| Subject: Re: POUCAS Laranjas para Tão pouco sumo |
Author:
Luis Laranja
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Date Posted: 6/01/05 14:03:04
In reply to:
Luis Blanch
's message, "POUCAS Laranjas para Tão pouco sumo" on 6/01/05 10:41:24
Senhor Luis Blanch.
As minhas poucas laranjas só poderiam dar pouco sumo. Deixe-me dizer-lhe, porém, que a sua prosa é um arrasoado sem sentido, revelador de que V.Ex.ª não só não consegue discernir o que se passa actualmente na sociedade, e o que nela se passou no passado, como, ainda por cima, não entendeu o seu mentor, que coraria de vergonha com as barbaridades que diz em seu nome.
V.Ex.ª tem o desplante de apresentar o efeito do processo histórico - o desenvolvimento económico e social - como sua causa, e diz tal barbaridade com impressionante desfaçatez. E, para cúmulo, apresenta essa banalidade marxista de que o "movimento social só se tem proposto, na esteira de Marx, aquilo que está em condições de resolver" como se algo de importante se tratasse.
Que se saiba, é nos manicómios que se encontra a gente que persiste em imaginar que pode resolver o que lhe der na real gana independentemente das condições, e nada resolve, a começar pela sua insanidade; e outros líricos do mesmo jaez, afectados embora por uma paranóia colectiva, atribuindo à fé e ao desejo das massas dos deserdados assalariados o poder de implantar uma sociedade de plena harmonia, de fraternidade universal e de abundância material, e até lá apenas clamam contra a triste sorte que nos tem proporcionado o capitalismo, povoam os partidos comunistas. Pela sua conversa, V.Ex.ª parece-me pertencer a este último grupo, a não ser que por engano meu pertença ao primeiro.
Não é de hoje que o capitalismo esmaga as economias mais débeis, etc., etc., tal como não são de hoje as múltiplas contradições que o caracterizam. De hoje são apenas a maior dimensão, visibilidade, velocidade de ocorrência e outras formas de manifestação de tais fenómenos, que V.Ex.ª, de forma arbitrária, designa por "grande crise de sustentabilidade", o que não passará de desejo seu.
As contradições e as crises de sustentabilidade que geram, quer do capitalismo, quer de outras formas de organização económica e social que o antecederam, são produto precisamente do carácter aleatório, não programado, como emergiram e se desenvolveram, e constituem também os factores de mudança constante que tem caracterizado o processo histórico. A evolução social, a sua transformação e desenvolvimento, tem sido marcada pela aleatoriedade condicionada pelos contextos, precisamente o contrário daquilo que V.Ex.ª afirma tão levianamente, em demonstração eloquente de que nada compreendeu da história, nem tão pouco da visão esquemática esboçada pelo seu mentor.
Numa coisa, V.Ex.ª aproxima-se da realidade: os fracassos históricos mais estrondosos têm decorrido da pretensão insensata de construção artificial da realidade económica e social, produto da racionalização e do controlo absoluto das vidas das pessoas, que se podem designar por totalitarismo, de que o último e mais flagrante exemplo foi o comunismo.
Mas o mais caricato dos fracassos políticos tem sido a prática dos partidos comunistas. Crentes numa profecia idalista - a sociedade comunista - e num instrumento voluntarista para implantá-la - a revolução proletária - uma e outro do domínio da fé, esse dom de acreditar em fenómenos sem causas e em entidades supra humanas omnipotentes, transposto no caso para o desejo dos deserdados e para o poder infalível da vontade das massas, e que com as suas permanentes prédicas contra o mal (o capitalismo) e com as ameaças apocalípticas da catástrofe iminente a que o mal nos conduz, acabam desempenhando papel semelhante ao das igrejas.
Tenha V.Ex.ª um resto de dia proveitoso.
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