| Subject: Re: Os Bombos da Festa |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 09:39:32 04/27/04 Tue
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "Os Bombos da Festa" on 23:35:30 04/26/04 Mon
Caro Jorge : Eu não percebo a sanha que se moveu sobre Soares e Saramago.Negociar é um termo amplo que M.S. empregou para significar que é importante
conversar, auscultar os objectivos daqueles que desenvolvem acções terroristas ,antes de um envolvimento retaliador para essas acções.
Saramago, por outro lado , não me parece ter feito uma apologia do voto em branco. Ele limitou-se a introduzir uma hipótese académica no contexto de uma ficção literária; acresce que chamou a atenção para o facto, por nós constatável, de que a democracia não se pode esgotar no mero acto eleitoral; ele não criticou o regime democrático, esta democracia, como de má fé pretendeu o Pacheco Pereira; apontou a preversão democrática e o alheamento crescente dos eleitores...
Um abraço, Blanch
>
>OS BOMBOS DA FESTA
>
>Há dois fins-de-semana consecutivos que duas
>personagens da esquerda plural têm sido os bombos da
>festa da direita ou até de alguma esquerda mais
>expedita. Estou-me a referir a Mário Soares e a José
>Saramago.
>Mário Soares por provocação, alguma ironia, ou porque
>acredita verdadeiramente naquilo que diz, propõe
>conversações com os terroristas, José Saramago defende
>o voto em branco, sendo ele candidato pelo PCP.
>A direita, gulosa, logo desencadeou a sua ofensiva: um
>queria contemporizar com os terroristas, outro era um
>anti-democrata (Pacheco Pereira: SIC Notícias). Num
>tempo de "grande valentia", os "heróis da guerra"
>estão prontos a queimar Soares vivo. Os mesmos,
>"democratas convictos", afirmam que Saramago, não faz
>mais do que ressuscitar o velho apelo da 5º Divisão do
>MFA, para que os portugueses votassem em branco nas
>primeiras eleições do pós 25 de Abril.
>É evidente, que a direita aproveitou algumas opiniões,
>um pouco despropositadas da esquerda, para passar ao
>ataque, e que as suas afirmações não passaram, na
>maioria dos casos, do mais serôdio reaccionarismo ou
>do mais vesgo sectarismo. No entanto, a alguma
>esquerda necessita de clarificar as afirmações que
>faz, porque de um modo geral são pouco consistentes e
>não apresentam os problemas como eles de facto devem
>ser colocados.
>Comecemos pelas afirmações de Soares. O que está em
>causa não é negociar com os terroristas, mas definir
>claramente quem são os terroristas, quem os apoia e
>que acções se devem empreender para os prender e
>julgar. Ora, os terroristas islâmicos de hoje foram,
>no passado, os "combatentes da liberdade" de Reagan,
>que no Afeganistão lutaram contra a União Soviética,
>ou os Irmão Muçulmanos que, no tempo de Nasser,
>combateram, com apoio da Arábia Saudita e do Ocidente
>capitalista, os passos que se estavam a dar em defesa
>do nacionalismo árabe e da laicização da sociedade. O
>fundamentalismo islâmico, não sendo uma criação do
>ocidente, sempre mereceu o apoio deste, como forma de
>travar o avanço do comunismo ou dos movimentos
>nacionalistas árabes. A semelhança com o que se passou
>com o nazi-fascismo, de que é um irmão gémeo, não
>deixa de assustar. A burguesia e as democracias
>capitalistas, apoiaram um monstro, que depois foi
>impossível controlar. Hoje, tenho a precessão que algo
>de semelhante se passa. Basta ver as origens sociais
>dos principais terroristas. Aquilo que para Pacheco
>Pereira serve para dizer que todos eles são "filhos de
>família" e não camponeses explorados, pode-nos servir
>a nós para justificar, tal como com o nazi-fascismo, a
>origem pequeno-burguesa do fudamentalismo islâmico.
>Dito isto, parece-me que a questão do terrorismo
>islâmico é um problema de polícia, principalmente no
>ocidente, enquanto este não ganhar, e isso já sucedeu
>com os talibãs e está sucedendo no Iraque, as massas
>populares e conquistar o poder. Mas, outro aspecto
>completamente diferente, são as acções guerreiras e
>imperialistas do Bush e dos EUA, e dos seus papagaios,
>é a manutenção do conflito israelo-árabe e a situação
>social e política que atravessam alguns países árabes,
>como, por exemplo, a Argélia. Estes casos só
>contribuem para a progressão do terrorismo no terreno
>e para aumentar a sua influência popular.
>Só uma visão de esquerda, e não imperialista,
>permitirá elucidar quem são os nossos inimigos, que
>conflitos temos que resolver, com quem de facto temos
>que negociar, que estratégia temos que empreender. Não
>será nunca, cavalgando a onda do imperialismo
>americano e dos seus amigos, ou do terrorismo
>selectivo sionista, que alguma vez podemos aspirar a
>resolver os problemas do terrorismo islâmico. Por
>isso, a palavra de ordem da manifestação de 20 de
>Março de lutar pela paz e de pôr fim ao terrorismo é,
>neste momento, a mais correcta.
>Quanto a Saramago, é evidente que o tema não é o
>mesmo, mas, como isto anda tudo ligado, poderíamos
>afirmar que, sendo justa a afirmação de que as
>democracias ocidentais estão em crise, que são
>incapazes de gerar uma alternativa credível, que
>permita uma nova política e uma saída para a crise
>económica e social imposta pela globalização
>capitalista e pela ideologia triunfante neoliberal, a
>solução proposta, a revolta dos cidadãos ao votarem em
>branco, é reveladora de uma total incapacidade da
>esquerda para gerar uma alternativa que possa a vir a
>ser hegemónica na sociedade e que permita uma saída
>progressista para a crise. Sendo um belo pretexto para
>um romance, não é de certeza um bom programa de acção
>política.
>A esquerda mais uma vez não soube encontrar a palavra
>lúcida para o momento presente e deixou-se enredar nas
>suas próprias palavras, o que levou Soares e Saramago
>a desdizerem-se, e os seus amigos a justificarem o
>injustificável, desarmando-nos num combate cada vez
>mais decisivo, entre uma direita galopante e
>possuidora dos principais meios de informação e uma
>esquerda atabalhoada, contemporizadora e que está
>constantemente a dar tiros no pé.
>
>10 de Abril de 2004
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