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Subject: Crescei e multiplicai-vos


Author:
Inês Pedrosa
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Date Posted: 29/07/07 17:07:59
In reply to: Rosa Redondo 's message, "Apoio à natalidade!!!!!" on 22/07/07 20:09:00

- MARIA, vamos lá fazer mais um filho, que o Governo dá-nos abono.

- E de quanto é esse abono, Manel?

- Como o nosso rendimento é de 198 euros por mês, vamos receber mais 130 euros, mulher. Desde os três meses de gravidez até o menino ter um ano de idade. Se ganhássemos os dois o salário mínimo, o abono era só de 53 euros. Estás a ver? Até temos sorte em não trabalharmos. Depois, quando o abono baixar, ficas grávida outra vez.

- Mas as despesas com as crianças crescem, Manel.

- Ora, Maria. Assim que tiverem corpinho para trabalhar, os miúdos começam a ajudar-nos. Em vez de andarem na gandulice, quando vierem da escola podem muito bem coser uns sapatos.

Esta conversa imaginária entre um casal com rendimento mínimo não é ainda, infelizmente, tão ridícula quanto se desejaria. A pobreza real, mais ou menos disfarçada, que afecta milhões de portugueses, leva-os a considerar os filhos como instrumentos de trabalho. À medida que subirmos no escalão de rendimento, mais ridícula se nos afigurará esta conversa: alguém acredita que uma família de classe média considere ter um segundo um filho porque o Estado lhe paga 65 euros por mês?

Não é só porque os montantes dos abonos serão, na prática, irrisórios, face às dificuldades das famílias e ao custo real de uma criança, que este incentivo do Governo à natalidade me parece, mais do que ridículo, perverso. Os pobres já são aqueles que mais filhos têm, e isso em nada tem contribuído para a evolução económica deles, nem do país. Temo que, num país com uma tradição de desprezo pelos direitos da criança, esta motivação financeira imediata funcione junto dos mais desesperados - ou seja, os menos indicados para assumir a enorme responsabilidade de criar um filho.

Bem sei que o Governo espanhol decidiu atribuir, a partir do próximo mês de Novembro, 2.500 euros por cada parto ou adopção. Mas nós ainda não somos espanhóis (por muito que o deseje o ibérico Nobel nascido neste pequeno e orgulhosamente independente jardim). 2.500 euros de prémio por parto são uma tentação para qualquer drogadita alucinada.

É evidente que as famílias mais numerosas devem receber apoios maiores, e é irónico que os países do Sul da Europa - Portugal, Espanha, Grécia e Itália -, para os quais a família é, supostamente, sagrada, sejam aqueles que menos a apoiam. Um estudo recente do Instituto de Política Familiar catalão revelou que os países europeus que maior auxílio oferecem aos agregados familiares são o Luxemburgo, a Dinamarca, a Suécia e a Irlanda.

Quando o incentivo à família se restringe ao aumento do subsídio por criança (um aumento, ainda por cima, irrisório e miserabilista, no caso português), pode até fazer-se crescer ligeiramente a natalidade, mas em nada se está a contribuir para uma consistente evolução económica e social das famílias. O acréscimo nos abonos agora anunciado pelo Governo surge acompanhado de uma ampliação do período de licença de parto para as mulheres. No «Correio da Manhã» do passado dia 23 surgia o seguinte título: «Mães com mais tempo para os filhos». Pergunto, pela milésima vez: e os pais? Quando terão mais tempo para os filhos? Enquanto o tempo para a maternidade não for equiparado ao tempo para a paternidade, continuaremos a ter uma sociedade discriminatória, para homens e mulheres: elas, porque continuarão a ser as últimas a conseguir emprego; eles, porque continuarão a ser preteridos (em caso de divórcio, por exemplo) no direito aos filhos. Também os filhos são prejudicados, no seu desenvolvimento, por este persistente entendimento da paternidade como subproduto.

Empurrar as mulheres para a vida doméstica com mais uns tostões por gravidez não pode ser a solução da natalidade - que passa, sim, pela ampliação da rede de creches (que cobre apenas 23,5% do país) e jardins de infância (uma em cada quatro crianças não encontra vaga nos jardins-de-infância do ensino público), pelo direito de escolha da escola pública, pela criação de um sistema de transporte escolar e por apoios à escolaridade (por exemplo, a redução do preço dos livros escolares, que - sinal dos tempos - já se vendem a prestações).

Mas pergunto: o mundo está subpovoado? Pelo contrário. A população está é mal repartida. Porque é que entendemos os problemas do Ambiente e da Natureza como temas globais e que só globalmente podem ser resolvidos - e não conseguimos olhar da mesma forma para a questão populacional? Escreve o sociólogo Zygmunt Bauman (em «Vidas Desperdiçadas», Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2005) : «Sempre há um número demasiado deles. ‘Eles’ são os sujeitos dos quais devia haver menos - ou, melhor ainda, nenhum. E nunca há um número suficiente de nós. ‘Nós’ são as pessoas das quais devia haver mais.» Recusamo-nos a aceitar esses «eles» que sobram noutros lugares do mundo como partes de «nós» - sem entendermos sequer que a miséria é, além de perigosa, contagiosa. Recusamo-nos a perceber que só quando escasseia o ser humano se torna precioso - quando não é carne para canhão, a triturar pelos poderes deste mundo.

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Subject Author Date
Re: Crescei e multiplicai-vosPaulo Silva30/07/07 1:39:13


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