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Subject: Mas se já nem os amanhãs cantam...


Author:
José Miguel Júdice (Público, 10.08.2007)
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Date Posted: 10/08/07 9:28:59

Mas se já nem os amanhãs cantam...


A grande questão da direita é perceber o papel que lhe resta quando os adversários já não se consideram socialistas


Na passada semana concluí que a esquerda europeia está a libertar-se da "chantagem" emocional psico-sociológica do marxismo e a abandonar - como sempre o fez a esquerda americana - o socialismo como estrutura de enquadramento e mito mobilizador para os seus objectivos. Esta evolução começou no Reino Unido e está a expandir-se, criando uma situação politicamente curiosa: a caminhada do partido dominante à esquerda para o centro do espectro político é feita sem perda da liderança estratégica sobre os sectores (minoritários) que se continuam a reivindicar do socialismo, da sociedade sem classes, do fim da propriedade privada, do Estado produtor e burocrático e de outros ideais que dominaram entre os intelectuais na segunda metade do século passado.
Pelo seu lado, a direita europeia também foi sofrendo um processo evolutivo, influenciada que estava, como é normal, pela ideologia dominante. O "socialismo à portuguesa" do CDS a seguir à Revolução não é tanto oportunismo saloio (embora o seja) quanto a admissão de que os modelos finais do socialismo estavam interiorizados muito mais do que se imaginava. Sei do que falo: em 1972, eu defendia em público, à direita, a nacionalização da banca e dos seguros e a reforma agrária sem indemnizações.
A direita percebeu muito antes do que a esquerda o que estava a mudar e, com isso, assegurou durante algumas décadas um tendencial domínio político; e, gradualmente, mesmo um certo domínio ideológico sobre todos os que - incapazes de se reverem no socialismo - se refugiavam, com maiores ou menores especificidades, no espaço do não-socialismo. E beneficiou do arcaísmo e da má consciência da esquerda moderada, que, afinal, se sentia a trair os ideais radicais e marxizantes da sua juventude.
A viragem coperniciana dos trabalhistas ingleses foi um sinal que deveria ter sido entendido pelas direitas europeias, sobretudo a sul, mas que em regra o não foi. Com a única excepção de Sarkozy (e ainda é muito cedo para daí se tirarem conclusões), os Berlusconi, os Rajoy, os Major, os Barrosos e outros que tais, não foram capazes no Governo (nem na oposição) de se adaptarem a um novo combate político, continuando a disparar sobre alvos que entretanto se tinham deslocado, mesmo quando nalguns casos ainda o estejam a fazer de forma lenta e insuficiente.
A grande questão que se coloca à direita europeia é assim perceber qual é o papel que lhe resta quando os seus adversários já não se consideram socialistas, acreditam na economia de mercado, são conservadores em matéria de costumes, abominam as nacionalizações e não prometem no futuro a sociedade sem classes, cultivam os ricos, apoiam o investimento dos grupos económicos, defendem os valores patrióticos, são duros em matéria de segurança, investem nas forças armadas.
A esquerda europeia (chamando-se "trabalhista", "democrata" ou, pelo menos ainda, "social-democrata"), e com a conhecida "exception française", está a tornar-se assim o partido natural de Governo e a atrair facilmente muitos dos que não aderiram aos partidos socialistas precisamente por causa do radicalismo entontecido que os caracterizava. Por muito acrónica que seja a pergunta, será que Sá Carneiro teria achado hoje que o PPD faria ideologicamente sentido, como manifestamente fez há 33 anos?
O problema do PSD em Portugal passa por aí. E também por aí passa a razão da tese que apresentei há semanas da criação de um novo partido de direita (e não a fusão entre o CDS e o PSD, visto que, como afirmei na altura, dois anões juntos não fazem um gigante), que integre o que resta de bases e quadros do PSD e do CDS, mas que seja dinamizado por pessoas que estão fora deles, têm menos de 50 anos, sentem o apelo da política, já raciocinam fora da dicotomia socialismo/capitalismo e estão mais preocupadas com 2013 do que com 2009.
A minha tese (efeitos da silly season?) fez manchetes e foi objecto de violentos ataques, o que apenas demonstra que toquei onde doeu. Desde a tradicionalmente portuguesa atitude de sugerir que ensandeci, às afirmações "patrióticas" de quadros de cada um dos partidos a gritar que estão muito bem e assim querem ficar, passando pela estupidez objectiva de me ser retirado o direito de reflectir e de dizer o que é bom para o sistema político à direita devido a ter apoiado António Costa em Lisboa, de tudo ouvi com a minha habitual paciência estóica.
Por isso insisto: o PSD perdeu o sentido ideológico que apregoa e que nada tem a ver com o que querem os seus votantes, estando a viver um estado de esquizofrenia político-ideológica mansa, mas perigosa. Mesmo que não estivesse moribundo, e está, o PSD não pode competir com o PS como se este ainda fosse socialista, defendendo aquilo que acha que um PS digno desse nome devia defender, mas já não defende. O PSD não pode apresentar-se ao eleitorado apenas como um melhor gestor do Estado socialista do que o partido de Sócrates, até porque já não tem Cavaco nem a cornucópia da CEE que nos inundou de dinheiro a partir de 1986. E a utilidade sistémica dos partidos à direita do PS é nula se não forem capazes de gerar uma alternativa coerente, mobilizadora e agregadora, que se implante gradualmente, que espere pelos alcatruzes da nora, em 2013, e nessa altura faça diferente.
Podem não agir assim, claro. Podem afirmar, como outros antes deles, "que os cobardes recuem e os traidores se riam; nós continuaremos a desfraldar a bandeira vermelha" (ou laranja...). Mas com isso apenas ficarão naturalmente condenados à oposição e, pior do que isso, à inconsequência e à inutilidade. Com autismo e com orgulho, continuarão a lutar as batalhas de ontem, sem exercerem o poder, sem influenciarem a sociedade, sem mobilizarem quaisquer seguidores, falando para dentro, discutindo a ideologia do pagamento de quotas, afundando-se tristemente na sua crescente irrelevância.

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Subject Author Date
A esquerda pós-marxista e pós-socialistaJosé Miguel Júdice (Público, 03.08.2007)24/08/07 18:19:44


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