Author:
Bloguista sabichão
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Date Posted: 8/04/05 17:45:35
In reply to:
Augusto Mendes
's message, "Estórias do comunismo - ficção" on 8/04/05 14:37:40
>República Popular Portuguesa, Lisboa, Abril de 2015.
>
>O camarada João espera pela abertura dos armazéns do
>povo. À sua frente, na fila que se desenrola por 3
>quarteirões, uma mulher, carregada de sacos de papel
>pardo, exclama:
>- Ainda não será hoje que vou conseguir uma blusa para
>o Verão. E a última já nem arranjo tem.
>João sorri disfarçadamente. Ele também precisa de
>roupa de verão e de uns sapatos e há já meses que
>tenta encontrá-los nas lojas do povo sem resultado.
>Claro que se tivesse algumas centenas de euros já se
>teria desenrascado, mas com escudos só aqui.
>- Olhe, camarada, alegre-se porque parece que para a
>semana vai haver de novo gás em botija.
>- Agora já não faz muita falta, estamos já sem frio.
>Mas no Inverno tive de me aguentar com uma bilha. E
>tive de a pagar em divisas.
>João trabalha na fábrica de parafusos há cerca de 2
>anos. O salário é pequeno mas chega pontualmente a
>cada dia 30. 75000$00 mensais, cerca de 100 euros.
>Sim, já lá vai há muito o tempo em que 1 euro valia
>200 escudos. Agora vale cada vez mais.
>E o que lhe vale é ser dirigente da célula dos
>fresadores, senão nem 100 euros ganharia.
>De repente a fila move-se, primeiro devagar e depois
>todos a empurrarem-se, de forma descontrolada. João
>consegue á justa entrar no grande edifício cinzento.
>Os armazéns do povo ocupavam agora as instalações de
>uma grande superfície dos tempos do regime
>capitalista. Muitas prateleiras estão vazias, cobertas
>de pó. As máquinas registradoras, às dezenas,
>alinhadas, não têm ninguém para as operar. Apenas 2
>mulheres recebem manualmente os pagamentos. As
>máquinas avariaram e não há peças para as reparar.
>João percorre as prateleiras e os expositores com
>olhar atento e acaba por encontrar 2 camisas de meia
>manga grandes demais para si. Mas pega nelas e
>prepara-se para as pagar. A mulher, lá em casa. haverá
>de as arranjar.
>João tem 35 anos e ainda recorda os pólos da Lacoste
>que usava quando era jovem. Agora só os camaradas do
>comité central os podem comparar nas lojas reservadas
>a quem tem divisas. E como poderia comprar roupa tão
>fina com 100 euros por mês?
>Felizmente que mora perto da fábrica. Senão teria de
>comprar uma bicileta em 2º mão. É que os transportes
>públicos raramente cumprem horários e os autocarros
>com mais de 30 ou 40 anos avariam todos os dias. O
>Metro há muito que fechou por falta de segurança.
>Finalmente de saída, João repara num enorme cartaz que
>anuncia o XXI Congresso do Partido Comunista Português.
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