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Entrevista com Jerónimo de Sousa, Público, 16/02/05
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Date Posted: 16/02/05 16:43:15
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Entrevista com Jerónimo de Sousa, Público, 16/02/05
's message, "Aumento da Idade de Reforma Pode Levar a Conflitos Sociais Muito Graves" on 16/02/05 16:37:40
"Não Tenho Verdades Absolutas, Não Sei Tudo, Sou o Que Sou"
Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005
Entrevista com Jerónimo de Sousa, Público, 16/02/05
CDU luta por recuperar uma parte do seu eleitoral habitual que fugiu em anteriores eleições para a abstenção. Essa é a prioridade e, por isso, Jerónimo de Sousa não coloca a questão de a CDU voltar a ser a terceira força política em cima da mesa com muito ênfase. Entrevista de Eduardo Dâmaso, Raquel Abecassis (Rádio Renascença) e Rui Gaudêncio (fotos)
Cuidadoso na definição de objectivos, o líder da CDU adopta também a prudência como estilo no que vai dizendo sobre a possibilidade de fazer ou não entendimentos com o PS, caso não resulte uma maioria absoluta das eleições de domingo. De resto, para quem esperava uma atitude clássica da linha dura do PCP em matéria de defesa da ortodoxia comunista, Jerónimo de Sousa opta por um "low profile" que exclui o palavreado e a arrogância de quem julga ter uma superioridade moral sobre o resto do mundo.
O PCP joga nestas eleições apenas o objectivo de não sofrer um maior desgaste no seu eleitorado tradicional?
O nosso objectivo não é um resultado de mera manutenção. Sempre afirmámos o propósito de obter mais votos e mais deputados...
Mas já desistiram de ser a terceira maior força política.
Nunca colocámos isso como objectivo. Em primeiro lugar, o objectivo é procurar que a direita, o PSD e PP, fiquem em minoria na Assembleia da República. O segundo objectivo está no reforço da CDU em votos e mandatos. A questão da terceira força política não é um elemento crucial. Se conseguirmos os primeiros dois objectivos o resto logo se vê. É óbvio que seria bom se voltássemos a ser a terceira força parlamentar.
Onde é que acha que pode recuperar votos? No eleitorado tradicional do PCP? Ao BE e PS? À abstenção?
A abstenção também nos tocou em diversas eleições. Por isso, pensamos que um primeiro esforço da nossa parte está em recuperar esse eleitorado habitual da CDU que se absteve em anteriores eleições. Em segundo lugar, tentamos também conquistar novos eleitores. Mas a nossa campanha eleitoral também foi muito determinada no sentido de combater inimigos e adversários que não estão no boletim de voto: o desalento, o desencanto, a ideia de que são todos iguais. Nesta ronda que fizémos verificámos que há muitos eleitores que estão desencantados, desanimados, não vendo saída. Abdicar deste direito de cidadania tão importante que é o exercício de votar significa, em última análise, uma perda para a democracia.
O facto de ser um novo líder acabado de eleger no congresso do seu partido e de ser uma pessoa mais calorosa em campanha do que eram os seus antecessores, tem algum efeito no eleitorado e, até, numa parte dele que estava desencantado com o PCP?
Não gostaria de ser juiz em causa própria, obviamente. Cada pessoa tem um estilo próprio, uma forma de estar, de ser e intervir. Os meus camaradas Àlvaro Cunhal e Carlos Carvalhas tinham outros méritos que eu não tenho, outras capacidades. Procuro apenas ser aquilo que sou. Não estou a inventar nada, não estou a fazer nenhum curso de reciclagem...
Não recebe conselhos...
Os conselhos vêm geralmente do meu colectivo partidário. Ouço muito os meus camaradas, não só ou nem tanto esses dois, por razões óbvias. Sou o que sou e procuro estar nesta campanha eleitoral de forma sincera, autêntica, serena e construtiva. Naturalmente, o estilo pesa muito em termos mediáticos...
Tem-se referido muitas vezes ao facto de estarem a ser quebrados preconceitos em relação ao PCP...
Durante o congresso, até antes dele, muitos analistas, comentadores, partiram de clichés, caricaturas, falaram do operário, concerteza intelectualmente limitado, o ortodoxo, façanhudo, enfim, todos esses 'clichés'. Depois, com mais conhecimento, mais proximidade, verificando que não era assim, passaram da surpresa para algumas expressões públicas que naturalmente me sensibilizam, mas eu não tive de mudar nada. Sou eu próprio, com as minhas características, não tenho verdades absolutas, não sei tudo, sou o que sou mas sou assim e é essa a forma que tenho de estar nesta campanha.
Esse desânimo das pessoas que falava há pouco também toca o PCP. Ora, não tendo os bastiões que tinha no Alentejo, na margem sul, onde é que a CDU vai buscar os votos necessários a uma recuperação. Ao eleitorado mais urbano ou mais rural?
É verdade que tínhamos influência em bastiões que hoje já não existem, designadamente por força da destruição do aparelho produtivo. Tínhamos influência na Quimigal onde havia dez mil trabalhadores e entre os quais havia pelo menos um milhar de militantes comunistas. Hoje a Quimigal está reduzida a umas centenas de trabalhadores. O mesmo aconteceu na Mague, na Bombardier e em muitas outras empresas...
Essas pessoas continuam a existir.
Sim, mas muitas delas foram forçadas a rescisões, à reforma antecipada, foram atingidas por aquilo que eu consideraria o síndrome da inutilidade. Velhos demais para encontrar um novo emprego e novos demais para a reforma interiorizaram um sentimento de exclusão e de inutilidade, inclusive no plano da participação política. Deixaram de acreditar.
Esse é um eleitorado tradicional da CDU. Mas um dos factores decisivos para o crescimento do Bloco de Esquerda (BE) foi a adptação do discurso e das propostas a um eleitorado urbano e jovem. A CDU não teve essa capacidade de readaptação às novas realidades.
O BE não apareceu do nada.
Vêm de uma esquerda muito fragmentada que tinha um 'gigante' eleitoral ao lado e que era o PCP.
Eram partidos que corriam por fora e fizeram uma alteração estratégica: integrarem as instituições e a partir delas irradiarem a sua mensagem, refrescada, admito, mas fico sempre surpreendido quando dizem "que grande novidade". O Francisco Louçã anda nesta vida há umas dezenas de anos e, portanto, o Louçã foi sempre o Louçã, na sua mensagem e na sua inteligência.
Teve capacidade de ir mudando o discurso e as propostas.
Sim, admito que a mensagem tenha peso. Mas algumas das causas eram muitas das nossas bandeiras, como as da toxicodependência, a interrupção voluntária da gravidez, o sigilo bancário, a luta por uma segurança social pública. A questão de como passa a mensagem é outra. Eu não queria reduzir tudo à ideia de que o BE foi promovido por alguns orgãos de comunicação social. Admito que tenha tido efeito também uma agressividade muito grande em relação ao nosso partido, com os acontecimentos a Leste, a perda do imaginário colectivo, isto por vezes pesa muito no plano subjectivo. Depois as questões internas do partido pesaram muito também. Por isso, apresentou-se o PCP com uma carga muito negativa que permitiu que o BE com essa tal mensagem mais ou menos refrescada tivesse influência nalguns sectores. Mas o problema é sempre este: os partidos não podem ser partidos da conjuntura.
No PCP pesaram demais os factores históricos?
Podem ter pesado... mas fizemos um esforço no XVII Congresso no sentido de um maior dinamismo, de maior reforço da sua intervenção, da sua organização, não alterando princípios, a nossa matriz ideológica, a nossa natureza, mas procurando olhar para o mundo com os olhos bem abertos e procurando a correspondência com a própria sociedade.
Nesta campanha eleitoral, que começou, na prática, três dias depois do nosso congresso, sente-se alguma mudança.
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