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Subject: A esquerda pós-marxista e pós-socialista


Author:
José Miguel Júdice (Público, 03.08.2007)
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Date Posted: 24/08/07 18:19:44
In reply to: José Miguel Júdice 's message, "Mas se já nem os amanhãs cantam..." on 10/08/07 9:28:59

A esquerda pós-marxista e pós-socialista


A esquerda moderada europeia foi sendo formada pelos que deixaram de acreditar, que perceberam o que estava errado
Eric Hobsbawm é seguramente menos conhecido em Portugal do que José Hermano Saraiva. Mas é justamente considerado um dos maiores historiadores do século XX. Hobsbawm manteve-se fiel ao marxismo e ao Partido Comunista, mesmo depois de estes terem sido abandonados por quase todos os intelectuais de esquerda e apesar de ter escrito uma desencantada obra sobre o comunismo, a sua magnífica autobiografia, Interesting Times, que acabo de ler na excelente tradução de Miguel Serras Pereira para a Campo das Letras.
Talvez porque o meu pai foi comunista e abandonou o partido no início dos anos 50, talvez por a minha juventude ter sido dominada pela omnipresença do marxismo e pelos grupos e grupúsculos comunistas, talvez por sentir uma especial atracção pelos marginais, pelos que se enganaram e pelos que ficaram perdidos em praias vazias iludidos pela beleza fugaz do horizonte, o certo é que devo ser em Portugal, de entre os que nunca foram marxistas, um dos que mais leram sobre o comunismo e mais se interessaram pelo fenómeno sociológico e ideológico do marxismo.
Lembro, entre tantos outros livros que me encantaram, Dez Dias Que Abalaram o Mundo (e a estranha sensação de sentir pena de não me ser possível psicologicamente empatizar com o que realmente me atraía no meio da repulsa pelas ideias), Quand fera-t-il jour, Camarade? (que para mim retrata como nenhum outro livro a estranha saga dos mencheviques, destruídos por dentro entre a opção de se unirem aos bolchevistas, discordando totalmente deles e da sua estratégia, por solidariedade de classe ou de grupo, ou optarem pelas posições pró-Kerensky, tentando criar um regime capitalista burguês como o marxismo propunha, mas para isso unindo forças com os inimigos dos seus camaradas) e a obra de Dumont (por exemplo, Cuba est-il Socialiste?, que revelava com agrura uma plutocracia incapaz que governava em nome do comunismo).
O que ressalta destes e de tantos outros textos semelhantes é a tragédia de muitos que acreditaram nos ideais e sofreram o choque da realidade, que pactuaram com muita coisa que os horrorizava em nome do futuro, apenas para descobrirem que a sua falta de coragem cívica não servira de nada que não fosse prolongar um erro, que não quiseram ver o que era evidente para não servirem os interesses dos seus adversários na maniqueísta guerra fria.
Esta complexa vivência, que foi o pão que o diabo amassou de tantos intelectuais idealistas e generosos da esquerda europeia, complicou-se por causa de uma tradição judaico-cristã envelopada numa estúpida teoria de coerência e de fidelidade, mesmo que contra a evidência e a vontade esclarecida.
O mundo ocidental conhece o arrependimento e a conversão, o banho lustral dos "born again"; mas, apesar disso, reage em regra mal ao que culturalmente se considera uma apostasia, uma traição, um abandono dos seus ("right or wrong, my country"), lançando "gritos de traição contra os que insistem em ver o mundo tal como é", como escreve Hobsbawm.
Não se trata de distribuir Óscares da ética ou da razão. Não sou capaz de dizer qual é mais louvável, o que morre na defesa daquilo em que já não acredita ou o que aceita a dor da separação dos seus para continuar a lutar por aquilo em que no fundo sempre acreditou. Apenas sou capaz de afirmar, sem margem para qualquer dúvida, que o lançamento de anátemas - desporto a que se dedicam ao longo dos séculos os intelectuais, naquilo que é a sua forma de Inquisição - nunca é justificado, mesmo quando não seja compreensível aparentemente a opção de ficar, na teimosia de uma convicção contra as evidências, ou a opção de partir, mesmo quando se sabe que os que ficam talvez não merecessem ser abandonados apesar daquilo por que ou da forma como continuam a lutar.
Hobsbawm explica a razão de nunca ter abandonado o partido, a que afinal desde 1956 - ou seja há mais de 50 anos - praticamente já nada o ligava: a memória do início dos anos 30, em Viena, e a sua crença de então de que na Revolução de Outubro se prefigurava a esperança de uma revolução mundial, tão adequada a um judeu escatologicamente imerso numa atmosfera como a da Europa Central desse tempo; a luta antifascista e o maniqueísmo da guerra fria. Mas sobretudo, como com lucidez escreve, porque "ninguém me obrigou a sair e as razões que tinha para me afastar não foram suficientemente fortes" e por causa do orgulho de tentar alcançar o sucesso profissional vencendo o handicap que nesses tempos constituía ser membro do Partido Comunista no mundo anglo-saxónico.
Seja como for, percebe-se bem por aqui o que foi o peso axiológico que sobre a esquerda europeia constituía este tipo de homens, que funcionavam como uma consciência ética (tanto mais quanto, nunca tendo estado no poder, nunca tinham sido obrigados a trair os ideais) e como um limite à adaptabilidade aos tempos modernos.
De facto, a esquerda moderada europeia foi sendo formada pelos que deixaram de acreditar, pelos que deixaram de querer esperar, pelos que perceberam o que estava errado. Mas em todos eles o romantismo do livro de Reed, a memória dos sofrimentos partilhados, as ilusões da crença juvenil, impediam - mesmo quando disso não tinham consciência, mesmo quando se tornavam anticomunistas mais ou menos fanáticos - a possibilidade de uma esquerda pós-marxista, como tem de ser uma esquerda não socialista.
O que está agora a acontecer, 50 anos depois da invasão da Hungria, 40 depois da invasão da Checoslováquia e 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, é o surgimento de novas gerações a liderar a esquerda europeia para as quais já não faz nenhum sentido (nem sequer afectivo) o marxismo, o socialismo e o messianismo angélico, generoso e inviável, de uma sociedade comunista, para os quais a propriedade privada não é mais uma realidade condenada no futuro e só em programas de humor negro afirmariam em que o Estado produtor é a antecâmara da sociedade sem classes.
E contra isso, talvez paradoxalmente, a direita não sabe ainda como lutar. Mas esse será tema do artigo da próxima semana. Advogado

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