estavam como cidadãos, em pé de igualdade com outros cidadãos que não têm fábricas nem escritórios. Para a tradição corporativa portuguesa, o Compromisso Portugal foi um escândalo. A maioria dos promotores e convidados da convenção tinha uma só coisa em comum: nas suas actividades, estão geralmente entre os mais bem sucedidos. Não eram as vítimas do corrente modelo social: os que abandonaram as escolas, os que estão desempregados, os que são utentes de maus serviços públicos. Mas foi por causa destes que os promotores da convenção estiveram no Beato. Porquê? A eles, o statu quo serve-lhes perfeitamente. E, no entanto, moveram-se, deram a cara, vieram submeter-se à suspeita e ao ridículo de que é feita a cortina de ferro com que em Portugal se impede qualquer tipo de intervenção cívica. Como designar este impulso para sair do seu cantinho e discutir na praça pública com os outros cidadãos? Antigamente, chamava-se a isto "patriotismo" - era o que definia o cidadão, a consciência de que, por mais próspera que fosse a sua vida privada, tinha a obrigação de se preocupar com o bem da comunidade. Não se pode falar agora de "patriotismo". Mas também não parece bem actuar patrioticamente. Vivemos num meio que ainda aceita mal a iniciativa do cidadão independente e que não se convenceu de que a pluralidade de opiniões e a controvérsia são indispensáveis ao dinamismo e à criação de oportunidades. Daí a quantidade de gente que passou duas semanas à procura de um veneno para o Beato. Alguns descobriram-no, euforicamente, na severidade de um relatório do Fórum de Davos sobre a competitividade das empresas portuguesas. O Estado em Portugal foi declarado certo, competitivo e fulgurante. Quem está mal são os cidadãos, a quem não se pode confiar a gestão eficiente das suas propriedades. O que é que se vai descobrir a seguir? Talvez que as escolas públicas são excelentes e que os alunos é que são burros. Terão os entusiastas portugueses de Davos percebido a ladeira que começaram a descer? Se não se pode confiar nos cidadãos para criar riqueza e cooperar entre si como iguais, porquê confiar neles para eleger governantes e autarcas? Alguém quer responder? Historiador [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Re: Um colóquio inquietante Já levas a resposta! | entre bombos barulhentos de Viana | 13/10/06 11:10:10 |