Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 23:35:30 04/26/04 Mon
A Carta que o Público recusou
OS BOMBOS DA FESTA
Há dois fins-de-semana consecutivos que duas personagens da esquerda plural têm sido os bombos da festa da direita ou até de alguma esquerda mais expedita. Estou-me a referir a Mário Soares e a José Saramago.
Mário Soares por provocação, alguma ironia, ou porque acredita verdadeiramente naquilo que diz, propõe conversações com os terroristas, José Saramago defende o voto em branco, sendo ele candidato pelo PCP.
A direita, gulosa, logo desencadeou a sua ofensiva: um queria contemporizar com os terroristas, outro era um anti-democrata (Pacheco Pereira: SIC Notícias). Num tempo de "grande valentia", os "heróis da guerra" estão prontos a queimar Soares vivo. Os mesmos, "democratas convictos", afirmam que Saramago, não faz mais do que ressuscitar o velho apelo da 5º Divisão do MFA, para que os portugueses votassem em branco nas primeiras eleições do pós 25 de Abril.
É evidente, que a direita aproveitou algumas opiniões, um pouco despropositadas da esquerda, para passar ao ataque, e que as suas afirmações não passaram, na maioria dos casos, do mais serôdio reaccionarismo ou do mais vesgo sectarismo. No entanto, a alguma esquerda necessita de clarificar as afirmações que faz, porque de um modo geral são pouco consistentes e não apresentam os problemas como eles de facto devem ser colocados.
Comecemos pelas afirmações de Soares. O que está em causa não é negociar com os terroristas, mas definir claramente quem são os terroristas, quem os apoia e que acções se devem empreender para os prender e julgar. Ora, os terroristas islâmicos de hoje foram, no passado, os "combatentes da liberdade" de Reagan, que no Afeganistão lutaram contra a União Soviética, ou os Irmão Muçulmanos que, no tempo de Nasser, combateram, com apoio da Arábia Saudita e do Ocidente capitalista, os passos que se estavam a dar em defesa do nacionalismo árabe e da laicização da sociedade. O fundamentalismo islâmico, não sendo uma criação do ocidente, sempre mereceu o apoio deste, como forma de travar o avanço do comunismo ou dos movimentos nacionalistas árabes. A semelhança com o que se passou com o nazi-fascismo, de que é um irmão gémeo, não deixa de assustar. A burguesia e as democracias capitalistas, apoiaram um monstro, que depois foi impossível controlar. Hoje, tenho a precessão que algo de semelhante se passa. Basta ver as origens sociais dos principais terroristas. Aquilo que para Pacheco Pereira serve para dizer que todos eles são "filhos de família" e não camponeses explorados, pode-nos servir a nós para justificar, tal como com o nazi-fascismo, a origem pequeno-burguesa do fudamentalismo islâmico.
Dito isto, parece-me que a questão do terrorismo islâmico é um problema de polícia, principalmente no ocidente, enquanto este não ganhar, e isso já sucedeu com os talibãs e está sucedendo no Iraque, as massas populares e conquistar o poder. Mas, outro aspecto completamente diferente, são as acções guerreiras e imperialistas do Bush e dos EUA, e dos seus papagaios, é a manutenção do conflito israelo-árabe e a situação social e política que atravessam alguns países árabes, como, por exemplo, a Argélia. Estes casos só contribuem para a progressão do terrorismo no terreno e para aumentar a sua influência popular.
Só uma visão de esquerda, e não imperialista, permitirá elucidar quem são os nossos inimigos, que conflitos temos que resolver, com quem de facto temos que negociar, que estratégia temos que empreender. Não será nunca, cavalgando a onda do imperialismo americano e dos seus amigos, ou do terrorismo selectivo sionista, que alguma vez podemos aspirar a resolver os problemas do terrorismo islâmico. Por isso, a palavra de ordem da manifestação de 20 de Março de lutar pela paz e de pôr fim ao terrorismo é, neste momento, a mais correcta.
Quanto a Saramago, é evidente que o tema não é o mesmo, mas, como isto anda tudo ligado, poderíamos afirmar que, sendo justa a afirmação de que as democracias ocidentais estão em crise, que são incapazes de gerar uma alternativa credível, que permita uma nova política e uma saída para a crise económica e social imposta pela globalização capitalista e pela ideologia triunfante neoliberal, a solução proposta, a revolta dos cidadãos ao votarem em branco, é reveladora de uma total incapacidade da esquerda para gerar uma alternativa que possa a vir a ser hegemónica na sociedade e que permita uma saída progressista para a crise. Sendo um belo pretexto para um romance, não é de certeza um bom programa de acção política.
A esquerda mais uma vez não soube encontrar a palavra lúcida para o momento presente e deixou-se enredar nas suas próprias palavras, o que levou Soares e Saramago a desdizerem-se, e os seus amigos a justificarem o injustificável, desarmando-nos num combate cada vez mais decisivo, entre uma direita galopante e possuidora dos principais meios de informação e uma esquerda atabalhoada, contemporizadora e que está constantemente a dar tiros no pé.
10 de Abril de 2004
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