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| Subject: Realidade Empírica, Modelos Analíticos e Teleologia | |
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Author: Guilherme Statter |
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Date Posted: 28/06/06 16:49:50 In reply to: JMC 's message, "Re: Alguns tópicos acerca da decadência e da superação do capitalismo - 1" on 27/06/06 19:57:02 Espero que JMC esteja melhor de saúde. Começo por referir que não tinha entendido o tipo de distinção estabelecida por JMC entre, por um lado, "modo de produção capitalista" (como sendo o "objecto teórico") e, por outro lado, "economia política realmente existente" (como sendo a "realidade empírica"). Este meu não-entendimento deve-se ao estar habituado à utilização do mesmo nome ou designação para uma e outra coisa, acrescentando-lhe apenas as especificações (à laia de adjectivo) de "realidade empírica" e "objecto teórico" (que procura representar aquela "realidade empírica"). (Na minha leitura teríamos então um "modo de produção capitalista realmente existente" e a sua representação teórica ou "modelo teórico do modo de produção capitalista"). Sem entrar nas subtilezas das discussões filosóficas sobre a necessária distinção entre a representação mental e a "coisa em si mesma", julgo que é essa a prática corrente (utilizar um só nome ou designação e adjectivar) pelo que é só uma questão de me adaptar à terminologia de JMC. Refere depois JMC que "o principal motivo da falta de correspondência reside no facto de o objecto prático "realidade empírica" não ser redutível à economia regulada pela aleatoriedade do mercado e, portanto, não poder ser cabalmente reconstituído por um modelo cuja lógica intrínseca de funcionamento se atém fundamentalmente às relações de troca. Na realidade empírica, a economia não existe sem a política — pese embora a propaganda do capitalismo mais liberal, que propaga aos quatro ventos dispensar a intervenção do Estado — (sublinhado meu) porque a intervenção da política, directa ou indirectamente, nas relações de troca desigual é fundamental para o seu regular funcionamento" Tratar-se-á aqui de se estar a discutir um modelo ou representação teórica "datada" ou mesmo "desactualizada", não levando eventualmente em linha de conta os desenvolvimentos teóricos posteriores à sua formulação inicial. Há muito tempo já que os modelos teóricos utilizados nas principais instituições e "think tanks" procuram integrar parâmetros de análise como "cultura", "poder político", "geo-estratégia", "demografia"... Haverá mesmo que ter em linha de conta que a designação inicial da disciplina que procura(va) estudar estas coisas ("Economia Política") já procura(va) incluir entre os seus parâmetros de análise, o Poder Político, havendo hoje como que um regresso às origens da disciplina (com as ideias fundamentais de Marx e Engels mais ou menos camufladas sob designações esotéricas...). Hoje os teóricos e estudiosos da Sociologia, Psicologia ou da "ciência política" acusam mesmo a "Economics" de pretensões imperiais (entre as ciências...) exportando os seus modelos analíticos (alargados e reformulados) para outras disciplinas como acontece até com a Psicologia Social. No caso da Política teremos a escola ou teoria da "escolha racional". No plano pragmático (e nacional) há diversos grupos de estudo na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Técnico e no ISCTE (pelo menos...) que – trabalhando no campo da Inteligência Artificial (e mesmo na disciplina de "Vida Artificial") - já há uns 20 anos que se dedicam ao desenvolvimento de modelos analíticos procurando operacionalizar conceitos como "motivações", "pressão social de grupos", "intervenção política"... Tudo isto à imagem e semelhança do que se faz em centenas de centros de investigação por esse mundo fora. Parece-me que, em particular, JMC está a ver o problema de um ponto de vista muito pessoal, quando afirma "pese embora a propaganda do capitalismo mais liberal, que propaga aos quatro ventos dispensar a intervenção do Estado". O que eles de facto afirmam (ou propagandeiam...) é "menos Estado, melhor Estado". Querendo com isso dizer (e esta é uma questão consensual entre os observadores): "Menos Estado "providência" (menos Segurança Social...) e melhor Estado garante da ordem pública, dos direitos de propriedade e etc..." Os relatórios do Banco Mundial não fazem mais do que reflectir essa realidade comezinha que é a continuada intervenção do Estado mas a favor deles. Até já inventaram novos palavrões como "governança" e "boa governação". Também aqui haverá uma grande divisão entre os que fazem esses estudos (e elaboração de modelos analíticos) desde um ponto de vista "dos poderes estabelecidos" (ou o chamado "establishment") e os que fazem esses estudos de um ponto de vista de "contra-poder" (estes normalmente só em algumas Universidades... Ou ligados a organizações alter-mundialistas). Foi o conflito ideológico entre essas duas grandes correntes que, por exemplo, levou à demissão de Stiglitz (um keynesiano militante...) da Vice-Presidência Senior do Banco Mundial. E segundo o próprio Stiglitz até (ou também) por causa das diferenças (radicais) nos modelos analíticos a utilizar para compreender o funcionamento daquilo que JMC designa por "economia política realmente existente". Diz a certa altura JMC que "Neste sentido, Marx foi o mais próximo dos grandes profetas", depois de dizer também "antes de desenvolver o seu modelo teórico formulara uma profecia idealista, na qual o capitalismo era apontado como o último modo de exploração (constituindo, deste modo, o fim da História) e o papel de transformação social radical era atribuído à classe explorada do capitalismo".. Sublinho de novo o que já tive ocasião de afirmar, não me considero um especialista da totalidade da obra de Marx (e/ou Engels...), apenas uma mero aprendiz mas julgo (presunção e água benta...) ter retido o fundamental do seu pensamento no que diz respeito à sua filosofia da História e do funcionamento da Economia Política. Por essa razão continuo sem entender o sentido em que Marx possa ser considerado um "profeta" (e ainda por cima "idealista"). Daquilo que me lembro (da filosofia marxista da História), aquilo que Marx pensava era justamente o contrário. O capitalismo seria (poderia ser...) antes o fim da Pré-História da Humanidade. Por outro lado julgo ser consensual a ideia de que ao conceito "Profeta" está associada uma ideia de anunciada "intervenção divina" (a qual ocorreria em "desespero de causa"...), assim como de "teleologia" (a História além de ter um sentido teria também e sobretudo um "objectivo"). Em toda (a pouca) literatura que tenho consultado sobre esse tema, o que constato é que são normalmente ideólogos do liberalismo (ou anti-marxistas, mas não só) que referem a "teleologia de Marx", ou seja, que atribuem a Marx a ideia de que ele teria "profetizado" a chegada de uma sociedade comunista "até na medida em que seria esse o sentido – ou destino final - da evolução da História". Pelo que tenho visto ou lido, constato também que quer Marx quer Engels partilhavam da ideia exactamente oposta. Para eles o "determinismo" da evolução (na "Natureza" e na "História" – como se se tratasse aqui de entes separáveis...) não era de caracter teleológico (não tinha um sentido de inevitabilidade porque assim estivesse como que pré-programado pelo Ente Supremo...), mas seria antes o desenrolar natural das coisas de acordo com prosaicas leis ciêntíficas que a Humanidade iria descobrindo. No caso da Humanidade haveria que acrescentar (digo eu agora) a perspectiva da capacidade humana de decisão, ou – como será óbvio – o problema da "liberdade e da necessidade". Veja-se – a esse respeito – dois exemplos, datados da fase anterior à referida elaboração do "objecto teórico" ou "modelo analítico" - "Modo de Produção Capitalista" Carta de Engels a Marx Em Bruxelas Fonte: MECW Volume 38 Escrita em 18 Outubro de 1846 (a propósito de Feuerbach) "Extensos disparates contra a teleologia, imitando os antigos materialistas (sublinhado aqui por mim). "Faz uma série de anedotas de mau gosto à custa da premissa dos teólogos de que sem Deus a Natureza dissolver-se-ia em anarquia (i.e. sem a crença em Deus ficaria reduzida a cacos), que é a vontade de Deus, a sua inteligência e opinião que unifica o mundo..." Carta de Engels a Marx Em Londres Fonte: MECW Volume 40 Escrita em 1859 "A propósito, Darwin, que estou agora mesmo a ler, é absolutamente esplêndido. Havia um aspecto da teleologia que tinha ainda que ser demolido e isso foi feito agora. Nunca antes se tinha verificado uma tão grandiosa tentativa de demonstrar a evolução histórica na Natureza e certamente nunca com tão bons resultados". Desde uma anterior "polémica" (aqui no Dotecome) sobre o caracter determinista (ou não) dos escritos de Marx (e, já agora, de Engels) que, de vez em quando, procuro rever (ou através da leitura dos originais ou através de fontes secundárias...) a questão do determinismo histórico em Marx e Engels. Confesso que continuo sem encontrar o que quer que seja que justifique esta asserção de JMC, mesmo que ao nível da metáfora literária. Isto na medida em que só a aceitação de um caracter determinista (ou teleológico) das teses de Marx e de Engels é que justificaria – na minha opinião (...) – a asserção de JMC acerca da "profecia idealista". Por essa razão agradeço a JMC (ou a qualquer outra alma caridosa) que me dê alguma dica ou orientação bibliográfica pois gostaria de ler e estudar o texto (ou textos) em que se possa inferir que Marx tenha formulado uma profecia idealista. Ou então em que condições é que aquilo que ele tenha escrito possa ser interpretado como "profecia idealista". Digo isto – e faço este apelo – na medida em que tudo o que encontro em Marx (para começar em "A Ideologia Alemã") são sarcasmos do próprio Marx acerca das profecias alheias sobre o futuro próximo. Mas aceito a hipótese de estar enganado. Além de que o tema é complexo e extensíssima a literatura a esse respeito. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |