Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 10/03/05 11:45:32
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "Algumas reflexões sobre Staline e o estalinismo" on 9/03/05 16:22:07
Ainda o estalinismo
Afixei estes comentários sobre o estalinismo a propósito de um texto que traçava uma biografia de Staline. Entendi que deveria pôr algumas das questões que eu penso que são as mais pertinentes a respeito da historiografia soviética e, por tabela, do movimento comunista internacional que teve origem na III Internacional, de que o PCP foi durante muitos anos secção nacional. Diga-se em abono da verdade que nem sempre, pois em determinado momento foi expulso, não por desvios ideológicos, mas por mau comportamento, já que a Internacional pensava que tinha sido infiltrado pela PIDE, o que não tinha sucedido
Há um comentador que acha que somos todos professores de história, tentando reduzir a presente discussão a mero interesse de alguns coca-bichinhos, que tanto poderiam discutir a Revolução Soviética, como algum obscuro imperador romano. O problema é que aquilo que é hoje o PCP e aqueles que defendem o ideário comunista, são, para o bem e para o mal, devedores desse momento inicial que foi a Revolução de Outubro e a divisão do movimento operário, entre sociais-democratas e comunistas. E só poderemos compreender estes últimos e as suas opções actuais se fizermos uma análise retrospectiva das suas origens históricas.
Há depois duas intervenções que reflectem pontos de vista que eu considero erróneos.
A primeira (seria interessante, para melhor compreensão dos textos, que os intervenientes editassem os mesmos) é que em nome da passagem rápida do feudalismo ao “socialismo” e, tendo em atenção as condições de cerco imperialista, tudo se justificou e o resultado de tudo isso foi a vitória na II Guerra Mundial e a construção da “pátria socialista”, apesar de ter havido uns traidores, oportunistas e revisionistas que nos anos 80 tudo levaram a perder. Ora para mim isto não é verdade. Primeiro a intervenção estrangeira já tinha sido vencida no final dos anos 20, a NEP tinha trazido uma acalmia e até alguma prosperidade aos campos russos e à própria economia soviética. A opção tomada por Staline contra Bukarine e os “nepistas” e a forma violenta e criminosa que se revestiu correspondeu ao ascenso de uma nova classe, que de forma predadora se apossou da mais-valia dos trabalhadores russos e da colectivização forçada do campo e da mão de obra camponesa, originada pela sua emigração para as cidades. São os herdeiros deste mesmo grupo social que, nos anos 80 e 90, se apoderaram da URRS conduzindo-a ao capitalismo selvagem que hoje conhecemos. Esta é sem dúvida a razão história de Gorbatchov e da actual Rússia e não a traição e o oportunismo de alguns dirigentes, como acusa a actual Direcção do PCP, e que servem para justificar o fechamento deste e para mantê-lo manietado ao passado.
A segunda, devedora um pouco da primeira, pensa que foi uma deriva política, o centralismo democrático, a responsável pela situação a que se chegou e não as opções económicas e de ascenso ao poder de novos extractos sociais no final dos anos 20 e início de 30. É evidente que a colectivização não teria sido em si má, se fosse noutra direcção e voluntariamente.
Gostaria para aqueles que invocam sempre os feitos da industrialização forçada da União Soviética, que houve outros estados capitalistas que em pouco tempo tiveram igual crescimento. Tanto o Japão como a Alemanha, no final do Século XIX e inícios de XX, tiveram crescimento semelhante e a I Guerra Mundial e mesmo a II não se justificariam se não resultasse do confronto destes dois novos impérios nascentes contra os já existentes: Inglaterra e França, e posteriormente EUA. Os custos sociais provavelmente não foram muito diferentes. Meditem nisto.
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