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| Subject: Blasfémia | |
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Author: Luís Fernando Veríssimo |
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Date Posted: 19/06/06 14:13:53 In reply to: José Carlos Espada 's message, "Ainda a Revolução Francesa" on 19/06/06 14:12:00 Artistas e intelectuais, por mais pretensiosos que sejam, nunca esperam que sua obra vá incendiar o mundo. Até pressupõem que têm uma liberdade tácita para serem extremados e irreverentes o quanto quiserem, já que o que fazem é apenas arte, não realidade. Humoristas têm essa licença presumida mais do que outros, porque a sua é a arte do exagero, duplamente separada do real, portanto duplamente isenta de maiores consequências. Podem ser censurados ou proibidos por ditaduras terrestres com medo do ridículo, mas jamais se imaginariam afrontando todo um sistema cosmogónico. E de repente, como aconteceu há pouco com cartoonistas holandeses, se descobrem premiados com esta dúbia distinção: sua arte atingiu um deus e mobilizou uma nação inteira. Eles não podem deixar de estar sentindo um certo orgulho - nenhum grande artista do passado foi tão consequente quanto eles - enquanto vêem se as portas e as janelas estão bem trancadas. A reacção às charges ofensivas surpreendeu em parte porque no Ocidente se perdeu o conceito de blasfémia. Entre os sentimentos ambíguos que essa revolta do Islão provoca se poderia supor a inveja dos outros monoteísmos, que não contaram com o mesmo fervor dos seus fiéis contra a secularização e olha no que deu. A ideia secularista de que o avanço da civilização depende do declínio do sagrado é mais ou menos consensual, e o fanatismo islâmico, em contraste com a tolerância e o pluralismo de religiões que se modernizaram, seria uma prova disso. Mas existe uma civilização muçulmana que, resistindo ao fanatismo, não relativizou o sagrado. Uma civilização antiga que já foi mais avançada do que a europeia e foi, mesmo, corrida da Europa pelo fanatismo cristão. Ao mesmo tempo, em algumas das sociedades mais avançadas do mundo, existem e prosperam crenças e seitas obscurantistas que representam o «sagrado» na sua forma mais primitiva, convivendo com a civilização. Querendo dizer o quê? Que não há um choque de civilizações nem um choque entre um mundo civilizado e um bárbaro. Há uma diferença entre um extremo do sentimento religioso para o qual a blasfémia ainda é um mal absoluto e um extremo do pensamento secular que diz que nada deve ser sagrado. Onde estão os humoristas. Alguns apavorados. Ah, o século dezanove As utopias morreram, as ideologias agonizam, e eu também não ando me sentindo muito bem. «Esquerda» e «direita» são termos obsoletos. Vêm da divisão física entre os progressistas e os conservadores nas assembleias legislativas francesas depois da revolução. Quer dizer, têm mais de duzentos anos. Não significam mais nada. Ou significam? Mesmo com outro nome, esquerdistas e direitistas ainda pensariam de modos diferentes, embora não tanto como no século dezoito. Se se chamassem Centro A e Centro B continuariam a pensar e a ser diferentes e a entender e a querer coisas opostas. Mas há um sentimento que une, sim, direita e esquerda. Uma nostalgia comum que nenhum lado confessa e da qual talvez nem se dê conta. Mas existe. É a saudade do século dezanove. Ah, o século dezanove. A esquerda poderia evocar o texto do Paulo Mendes Campos que fala das primeiras horas do Génese, com «o mundo ainda húmido da criação», para descrever com o mesmo encanto aquele outro começo. Quando a História, por assim dizer, entrou na história e tudo recebia seus nomes verdadeiros. Uma segunda Criação. Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico e a modernidade tecnológica e a modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo. «Bliss was it in that dawn to be alive», êxtase era estar vivo naquela aurora, escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa. A esquerda poderia dizer o mesmo do século dezanove. Naquela aurora não havia dúvida sobre a inevitabilidade histórica do socialismo. Mas êxtase também espera a direita numa volta idílica ao século dezanove. Foi o século de reacção à revolução, da restauração conservadora na Europa depois do terramoto republicano e do nascente capitalismo industrial sem remorso. Os que hoje propõem a «flexibilização» dos direitos dos trabalhadores, conquistados em anos de luta (como os que os franceses há pouco defendiam nas ruas de Paris), babariam com o que veriam no velho século: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo e sem qualquer encargo legal ou moral, fora os magros salários, para seus empregadores. A perfeição. Antes que a pregação socialista a estragasse. Século dezanove, terra de sonhos. Para a esquerda e a direita, juntas. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Papel do Estado está em baixa | ASl | 19/06/06 14:24:59 |