| Subject: Re: A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao Fernando |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 2/03/05 13:28:12
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao Fernando" on 2/03/05 11:48:51
>Tens razão ,globalmente. É que o tal "Centrão", e que representa essa camada oscilante em termos de classe e votação uns 20 a 30 por cento do universo eleitoral português, não está disposto a sacrificar metade do seu carro , em primeira ou segunda mão, em nome de um qualquer hipotético processo de emancipação e regenaração social e económica.
Aí é que as tais condições subjectivas jogam um papel primordial. Não envolver esses dados ,minimizar o estado de disposição das massas populares é , de facto, construir castelos na areia.
E a situação lusitana é mesmo esquizofrénica !?
A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de
>Fevereiro. Resposta ao Fernando Redondo
>
>“A melhor distinção direita-esquerda que conheço é:
>todos dizem desejar o bem público mas para a direita
>ele é alcançável sem acabar com o capitalismo e para a
>esquerda é imprescindível a transformação radical do
>sistema. É portanto à luz desta definição que eu
>avalio os resultados de 20 de Fevereiro.” (FPR)
>
>Essa não é, nem pode ser, a melhor definição de
>esquerda-direita. Se assim fosse só caberia nela o PCP
>e mesmo assim só em teoria, como partido ML, nunca em
>função da sua prática política. Há muito que o PS
>abandonou qualquer transformação radical do sistema e
>o BE não me parece que defenda a transformação radical
>do sistema. O próprio PCP, apesar de defender a
>sociedade comunista como objectivo último, tem como
>objectivo imediato uma “democracia avançada”, que não
>é com certeza uma proposta de transformação radical do
>sistema. Mas sobre o PCP e a sua política
>esquizofrénica, de partido ML e simultaneamente
>social-democrata, já escrevi aqui alguns textos, não
>penso voltar ao assunto. Portanto caro Fernando ou
>formas um Partido novo, de facto “mesmo de esquerda”,
>ou então tens a terminação, votando no PCP.
>
>“havia no dia 20 de Fevereiro mais portugueses
>convencidos da necessidade da superação do
>capitalismo, dispostos a propiciar a emergência de uma
>nova forma de produzir em sociedade, do que no dia 20
>de Janeiro ?” (FPR)
>
>A resposta é obviamente não, nem era isso que estava
>em causa. Só num perfeito delírio economicista alguém
>poderia acreditar que os portugueses iriam votar
>naqueles partidos que se propunham superar o
>capitalismo, com vista a propiciar uma nova forma de
>produzir em sociedade. Já pensaste o que aconteceria a
>um partido cujo programa político fosse propor aos
>eleitores o que tu defendes. Não passaria de uma
>curiosidade exótica, tão deslocada da realidade como
>o POUS da Carmelinda Pereira.
>Ou seja, caro Fernando, na tua obsessão de reduzir a
>experiência política a novos modos de produção em
>sociedade, que tu almejas que esteja próxima, esqueces
>que a política tem uma especificidade própria, que
>aquilo que se propõe aos eleitores é uma proposta
>política realizável num espaço de tempo curto, que
>possa ser politicamente agregadora de grandes massas
>populares. Se conheceres a história do Século XX sabes
>que nenhum partido ou plataforma eleitoral de esquerda
>propôs objectivos tão abstractos e tão vagos como
>aqueles que tu apresentas, nem sequer na actual
>conjuntura política portuguesa era isso que estava em
>causa. Tu perdes-te na tua imaginação económica, desce
>à Terra e pensa que, para se transformar a sociedade,
>é preciso primeiro ter um programa político.
>
>“Até penso que grande parte dos votantes dos
>partidos de esquerda nem sequer associam o PSD e o CDS
>ao governo Santana/Portas que tão claramente mostraram
>rejeitar. Grande parte dos dirigentes do PSD saem até
>prestigiados pela mão da esquerda desta curta
>experiência “santanista” (lembramos Pacheco Pereira,
>Marcelo, Cavaco, Manuela Ferreira Leite, António
>Borges e muitos outros) e constituem-se como perigosos
>inimigos futuros.
>
>A culpa disto tem que ser atribuída àqueles que, por
>sofreguidão do poder, concentraram todos os trunfos
>eleitorais na exploração, até à náusea, das
>“peripécias santanistas”, tirando partido de uma fama
>longamente construída do “play-boy” e explorando a
>tendência portuguesa para a inveja (como explica
>Fernando (José) Gil).” (FPR)
>
>Tens uma tendência irremediável para a simplificação
>da vida política portuguesa. Como lês os comentadores
>e vês as peripécias dos políticos nas televisões,
>associas tudo a meras questões de opinião, de
>preconceitos, de “fait-divers”, esquecendo que por
>detrás de tudo isto há interesses económicos, grupos
>sociais, movimentos e ideologias políticas, que por
>debaixo dos epifenómenos mediática se movem no
>interior da sociedade.
>Santana representou em determinado momento a
>incapacidade da direita de resolver a seu favor a
>crise económica e política existente. Santana era um
>cabo de guerra de opereta, que pela sua mediocridade,
>era incapaz de conduzir os exércitos a bom porto.
>Nesse sentido, parte do seu Partido afastou-se dele e
>retirou disso os dividendos políticos indispensáveis
>para continuar a política de direita, mesmo que para
>isso fosse necessário colaborar com o PS ou permitir a
>sua ascensão. O inverso foi obviamente verdadeiro.
>Hoje, conseguida a maioria absoluta por aquele
>partido, logo um conjunto de figurões vêm cobrar o
>apoio prestado, exigindo que governe ao “centro”.
>Coisa que provavelmente o PS fará com muito gosto.
>
>“Alguns dirão que sem este oportunismo a esquerda
>não teria vencido as eleições mas cabe perguntar se
>esta vitória serve para alguma coisa. Cabe perguntar
>se vencer sem um claro programa de transformações
>progressistas não redundará, como no passado, numa
>nova machadada na esperança que os portugueses
>deveriam depositar na esquerda (a desilusão que
>percorre a sociedade brasileira na sequência da
>eleição de Lula da Silva é ilustrativa deste perigo).
>Quando falo de transformações progressistas estou a
>pensar na definição de esquerda apresentada mais
>acima, numa mudança de paradigma sócio-económico, e
>não do “Estado Social” que é hoje, por falta de
>imaginação, a bandeira de todos os partidos à esquerda
>do PSD. Temos em Portugal um partido que se chama
>“social-democrata”, o PSD, mas aqueles que realmente
>defendem a social-democracia, entendida como
>“capitalismo+estado social”, são o PS, o PCP e o
>BE.” (FPR)
>
>Voltamos ao mesmo, se os partidos à esquerda do PS
>propusessem unicamente a mudança de paradigma
>sócio-económico, ou seja, de modo de produção, seriam
>inevitavelmente derrotados e, mais do que isso, não
>responderiam aos interesses imediatos, e sublinho
>imediatos, da sua base social de apoio.
>Depois vem a tua raiva, contra o Estado Social. Como é
>evidente, o PSD não é um partido social-democrata e o
>PS, dada a sua fraca ligação ao meio sindical e a sua
>história anterior ao 25 de Abril (partido continuador
>da tradição republicana), nunca foi um partido
>assumidamente social-democrata, como durante anos essa
>expressão foi entendida na Europa capitalista.
>Quanto à definição que dás de social-democracia, sendo
>em parte verdadeira, reduz a uma fórmula simplista uma
>complexa problemática que atravessou o Século XX e que
>foi um dos dilemas das classes trabalhadores nos
>países de capitalismo avançado (reforma ou revolução,
>tendo estes optado pela reforma).
>Hoje, o Estado Social está debaixo da ofensiva
>desencadeada pela direita, mas igualmente da “terceira
>via” blaireana, de que o Sócrates é um epígono. Duas
>recentes entrevistas na televisão, uma, de um
>politólogo de serviço, no “Diga lá excelência” (TV2,
>RR e Público) e outra do Joaquim Aguiar a Maria João
>Avilez, no Domingo passado, permitem com clareza
>determinar quais são as opções da direita e como, ao
>não compreendermos o que é hoje o Estado Social, damos
>o braço, mesmo que involuntariamente, à sua ofensiva
>contra o mesmo.
>
>“Por muito que invoquem o “marxismo-leninismo” ou
>as “propostas fracturantes” quer o PCP quer o BE (do
>PS nem vale a pena falar) têm vindo a capitular
>perante o modelo da social-democracia. Desapareceram
>as referências à superação do capitalismo que é cada
>vez mais contestado com base nas injustiças da
>redistribuição e não por constituir um empecilho para
>o desenvolvimento da espécie humana.
>Trata-se mais de “cuidar dos pobrezinhos” do que de
>abrir caminho para um novo patamar da humanidade em
>que os “pobrezinhos” sejam um anacronismo.” (FPR)
>
>A argumentação que tenho vindo a desenvolver responde
>a este texto. No entanto, gostaria de lembrar que o
>Bloco de Esquerda propôs nestas eleições mais qualquer
>coisa do que propostas fracturantes, que foram a sua
>imagem de marca, mas que hoje deixaram de ser, por
>razões óbvias, o seu principal contributo para o
>debate democrático à esquerda.
>Não deixaria de terminar sem citar algumas
>intervenções minhas aqui neste fórum que respondem,
>penso eu, às questões que tu pões, assim:
>
>“Hoje as preocupações com a pobreza, sendo
>legítimas, tanto fazem parte do discurso do CDS, como
>da Igreja, e não satisfazem os eleitores que votam à
>esquerda do PS de Sócrates. Hoje o discurso sobre a
>defesa do Estado Social, da saúde, da educação, ou da
>segurança social públicas, mas igualmente a luta
>contra a flexibilização e a competitividade baseada
>nos baixos salários, na facilidade de despedimentos ou
>nos contratos a prazo, ou seja, a luta contra a
>ofensiva do patronato e o avanço ideológico do
>neoliberalismo, é neste momento uma bandeira muito
>mais perceptível pela esquerda e pelos seus votantes,
>do que a defesa piedosa dos mais "desfavorecidos".”
>(JNF)
>
>“Hoje não se pode continuar a caracterizar o Estado
>moderno com a simples ditadura da burguesia, que
>utiliza a social-democracia para enganar os
>trabalhadores.” (JNF)
>
>“A esquerda necessita neste momento de um Partido
>responsável, que proponha a resolução da crise a favor
>dos trabalhadores, que congregue amplas massas e
>unitário nos seus propósitos. Um verdadeiro partido
>reformista, que entenda as reformas como um passo para
>obtenção de uma real transformação da sociedade.”
>(JNF)
>
>Entretém-te a descobrir onde pertencem. Um abraço.
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