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| Subject: Re: Alguns tópicos acerca da decadência e da superação do capitalismo - 1 | |
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Author: JMC |
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Date Posted: 27/06/06 19:57:02 In reply to: Guilherme Statter 's message, "Re: Alguns tópicos acerca da decadência e da superação do capitalismo - 1" on 24/06/06 14:10:45 1-O isomorfismo entre o objecto teórico “modo de produção capitalista” e a realidade empírica. A realidade existe sob a forma de totalidade complexa coerente, constituída por uma grande diversidade de elementos em inter-relação, ainda que na representação sensorial ela se nos apresente como um conjunto caótico de elementos dispersos, desconexos e, nalguns casos, paradoxais. O modo como poderemos chegar ao conhecimento da realidade empírica, ultrapassando a mera representação mental do que ela aparenta ser, é pela apropriação cognitiva da sua essência, através da sua reconstituição pelo pensamento. Deste modo, pela abstracção, poderemos aspirar a conhecer o concreto que é a realidade empírica. Marx designou a realidade reconstituída pelo pensamento por “concreto pensado”, como contraponto ao “concreto representado” que é a forma pela qual ela se apresenta aos sentidos. O conceito “modo de produção capitalista” é um objecto teórico formal ou abstracto, isto é, ele é um produto do pensamento; como tal, não tem existência no objecto prático concreto que constitui a realidade empírica. Se ele corresponder à essência da realidade empírica, isto é, se corresponder ao conhecimento da realidade, pode-se dizer que a realidade assim reconstituída é a forma pela qual ela poderá passar a existir no pensamento. Neste caso, a realidade empírica passaria a existir enquanto objecto prático concreto e, simultaneamente, enquanto objecto teórico formal ou abstracto. Poder-se-ia dizer, então, que o isomorfismo entre a realidade e o seu modelo seria completo (referida esta completude ao que é essencial). Quando digo que o objecto teórico “modo de produção capitalista” não tem existência real concreta não quero apenas significar que ele é um produto do pensamento e, por isso, não existe na realidade empírica. Se entre ele e a realidade empírica existir um completo isomorfismo, ele corresponderá à realidade empírica, isto é, o que ele designa existirá de facto na realidade empírica. O que quero significar é que embora a realidade empírica o possa integrar como um dos seus constituintes ela não é redutível a ele, é mais diversa e complexa. Daí a afirmação de que o isomorfismo entre o “modelo” “modo de produção capitalista” e a realidade empírica, a “economia-política realmente existente”, não é completo. Mas o conceito “modo de produção capitalista” também não tem correspondência no objecto prático “capitalismo realmente existente”, que julgo poder designar com alguma razoabilidade o capitalismo existente nalguns países desenvolvidos, mas neste caso a similitude entre os objectos já será maior. Os problemas de falta de correspondência entre o modelo e a realidade empírica são múltiplos e variados. Mas o principal motivo da falta de correspondência reside no facto de o objecto prático “realidade empírica” não ser redutível à economia regulada pela aleatoriedade do mercado e, portanto, não poder ser cabalmente reconstituído por um modelo cuja lógica intrínseca de funcionamento se atém fundamentalmente às relações de troca. Na realidade empírica, a economia não existe sem a política — pese embora a propaganda do capitalismo mais liberal, que propaga aos quatro ventos dispensar a intervenção do Estado — porque a intervenção da política, directa ou indirectamente, nas relações de troca desigual é fundamental para o seu regular funcionamento. No caso do “capitalismo realmente existente”, como noutras formações económico-sociais, a função do Estado é fundamentalmente regular a economia para que uma taxa de acumulação aceitável se vá realizando sem que a conflitualidade social atinja níveis incomportáveis. Basta lembrarmo-nos, por exemplo, do papel que a política (o poder do Estado) desempenhou na pilhagem e no esbulho por que se constituiu a chamada acumulação primitiva, a qual permitiu o desenvolvimento do capitalismo de forma acelerada, e do papel que métodos similares continuam hoje desempenhando nas relações económicas internacionais; que a economia é de há muito uma economia monetária (que o capitalismo desenvolveu e alargou) e que o dinheiro constitui mais uma mercadoria fictícia (simbólica) do que uma verdadeira mercadoria, cuja circulação é forçada pela imposição do Estado (que a emite e a valoriza e desvaloriza consoante as necessidades); que o nível máximo dos salários foi desde sempre e é permanentemente fixado pelo Estado, sendo as coalizões operárias ainda hoje meramente toleradas, e, nalguns casos, proibidas, e raramente resultando os salários de relações de troca livres (e livres não quer dizer equitativas, quer apenas significar resultantes da oferta e da procura no mercado), para não falar na permanente reconstituição do exército industrial de reserva pelo recurso à imigração; que o aparelho do Estado, pelas funções alargadas que chamou a si e pelo volume que atingiu, desempenha também um papel fundamental no consumo de meios de produção que são transformados em improdutivos (nomeadamente, nas aplicações militares e afins e na expansão das condições gerais de produção) ou na absorção de força de trabalho disponibilizada da produção, desviando-os do circuito económico da acumulação; que a investigação tecnológica para fins militares, depois disponibilizada para usos civis, é forma indirecta de o Estado financiar as actividades de investigação e desenvolvimento privadas; que as guerras (sejam travadas pelos países desenvolvidos, sejam por eles fomentadas), muito embora possam ter causas diversas, pelas destruições que ocasionam têm grandes implicações na economia (e bastará atentarmos na proliferação dos conflitos militares localizados que têm ocorrido após a segunda guerra mundial e na instauração moderna do estado de guerra permanente, com a invenção americana da “guerra contra o terrorismo”, para termos uma ideia da sua crescente importância económica). Mas podemos também apontar ao objecto teórico outras lacunas, nomeadamente, no que se refere à função fundamental que o crédito passou a desempenhar na realização da acumulação, que foi ultrapassando em muito a reunião de vultuosos capitais para investimentos iniciais e se alargou ao crédito para o consumo produtivo e, hoje, para o consumo pessoal; no que se refere à circulação interna das mercadorias e às trocas desiguais que elas veiculam com formas de produção anteriores ou contemporâneas, ou à circulação internacional das mercadorias e dos capitais e às trocas desiguais que ela possibilita, que têm como reflexo o desenvolvimento desigual das diversas formações económico-sociais envolvidas. Pode-se dizer que o objecto teórico “modo de produção capitalista”, pelas condições em que foi elaborado — fruto da capacidade intelectual de um ser dotado, que trabalhou isolado e não teve contraditores à sua altura — constitui, apesar de tudo, um inestimável instrumento crítico dos mecanismos da apropriação privada de parte do produto social e um esboço crítico pioneiro de alguns instrumentos sociais que transcendem o capitalismo (como o fetichismo da mercadoria e a organização do trabalho compulsivo), e representa um notável progresso na compreensão da realidade social, cujos méritos cabem inteiramente a Marx. Passados tantos anos após a sua elaboração, poderia ter tido desenvolvimentos posteriores que o melhorassem, não para constituir um instrumento de previsão da evolução social, mas para permitir compreender ainda melhor o funcionamento das sociedades concretas. Infelizmente, o próprio Marx estava apegado ao pessimismo reinante à época e antes de desenvolver o seu modelo teórico formulara uma profecia idealista, na qual o capitalismo era apontado como o último modo de exploração (constituindo, deste modo, o fim da História) e o papel de transformação social radical era atribuído à classe explorada do capitalismo, e foi esta componente da sua obra que os discípulos adoptaram e procuraram levar a cabo. Por este facto, a obra teórica do Marx não teve continuidade nem foi sujeita a crítica, e foi tomada mais como narrativa pungente da exploração, que confirmaria a profecia idealista, do que como instrumento de compreensão da realidade social. Neste sentido, Marx foi o mais próximo dos grandes profetas. Veremos se as condições de saúde algo precárias me deixarão continuar nos próximos dias com 2-A relatividade da queda tendencial da taxa de lucro para a transformação social; e 3-Novas relações de produção que despontam na sociedade contemporânea. JMC [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Realidade Empírica, Modelos Analíticos e Teleologia | Guilherme Statter | 28/06/06 16:49:50 |