| Subject: Re: discussão: a propósito |
Author:
oviola
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Date Posted: 11:40:49 06/19/01 Tue
In reply to:
webmaster
's message, "discussão: a propósito" on 22:50:27 06/18/01 Mon
>Subject: a propósito...
>From: oviola
>To: All
>Date Posted: Fri, Jun 15, 2001 at 14:09:52 (WEST)
>Email Address: oviola@net.sapo.pt
>
>Message:
>Boa tarde. Depois de ter sido alertada por uma
>revista, a meu ver algo duvidosa, para este
>abaixo-assinado, resolvi espreitar. Fui lendo as
>intervenções com mais ou menos atenção, de acordo com
>o teor dos comentários e resolvi intervir. Antes de
>mais quero desde já esclarecer: Quando acima me refiro
>ao carácter duvidoso da revista quero com isto dizer
>que da informação lá veiculada faço sempre uma triagem
>pois já tive diversas oportunidades de constatar que é
>tendenciosa. Não a compro - teria razão mais que
>suficiente para não lê-la; mas acontece que a minha
>profissão obriga-me a que leia todo o tipo de
>informação, por isso quase toda a Imprensa é comprada
>no meu local de trabalho. Logo aqui explico por que
>abordo a questão assim - estamos perante outro tipo de
>lixo - o da Imprensa escrita. Ou porque os jornalistas
>já não são profissionais que se limitam a relatar
>factos ou porque o carácter de informação que
>pretendem fazer passar é o que mais vende. Pelo menos
>não me sentiria tão revoltada se os jornalistas
>assumissem que antes de mais são humanos, logo, antes
>de mais têm opinião, e depois profissão... Aqui nasce
>imediatamente outra problemática - o que vende! O que
>as pessoas querem ler! A responsabilidade de quem
>orienta os órgãos de Comunicação Social! A própria
>responsabilidade individual de todos! E tudo se resume
>a valores: ainda os há? Que valores são esses? Os meus
>serão os correctos? A minha leitura da nossa sociedade
>actual é tão somente esta: estamos ensinados pela
>lógica do mercado. Ela funciona até no mais pequeno
>pormenor. Saio de casa para o trabalho e no trajecto
>que faço diariamente deparo-me com algo que me
>desorienta - o salário mínimo português são sessenta e
>picos mil escudos. Os carros que vejo passar são os
>considerados - grande parte - de médio ou topo de
>gama. Então há dinheiro ou seremos nós, portugueses,
>magos das finanças?! A resposta é simples: mesmo não
>tendo dinheiro, temos crédito - que não é a mesma
>coisa - e alimentamo-nos de miragens. Se de facto
>fossemos verdadeiros não nos importaríamos de andar
>num carro mais barato, independente da opinião do
>vizinho - e aqui o vizinho teria a mesma opinião - mas
>o mostrar que temos é mais forte. E basta olhar para
>fora, para a nossa Europa, ou mesmo para a Espanha
>aqui tão perto, que ganham mais do que nós. Eles são
>maiores... De seguida, vou tomar o café - a bica - e
>observo as pessoas. A maior parte entretém-se a falar.
>Coisas triviais. Outros lêem. Outros pedem. Outros
>como eu observam. O quadro de sempre. Vou buscar a
>imprensa escrita e folheio-a. Estou por dentro de
>algumas coisas. Os jornalistas distorcem as notícias
>de acordo com o objectivo que pretendem atingir. Por
>incrível que possa parecer os objectivos são sempre os
>inimigos. Chegámos à era da informação pessoal. Tratam
>nas revistas e jornais os espaços noticiosos para
>troca de galhardetes, para desinformar opinando
>perspectivas pessoais. Fico sempre de pé atrás ao ler
>o que quer que seja. Mas há sempre desculpas para
>justificar tudo. É a grande chance para todos. Não foi
>Dostoiewski que escreveu num seu livro que 'a razão é
>como uma puta; abre as pernas a toda a gente'?!
>Folheio um jornal diário e começo a ler um colunista -
>um intelectual da nossa praça - a dissertar sobre os
>borbotas da roupa, das camisolas... não é incrível? Ou
>sobre a grande problemática que foi dar um nome ao seu
>cão, sim, porque tinha de ter nome de filósofo!
>Entretanto, folheio um jornal semanário e não quero
>acreditar no que leio: uma colunista conceituada da
>nossa praça disserta sobre a sua má disposição ao
>entrar no seu escritório e deparar com tudo
>desarrumado pelo seu filho que ainda não sabe que
>aquele espaço não é seu. O que concluir daqui? Não
>poderíamos voltar todos à infância e pedir aos nossos
>pais que nos reeduquem. Que nos ensinem que se
>queremos viver em sociedade nos devemos respeitar, dar
>ao respeito, respeitar os outros... e que fora da
>lógica do catecismo, há coisas que nos formam outras
>que nos desenformam e desinformam? Creio que a
>abrangência do lixo televisivo vai muito mais além.
>Não estamos habituados a comunicar, só a criticar. Não
>conseguimos ver que há coisas que podem ser más mas
>ter um lado pedagógico - o lixo da televisão é um
>deles. Em vez de estarmos a arremessar pedras uns aos
>outros, a querer valer a nossa opinião, não seria
>melhor pensar em alternativas a estes programas? Dêem
>às pessoas que os vêem programas alternativos, que as
>ensinem a fazer a tal triagem, que as cativem. Não
>ponham grandes debates com senhores/as a falarem muito
>bem e que só meia dúzia entende tais brilhantes
>palavras. A comunicação passa por aí. Primeiro
>ensine-se o alfabeto; depois aprende-se a ler. E para
>se saber se é bom ou mau tem de conhecer-se ambos os
>lados. Há coisas populares que são bem feitas e boas
>dentro do contexto em que se inserem. No cinema nem
>todos podem ser Bergmann; nos livros nem todos podem
>ser Dostoiewski e por aí adiante. Fico aturdida quando
>leio críticas fortes e sujas à nova vaga de escritoras
>portugueses com títulos de 'sei lá...'. Eu não os leio
>porque já aprendi a ler o que considero para mim bons
>livros. Mas há aqui um carácter pedagógico. As pessoas
>lêem mais. Mais tarde vão querer, se isso pretenderem,
>elevar os seus níveis de literatura. Dêem bigshows e
>bigbrothers às pessoas se elas os quiserem. Quem
>protesta são os que não vêem - embora me fique pela
>dúvida, pois há quem proteste e veja, e não é só pela
>curiosidade. Há um lado no ser humano que é a
>curiosidade. E mais se nota quando as suas vidas, a
>vida em geral, não apresenta muitas alternativas... eu
>posso ver e ser crítica numa primeira fase e se não
>gostar, desligo. Outros que não sabem fazer a triagem
>têm que ser ensinados a fazê-la, mas sem preconceitos,
>arrogâncias de quem se julga por cima. A humildade
>resolve de uma forma eficaz o que a arrogância
>despoleta no oposto. Aqui há um tempo andava
>desorientada porque não queria que a minha filha visse
>os dragonsbolls, os pókemons e afins: violência
>gratuita. Um dia percebi, fez-se luz, que se a
>contrariasse sem lhe explicar ou ela me enfrentava - e
>só tem 4 anos - ou os veria às escondidas. Propus-me a
>ver tais bonecas e com ela. E expliquei-lhe que as
>pessoas não andam sempre a ser heróis, a baterem-se, a
>transformarem-se e por aí adiante. Depois comecei por
>entrar na brincadeira de dizer que não gostava para
>ela me provocar. E agora digo-lhe que não lhe compro
>aquelas cassetes porque não prestam e ela entende e
>não faz birras nem jogos. Depois foi a era da música
>pimba. Toda a gente batia nessa música. Era chacota.
>Mas quando se ia às queimas dos estudantes, às festas
>das finezas ouvia-se música dessa. Era incrível. A
>justificação: era só puro gozo! Gozo sentia eu na
>justificação. Era assim tão terrível admitir que se
>gosta de música popular, sem trabalho musical, fácil
>para o ouvido mas que daqui a um tempo de esquece? Eu
>também tenho muitos preconceitos mas quero estar
>sempre atenta para me tornar uma pessoa melhor! Quanto
>ao Brigbrother vi uns epísódios, já não me lembro
>quantos, e valeu-me isso para concluir que aquilo não
>era o que eu procurava para entretenimento. Depois por
>curiosidade vi o bar da tv, o 1º; a curiosidade de ver
>a caneças foi superior. Não é senhora que eu considere
>como figura de prestígio, de referência - nem pode
>ser! Uma senhora que se percebe que não tem substância
>e vem dizer numa entrevista que tem como líder Che
>Guevara, ou que o seu divórcio foi kafkiano (?!) não
>pode merecer o meu respeito. Kafkiana é a vida
>daqueles que realmente sofrem por não terem direito ao
>mínimo na vida e ainda por cima são julgados,
>condenados, hostilizados por acederem ao pouco que
>têm, como estes programas que comentamos. Dêem-lhes
>coisas a valer que eles entendam e verão o resultado!
>Mas estava eu a dizer que a curiosidade era mais forte
>de ver a tal senhora - e depois concluí o que já tinha
>pensado antes: a oportunidade de aparecer e brilhar
>foi mais forte nela, e mais tarde terá o resultado. A
>sua imagem, porque esta senhora vive de imagens, sairá
>muito achincalhada; as argoladas que meteu foram
>óbivas! Depois, não vi mais. Fiquei muito triste de
>ter visto 2 concorrentes, um que apelava à mãe do céu
>e à terrena pela graça de ter estado ali; outra que
>rezava o terço. O ridículo por que passam em nome das
>audiências. Estas crianças pensaram que o lado
>religioso lhes traria mais vantagem sobre os outros
>concorrentes. Não é triste ver isto? De onde vem tal
>cariz de pensamento? Oo que têm extraído da vida, da
>educação, do mundo. Foi o que me ficou desse tal lixo
>televisivo. Vamos preocupar-nos mais em ensinar,
>descer aos seus universos, tentar entendê-los para
>depois, então, ajudá-los a gostar de outras coisas. Já
>agora, há muitos bons programas na televisão: no canal
>2; pena é que passem a horas tão tardias. Não têm
>audiências! As britcom são o exemplo. Mas estes
>programas passados em horário nobres não trariam
>audiências! E as televisões precisam do dinheiro dos
>patrocinadores, dos anunciantes. E até pagam a
>empresas para fazerem estudos de mercado: o grau de
>alfabetização de quem vê o quê; o nível económico de
>quem vê o quê, etc., etc.. Recuso-me a preencher
>estatísticas a não ser que sejam para ver quantos não
>sabem ler para os ensinarem. Porque não começamos por
>aí? Um abaixo-assinado para saber onde se lê menos,
>onde a analfabetização é menor, onde o nível económico
>é menor, e em regime de voluntariado propormo-nos
>dar-lhes qualquer coisa mais do que têm? Vamos
>contar-lhes histórias de bons livros, ensinar-lhes a
>pensar sobre os que os outros dizem, levar-lhes
>dicionários e jogar com eles, como fazemos - os que
>fazem - com os nossos filhos? Criar-lhes bons hábitos.
>É tudo. As minhas desculpas pela extensão. Mas a
>questão é de maior dimensão. Obrigada. A velha
>questão: o que é mais importante, a árvore ou a
>floresta? Não é uma complemento e consequência da
>outra? OV
>
>-------------------------------------------------------
>-------------------------
>Subject: Re: a propósito...
>From: Flame
>To: oviola
>Date Posted: Mon, Jun 18, 2001 at 04:34:29 (WEST)
>Email Address: flame@flameworld.cjb.net
>
>Message:
>Bom Dia.
"...pareceu-me um pouco passiva na forma de os
>solucionar, passiva não em quantidade de soluções mas
>no seu caracter utópico ou de longo prazo..."
- concordo. Porém e tal como diz o velho ditado 'água mole em pedra dura...' isto para dizer que a mecanização funciona. É-nos dado esse tipo de programas e por isso, obrigatoriamente, os interiorizamos, exactamente porque não estamos educados para fazer a tal triagem. Se as televisões nos inundasse com outros programas seriamos obrigados a digeri-los ou a solução passaria pelo desligar. Mas volto ao mesmo: como entender outro tipo de programas se não há preparação para tal?
É ,como diz, realmente em Portugal um problema de mentalidades.
E sublinho que o primeiro a educar é o problema das mentalidades.
Veja-se o caso do referendo ao aborto. Quantas mulheres não o fazem em condições perfeitamente miseráveis e no entanto é dada a oportunidade de legalizar a questão expressando sigilosamente a opinião e não o fazem?! Porquê? Porque achamos que quem está lá em cima é que tem de resolver. Depois, aí temos as decisões...
É passivo esperar que a solução do problema venha da base - a educação primeiro - para depois falarmos das decisões do topo?!
Neste momento somos bombardeados com a qualidade das águas do mar e é exactamente nos mais poluídos que as pessoas vão. Se perguntar às pessoas se sabem que as águas estão poluídos respondem no mínimo que será para criar anti-corpos, ou que são as praias que estão mais à mão, que não condições de se deslocarem a outras, ou...
Não acha que pela sua ordem de ideias o melhor seria a proibição. Mas agora imagine, no seu livre direito de escolher, vai a uma praia e surge-lhe um polícia que o proíbe de lá ir? Como reagiria. Eu, pela minha parte, revoltava-me e insurgia-me contra a autoridade, ficando-me pela minha liberdade de escolher...
Em contrapartida se educassemos as pessoas mostrando-lhes de forma eficaz (no lugar do polícia um ambientalista, um médico)de como actua rapidamente os malefícios de uma água do mar má não acha que seria melhor, deixando mesmo de haver lugar para revolta e criando inclusive um aliado? E a proibição deixaria de fazer sentido. Sabe que por norma o que é proibido cria mais força exactamente porque é uma forma de demonstrar-se que se tem poder. Veja outro exemplo: todos nos queixamos das caças às multas, das taxas de mortes nas estradas, mas quase ninguém observa a questão de outro prisma: haveria a caça à multa se cumprissemos as regras? Haveria necessidade de regras se fossemos conscenciosos? É evidente que o homem não está preparado para viver em anarquia - no sentido genuíno da palavra, que significa viver sem precisar do poder/regras. É utópico esperar isto. Mas não aceito que tenhamos que cair sempre no mesmo: proibir para conseguir. Então será o continuar do velho círculo vicioso. E vamos para todo o sempre proibir para conseguir.
"Nunca desfazendo o povo português, que mesmo na sua
>ingenuidade é para mim um orgulho ser português..." - eu gostava, tal como você, sentir esse orgulho, mas não consigo. Aceito-o na esperança que mude. Mas não me orgulho. A história do patriotismo é para mim uma história sem sentido. É um bocado a história da família. Boa ou má não a podemos rejeitar, gostamos dela. Ninguém é perfeito. É sempre uma questão de conjuntura. Buscar as causas porque é assim é ir demasiado longe, fundo, atrás. Mas podia quase garantir que é a solução. A mais difícil sem dúvida. Mas aquela que certamente limaria os medos do futuro.
"viajei um pouco pela Europa e mesmo sabendo que o
>nosso povo tem grandes e graves defeitos, continuo a
>preferi-lo porque não encontrei as grandes qualidades
>do nosso povo em qualquer outro pais por onde tenha
>passado, daí a minha esperança, e daí a minha luta à
>passividade."
Aqui creio haver um contrasenso. Passividade é exactamente não aceitar o que está mal. Mas aceita-o. Veja. Os portugueses são simpáticos, afáveis, cordiais. Isto seria o ideal para termos um nível de turismo elevado. Agora veja o resultado disso. Vamos às praias, lugar procurado pelos turistas, e o que vemos: praias sujas. Acabamos de comer e zás, lixo para o chão. Alguém se senta numa toalha ao lado. Estamos a gritar pelas crianças ou por alguém. A pessoa pede-nos se não poderíamos deixar de gritar. O que respondemos? Isto é público. Quem está mal que se mude. Vêm para aqui armar-se. Olhem o atrevimento pedir que nos calemos. Onde está o respeito pela liberdade do outro? Onde acaba e começa a nossa?
"Dou-lhe
>os parabéns pela forma aparentemente bem sucedida como
>lidou com a sua filha..." - obrigada. Mas disse-o bem: aparentemente. Porque a luta não está terminada. É diária. Constante. Esgotante. E garanto-lhe, há momentos em que de tão cansada nem me apercebo onde poderia ter emendado. Mas uma coisa tento: conseguir, dentro do que me é possível, estar atenta. Talvez não o consiga nem a 50% mas só o facto de tentar estar atenta já me alerta mais para a desatenção. "mas nem todas as mães tem a
>presença de espírito para tomarem essas atitudes," - é verdade. Mas não nasci iluminada. Aprendi. Lá está a educação. E digo-lhe, tem sido um acto mais autodidacta do que herança familiar.
"não >resultam em todos os casos e não se esqueça que devido
>ao estereótipo do homem 'macho' as crianças (rapazes)
>são quase 'obrigados' a gostar do tipo de violência
>gratuita de que falou. Na escola, com os colegas,
>cria-se um ambiente de grande pressão que discrimina
>quem não vê," - de acordo. Mas se se conseguir fazer entender a criança que somos pessoas, que isso nos diferencia do animais, logo temos de pensar, a criança consegue dar a volta. Por exemplo: para marcar lugar porque temos de seguir os rebanhos se eles nos levam a maus caminhos. Não acha que pode acalentar na criança a diferença? Dizer-lhe que pode sobressair exactamente ao contrário: não indo atrás de rebanhos. Recordo-me de andar na escola e viver esse tipo de problema. E querer seguir aqueles colegas que via como líderes, capazes de comandar os outros. Um dia percebi que esses líderes tinham comportamentos horríveis. E resolvi marcar a diferença: captar colegas para o oposto. Em vez de cativar pela violência, cativar pelo altivismo e orgulho de sentir que era adulta e sabia discernir o são do mal. Resultou com muitos. E aprendi a gostar de respeitar e fazer-me respeitar.
Um pequeno apontamento: uma amiga tem uma filha. Como todas as crianças tinha pânico de ir ao dentista. Ela resolveu a questão de uma forma que achei brilhante: começou a incutir na filha o inverso - se te portares bem vais ao dentista. A criança começou a pensar que era bom ir ao dentista. E hoje, ir ao dentista é como ir passear... com prazer.
" como é uma coisa que vai contra a lei e
>ordem, é uma coisa 'radical', é apelativo para os
>jovens, quem não vê é 'beto' (isto aplicando a
>terminologia usada pelas crianças quando falam destes
>assuntos)." - veja como as coisas são. Comecei esta dissertação exactamente dizendo que o proibido é mais apelativo. Entende porque não sou muito a favor das proibições.
" Agora podemos pensar no próximo passo da
>evolução deste tema que daqui a uns 10 anos poderá ser
>'Quem não pratica a violência é beto' isto pode
>parecer um pouco exagerado mas a verdade é que se se
>analisar o problema com serenidade, assim como a
>evolução e crescimento da violência nos últimos anos,
>este raciocínio torna-se claro. Concordo a 100% na sua
>insistência pela educação, é a chave! mas reeducar
>toda a população, sejam jornalistas, sejam Balsemão,
>de modo a que o lixo televisivo não seja visto, ou que
>nem sequer apareça nos nossos ecrãs é utópico," - o problema é que não é reeducar. É educar. Bem sei que dado o estado em que se encontram as coisas realmente parece utópico. Mas veja. O crescimento da violência é cada vez maior. Porquê? Porque é incutido nas pessoas que a violência é uma forma consequente de mostrar a insatisfação. No entanto se passassemos a mensagem que a forma mais eficaz de combater o que está mal é comunicarmos o resultado seria outro. O exemplo da polícia. Toda a gente diz que a polícia age mal. Bate, maltrata, utiliza a violência, através da lei, para se impor, muitas vezes descarregando ódios, racismos, machismos, em quem lhe aparece pela frente. E então a polícia é má. Depois somos assaltados e revoltamo-nos porque não sabemos onde está a polícia. Só serve para multar. Por outro lado, quando alguém que infringe a lei é apanhado, a sua primeira defesa é dizer que foi maltratado pela polícia. Isto é de loucos! Agora imagine, se a nossa história nos tivesse realmente servido para algo, não teríamos já ponderado onde está o verdadeiro problema? Não teríamos educado as pessoas a saber ver as coisas de outra forma? Quem infringe a lei tem de ser punido. Trabalho cívico. Em vez de aceitarmos imigrantes sem termos sequer condições para bem tratar quem cá nasceu, e depois pagar-lhes miseravelmente, vamos colocar essas pessoas a trabalhar. Na construção civil. Na limpeza das cidades, aldeias... Da alta criminalidade vamos resolver vendo primeiro quem a comete: de onde vêm essas pessoas. De famílias do submundo da droga, prostituição e afins. Então vamos dar bases a essas famílias: a pílula, legalizar o aborto, assistência médica e social. Não os deixar abandonados a si próprios. Prevenir antes que se tenha de remediar. É utópico, visto assim. Mas é horrível visto como se vê. E sem solução à vista. Mesmo com penas de morte.
"E um não é
>solução (pelo menos, não para o presente, talvez para
>o futuro). Portanto esperar que as pessoas caiam em
>si, e digam 'não!!!' ao lixo tóxico! também não é
>solução..." - O futuro é hoje o presente. Daqui a dez anos inicia-se na contagem do dia de hoje...
" Dar alternativas... mas que alternativas de
>valor é que conseguirão cativar a atenção de um povo
>que tem os olhos fechados?" - alertar as pessoas, com programas massivos com estas questões. Em vez de aliciá-las a ganharem 20.000 contos a exporem-se em programas de lixo, criar-se programas em que elas participem a opinarem convidando simultaneamente pessoas esclarecidas que queiram participar com humildade de se colocarem ao mesmo nível delas. Já que quem aparecer na televisão, então que o façam de uma forma limpa...
"Não vão poder sequer
>reparar nas alternativas de tão cegos que estão!" - experimentemos...
">Resumindo, não podem ser eles a decidir, aqueles que
>se apercebem do problema têm a obrigação de ajudar os
>outros, e como não podemos reeducar ninguém, é preciso
>proibir!" - vamos ensinar a responsabilizar. Só será preciso proibir se antes concluirmos que não vale a pena ensinar a escolher, a decidir, a expressarem a sua liberdade individual.
" É por estas regras que a sociedade se regula," - a democracia ou a ditadura? A diferença entre as duas é que a primeira deixa a liberdade às pessoas de se manifestarem e agirem. Depois condena. A última não deixa liberdade mas condena igualmente. Proíbe.
" Um criminoso é preso para impedir de continuar a
>praticar o crime, mas não é morto (pelo menos, não em
>portugal) porque a sociedade acredita que o pode
>reintegrar, ou reeducar, por isso, impede-se o
>criminoso de praticar o crime até que ele se aperceba
>que aquilo que fez está errado." - estamos a falar dos criminosos do povo. Porque por exemplo criminoso é também aquele senhor Pinochet que em nome do seu regime ser o correcto mandou executar, matar, linchar, milhares de pessoas. Mas esse passa impune. Por que tem de ser assim? E mais grave que o criminoso pé rapado é o senhor que foi Presidente. Para este a luta não era de sobrevivência básica ou doença, era o Poder.
" Por isso deve-se
>'proibir' (censurar) a TV até que no futuro já não
>seja necessário proibir por tal norma estar escrita na
>consciência de todos como parte da sua educação mais
>básica, é deste modo que se educa a viver em
>democracia." - esse futuro é quando? Quando quer iniciá-lo. Quando quer começar a escrever na consciência de todos?
"A televisão não pode ser livre de agir
>segundo a lei do mercado!" - quem dera que assim fosse. Mas até a nossa individualidade é gerida pelas tais normas impostas que depois o reverso é o "proibir".
" Acho que não se pode ver a
>TV como algo inofensivo e passageiro," - mais uma vez as palavras pesadas se lhe atribuírmos peso. A TV é perigosa se se lhe atribuir perigo, ou seja, se eu não tiver preparada para receber o que ela dá existe o perigo de ela me manipular. Sabe que acho mais arrepiante os noticiários. Mostram-se os cadáveres, a violência, fazendo despertar em nós as emoções, a angústia, o medo, o pânico... porque é isso que prende as pessoas ao ecrã. Vamos proibir que os noticiários assim sejam? Claro está que, dizem, relatam os factos. Também esses programas suscintam o que há em nós. Então vamos mostrar as coisas de outra forma.
" tudo o que nós
>podemos fazer para educar alguém em 10 semanas, a TV
>destrói em 10 minutos!" - é a educação assim tão frágil, ou são frágeis os actos educativos e os educadores...
" Por isso reeducar ou mesmo
>educar só é possível depois de eliminar o efeito
>destrutivo da TV, depois sim, já podemos dar a carne
>aos leões, que eles por já saberem escolher, virarão
>costas e escolherão o peixe, que pode não saber tão
>bem mas é certamente mais saudável..." - afinal estamos mesmo de acordo.
" PS: Acho que
>chamar 'lixo' a estes programas até é inadequado, pois
>o lixo é uma coisa inerte, não faz mal a ninguém,
>limita-se a cheirar mal e a atrair moscas, enfim,
>incomoda... Aqueles programas não são incomodativos,
>são armas destrutivas para a sociedade em que vivemos
>e não devem ser tratados como lixo... pelo menos não
>com passividade!" - de acordo. Vamos reciclar. Já que destruímos vamos reconstruir.
" PS2: 'Outros que não sabem fazer a
>triagem têm que ser ensinados a fazê-la, mas sem
>preconceitos, arrogâncias de quem se julga por cima. A
>humildade resolve de uma forma eficaz o que a
>arrogância despoleta no oposto.' - Não poderia
>concordar mais... - subscrevo.
E mais uma vez obrigada pela sua resposta. Fez-me pensar e ir ainda mais longe, mais fundo.
>
>-------------------------------------------------------
>-------------------------
>
>-------------------------------------------------------
>-------------------------
>Subject: Re: a propósito...
>From: j. saldanha
>To: oviola
>Date Posted: Sun, Jun 17, 2001 at 22:41:29 (WEST)
>Email Address: sigis_98@yahoo.com
>
>Message:
">Cara Oviola Tarde aprecebo-me q o seu texto é mesmo
>bom. Parabens. Só um comentário: Lembre-se q está
>provado q saber-se ler n é tudo." - obrigada. Quando escrevi sobre os intelectuais quiz dizer isto mesmo. Saber ler é saber pensar. É ver também o que pode estar escrito para além do que se lê. Perfeitamente de acordo.
" Pode-se sofrer de
>literacia e assim o saber-se ler pode n ser tão bom
>como no século XIX se pensava. " - a maior parte das vezes não conseguimos compreender o que nos é dado ler.
Se eu lhe disser 'Hoje está um dia lindo' estou a querer dizer que está sol, mas se for mais além pode ainda querer dizer que ontem também esteve mas nem reparei porque não estava tão feliz como hoje e que hoje estou feliz porque descansei, dormi bem, não surgiram contratempos (porque dormi bem e descansei...). Penso que me entende.
A história do capuchinho vermelho não é só a versão que nos ensinaram a ver: afinal o capuchinho sabia da existência do lobo e foi ao seu encontro. E o lobo é que é mau e a menina vítima? Claro que não. O lobo pode ter sido levado a ser mau e então passa a vítima e a menina fez mal porque provocou o lobo. Contudo, há outra versão. Tomemos como exemplo a história de 'Sidharta' - tinha tudo para ser feliz e não o era. Teve que conhecer o outro lado, independente do que lhe disseram, para perceber o que era realmente a verdadeira existência. Alertemos para os perigos mas é impossível impedi-los. A experiência é a educação mais forte.
" Coisas destes tempos." -
É verdade...
Gostava de conseguir ter o seu pragmatismo e síntese...
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