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Date Posted: 18:57:19 05/18/09 Mon
Author: Eduardo Ferreira
Subject: Resumo Madeira (2005)

RESUMO: Crenças de professores de Português sobre o papel da gramática no ensino de Língua Portuguesa
(Fábio Madeira, 2005)


O artigo investigou as crenças que os professores de Língua Portuguesa carregam consigo sobre o papel da gramática no ensino, para que serve e como a abordam em sua prática. Inicialmente o autor traz uma definição de crenças a partir da comparação com o conceito de conhecimento. Conhecimento seria o que se tem como resultado de pesquisa científica, a partir de fatos provados empiricamente, enquanto crenças são o que se “acha” sobre algo, o conhecimento implícito que se carrega, não calcado na investigação sistemática. No campo de ensino/aprendizagem a investigação das crenças se justifica pela influencia que elas têm no fazer do professor, como defende Nespor (1987), e no processo de aquisição dos novos conhecimentos pelo aluno. Ainda para embasar sua justificativa, Madeira recorre aos PCNs no ponto em que é atestado que a prática dos professores, ainda que implementada pela aquisição de novos conhecimentos teóricos, é influenciada por crenças e práticas anteriores.

No caso do ensino de Língua Portuguesa, o interesse pelo estudo das crenças dos professores sobre o papel da gramática surgiu do questionamento do ensino tradicional por meio de regras gramaticais fixas e termos técnicos, o que é uma discussão de longa data. O questionamento do ensino normativo da gramática tem suas origens no início do séc. XX quando as camadas populares tiveram acesso ao ensino público, ficando evidenciada a ineficácia do ensino de Língua Portuguesa praticado, não só por desprezar as variedades lingüísticas da classe baixa mas também pela “inconsistência teórica e a falta de coerência interna no modelo de gramática já que muitas das definições apresentadas por aquele modelo não dão conta de todos os usos da língua”. (p.22)

A partir daí surgem outras concepções de gramática:
Gramática Normativa: lida com a norma culta da língua, não diferencia escrita de oralidade, e não aceita o uso de quaisquer outras formas diferentes de norma culta.
Gramática Descritiva: conjunto de regras baseado no uso da língua, não faz prescrições e concebe um conjunto de formas de expressão característico de qualquer variedade lingüística. O “erro” gramatical é caracterizado apenas por formas ou estruturas que fogem ao funcionamento das diversas variedades de uma língua.
Gramática Funcional: preocupa-se com o uso funcional da linguagem que transcende o estudo da estrutura gramatical da sentença e passa pela sociolingüística e pela pragmática.
Gramática Internalizada: tem suas bases na teoria inatista chomskiniana e se define como um conjunto de regras que um falante denomina e utiliza na produção de frases compreensíveis e reconhecidas. Só é considerado erro as formas que fogem completamente a qualquer variedade lingüística reconhecida pelos falantes de uma língua.
Mattos e Silva (2002) vê as diversas concepções de gramáticas como diferentes recortes do fenômeno lingüístico que se completam.

Em relação ao papel da gramática no ensino de língua portuguesa e o tratamento dado a esta questão na escola Possenti (1996) postula que o “objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido”, sem deixar, no entanto, de discutir os diferentes conceitos de gramática. Perini (1993) ressalta a incoerência e inconsistência teórica do modelo normativo de gramática, e defende, ainda que indiretamente, pressupostos da gramática descritiva funcional.

Numa investigação sobre como os professores de Língua Portuguesa lidam com a gramática, Moura Neves (1994) constatou que nem sempre suas práticas coincidem com seus discursos, e destaca cinco pontos: 1) os professores em geral acreditam que a função do ensino da gramática é levar a escrever melhor; 2) os professores foram despertados para uma crítica dos valores da gramática tradicional; 3) os professores têm procurado dar aulas de gramática não-normativa; 4) os professores verificam que essa gramática “não está servindo pra nada”; 5) apesar disso, os professores mantêm as aulas sistemáticas de gramática como ritual imprescindível à legitimação de seu papel.

Apesar das considerações e críticas feitas à gramática normativa, é quase um consenso que o ensino de língua portuguesa em ambiente institucional deve ter como objetivo principal apresentar ao aluno a norma culta, entretanto é importante mostrar que esta é apenas uma das variedades existentes e que o importante é saber utilizar a língua de maneira adequada em diferentes contextos de comunicação.

A pesquisa realizada por Madeira com 32 professores de língua portuguesa da rede pública de São Paulo, por meio de questionários Likert scale e entrevistas, chegou aos seguintes resultados:
91% concordam que a prática leva ao aprimoramento da habilidade de escrita. Os erros cometidos no período inicial de aprendizagem devem ser aceitos naturalmente. 94% dos participantes teceram críticas ao modelo gramatical normativo e ficou evidente uma postura crítica em relação às práticas tradicionais com ênfase em regras gramaticais. Observou-se uma preocupação com as contextualização do conteúdo gramatical, entretanto, nem sempre eles tem uma noção apropriada do que seja isto. A atividade de produção de texto é recomendada por vários professores, mas eles não relacionam a aprendizagem de gramática apenas à produção do texto escrito.

Os resultados evidenciam uma consciência, por parte dos professores participantes, da necessidade de se rever as abordagens utilizadas para o ensino da gramática, sem banir a exposição dos alunos à norma culta. Entretanto, não se observa uma preocupação pela discussão em sala de aula sobre variedades lingüísticas, o que poderia ser útil no desenvolvimento da competência comunicativa. Enfim, a pesquisa de Madeira mostra que apesar de não estarem profundamente envolvidos com os estudos lingüísticos, os professores participantes colocam-se abertos a reconsiderações e a questionamentos de concepções antigas de ensino e aprendizagem, permitindo uma resignificação das suas crenças sobre o ensino de gramática.

Eduardo Ferreira dos Santos

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