| Subject: E a estória continua - sempre ficção |
Author:
Augusto Mendes
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Date Posted: 8/04/05 15:11:48
In reply to:
visitante farto de estalinistas
's message, "Que horror. Vivam os amanhãs que cantam..." on 8/04/05 14:42:18
República Popular Portuguesa, Lisboa, Praça do Comércio, 25 de Abril de 2015.
João, com o seu único fato de ver a Deus (ou de ver os comícios do Partido), passeia entra as centenas de pessoas que aproveitam o feriado nacional. Dia da Revolução, dia da Libertação. Já o foi mas depois veio aquele fatídico 25 de Setembro de 2009.
João recorda perfeitamente que as eleições para o parlamento se tinham desenrolado uma semana antes. Os resultados dessas eleições foram uma enorme surpresa. O Partido obtivera, contra todas as sondagens, todas as previsões 31% de votos e mais de 105 deputados. Nenhum dos restantes partidos podia formar governo sozinho. O Presidente da República encarava a hipótese de nova dissolução da assembleia e convocação de novas eleições quando o Partido organizou a maior greve geral de sempre. Aproveitando o descontentamento de milhões de trabalhadores de todos os sectores e apoiado numa organização sindical coesa e militante, o Partido paralisou o país durante uma semana.
O governo em gestão, enfraquecido, ainda tentou reagir, mesmo pela força, mas quer as polícias, quer as forças armadas recusaram obedecer. O caos instalou-se, as ruas tornaram-se ainda mais inseguras, a Espanha denunciou os acordos de Shengen e fechou as fronteiras com Portugal. O espaço aéreo foi encerrado, as manifestações sucederam-se, o parlamento não funcionava e foi dissolvido. O Presidente da República renunciou. A crise política agravou-se. A NATO enviou uma esquadra com o pretexto de exercícios para as águas territoriais portuguesas. A União Europeia, através do Conselho e da Comissão, fez advertências. Receou-se uma intervenção de forças estrangeiras.
Então o Partido tomou conta do aparelho do Estado. Até hoje. A banca, os seguros, as cimenteiras, a celulose, as cervejas, a Autoeuropa, a indústria pesada foram nacionalizados. Em poucos meses mais de 1 milhão de portugueses tinha fugido para o estrangeiro. A fuga de capitais, facilitada pela desorganização das instituições, era imensa.
Um ano depois tudo entrava na normalidade. Se é que se podia chamar normalidade à nova situação política. Denunciados os tratados com a união europeia, Portugal voltava a ter uma divisa nacional, o velho escudo da 1ª República. A nova constituição política foi aprovada por plebiscito no qual os votos em branco contavam a favor. Portugal era agora uma república popular, e programaticamente pugnava por uma sociedade sem classes, regida pelos princípios do materialismo científico e pelo marxismo-leninismo.
Os partidos políticos burgueses foram dissolvidos e no novo parlamento – denominado Congresso do Povo – apenas três forças políticas: o PCP, o PEV e a Intervenção Democrática.
João afasta estas recordações e olha para a construção de granito e mármore que substituiu a estátua equestre de D. José – o túmulo do camarada Cunhal.
Ali jaz, perfeitamente embalsamado, no seu esquife de aço e vidro, o antigo secretário-geral do Partido. A guarda de honra, composta por jovens militares do Exército Revolucionário Popular, presente 24 horas por dia 365 dias por ano.
À sua volta brincam crianças e o sol rompe as nuvens naquela manhã de Abril.
>Belo esboço de um cenário de pavor. Olha do que nis
>livrámos. Ao invés de 1 milhão de pobres teríamos 10
>milhões de desgraçados.
>
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