VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

19/04/26 10:25:02Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 1[2]345678 ]
Subject: Um colóquio inquietante


Author:
Rui Ramos (Público, 4 Outubro 2006)
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 5/10/06 9:48:25
In reply to: André Freire 's message, "O compromisso ultraliberal e a tibieza das respostas" on 2/10/06 11:24:03



Duas semanas depois da convenção do movimento Compromisso Portugal, no Convento do Beato, em Lisboa, as ondas de choque na imprensa ainda não pararam. Há dois dias, neste jornal, foi a vez de o meu estimado colega André Freire cumprir o seu dever cívico de derramar alguma indignação sobre o que lhe deu jeito imaginar como uma missa negra de grandes patrões, e "extremistas de direita" - uma espécie de Festa do Avante! do mitológico "liberalismo selvagem". Ora, aconteceu-me ter passado pelo Beato, como outras dezenas de cidadãos que não eram necessariamente grandes patrões, e muito menos extremistas. Um dos cavalheiros que nos governam, menos dramático do que os cavalheiros que escrevem nos jornais, chamou à reunião do Beato um "colóquio". Porque é que, duas semanas depois, esse colóquio continua a incomodar tanta gente?
Por causa do atrevimento de ter discutido o "papel do Estado"? É um velho tema. Por causa da ousadia das suas "propostas concretas"? Muitas delas, como os próprios promotores da convenção notaram, vêem ao encontro do que este Governo está a fazer ou a discutir. Não. O que ofendeu no Beato não foi a doutrina, nem foram as políticas, mas o simples facto de haver um grupo de cidadãos que, sem reclamar uma identidade corporativa nem um projecto partidário, se atreve a discutir e a fazer sugestões sobre a forma como a sociedade portuguesa está organizada e é governada. É significativo que a primeira das críticas à convenção tenha sido essa. Alguns dos organizadores eram empresários e gestores, como todos sabem, porque foi só neles que a imprensa quis reparar. É antiga, em Portugal, a tradição da intervenção política das "forças vivas" e dos "interesses económicos", isto é, dos grupos de empresários e proprietários unidos para exigirem ao Estado que garanta os seus haveres e rendimentos. O regime democrático, seguindo o Estado Novo, arranjou lugar para os representantes associativos desses grupos. Os organizadores do Compromisso Portugal procuraram escapar a essa lógica corporativa. Mas foi em nome dessa velha mentalidade que foram confrontados com a censura de que deveriam ter-se limitado a falar das suas próprias empresas e da maneira de as gerir. Não ocorreu a esses censores que os empresários e gestores que ali estavam estavam como cidadãos, em pé de igualdade com outros cidadãos que não têm fábricas nem escritórios. Para a tradição corporativa portuguesa, o Compromisso Portugal foi um escândalo.
A maioria dos promotores e convidados da convenção tinha uma só coisa em comum: nas suas actividades, estão geralmente entre os mais bem sucedidos. Não eram as vítimas do corrente modelo social: os que abandonaram as escolas, os que estão desempregados, os que são utentes de maus serviços públicos. Mas foi por causa destes que os promotores da convenção estiveram no Beato. Porquê? A eles, o statu quo serve-lhes perfeitamente. E, no entanto, moveram-se, deram a cara, vieram submeter-se à suspeita e ao ridículo de que é feita a cortina de ferro com que em Portugal se impede qualquer tipo de intervenção cívica. Como designar este impulso para sair do seu cantinho e discutir na praça pública com os outros cidadãos? Antigamente, chamava-se a isto "patriotismo" - era o que definia o cidadão, a consciência de que, por mais próspera que fosse a sua vida privada, tinha a obrigação de se preocupar com o bem da comunidade. Não se pode falar agora de "patriotismo". Mas também não parece bem actuar patrioticamente. Vivemos num meio que ainda aceita mal a iniciativa do cidadão independente e que não se convenceu de que a pluralidade de opiniões e a controvérsia são indispensáveis ao dinamismo e à criação de oportunidades.
Daí a quantidade de gente que passou duas semanas à procura de um veneno para o Beato. Alguns descobriram-no, euforicamente, na severidade de um relatório do Fórum de Davos sobre a competitividade das empresas portuguesas. O Estado em Portugal foi declarado certo, competitivo e fulgurante. Quem está mal são os cidadãos, a quem não se pode confiar a gestão eficiente das suas propriedades. O que é que se vai descobrir a seguir? Talvez que as escolas públicas são excelentes e que os alunos é que são burros. Terão os entusiastas portugueses de Davos percebido a ladeira que começaram a descer? Se não se pode confiar nos cidadãos para criar riqueza e cooperar entre si como iguais, porquê confiar neles para eleger governantes e autarcas? Alguém quer responder? Historiador

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
Re: Um colóquio inquietante Já levas a resposta!entre bombos barulhentos de Viana13/10/06 11:10:10


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.