| Subject: Uma homenagem oportuna |
Author:
Militante
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Date Posted: 24/06/05 11:16:40
In reply to:
Luís Carvalho
's message, "Homenagem a ex-líder do PCP" on 22/06/05 16:24:21
Já este post estava no “ar” quando li um artigo de Ana Margarida de Carvalho na revista Visão (não acessível na versão on-line), intitulado “O homem sem sombra” e dedicado a Vasco de Carvalho. Nele, cita-se o próprio que, a propósito da homenagem que lhe vai ser prestada no próximo Sábado, diz esta frase que me calou fundo: “É uma homenagem imerecida. Nunca fui ninguém de valor.” E fiquei a pensar nela, sobretudo no valor que na nossa sociedade (e perante nós próprios) se dá a ter-se, ou não, valor.
Não conheço pessoalmente Vasco de Carvalho e fiquei a saber que também não o vou conhecer no próximo Sábado. Não por causa da pouca conta em que ele tem o seu valor mas, simplesmente, porque presença numa cerimónia pública é pedido demasiado para quem tem 96 anos de idade e está doente. Mas conheço parte da sua história e do que ela significa e procurarei saber mais ouvindo os testemunhos e resultados de investigação histórica por parte dos oradores convidados para a sessão na Biblioteca Museu República e Resistência. Ou seja, sei o suficiente para marcar presença aproveitando para mais tentar entender sobre uma das páginas mais negras da resistência ao fascismo em Portugal.
Falei de página negra a propósito de como uma fracção do PCP (militantes saídos do Tarrafal mais outros do “interior”), nos anos 40-41 e sob o pretexto de uma necessária “reorganização”, se apropriaram da direcção partidária e escorraçaram o Secretariado em exercício (em que Vasco de Carvalho, era o Secretário-Geral interino na falta de Bento Gonçalves). Tratou-se de uma luta interna que se entende naquele quadro especialíssimo de combate à ditadura e, provavelmente, sem a “reorganização” levada a cabo (sobretudo pela adopção de regras de defesa da organização e dos seus militantes), a PIDE teria conseguido a aniquilação irreversível do PCP ou a sua redução a um grupúsculo de fraca implantação (e, por arrastamento, ao esfrangalhamento da resistência ao fascismo). Para mais, sem aquela “reorganização”, mais as purgas que se seguiram, Cunhal não teria sido o celebrado Cunhal e, assim, o PCP ou não tinha sobrevivido ou seria uma organização diferente, supondo-se que menor. Portanto, e nestes aspectos, a “reorganização” de 40-41 deve ser levada à conta de uma “página vermelha” na história do PCP e do combate ao fascismo. Então porque pinto também de negro aquela mesma e rubra página? Pela tragédia imensa dos métodos utilizados para afastar os “rivais” dirigidos por Vasco de Carvalho. Em que a miséria do sofrimento da calúnia e do ostracismo foi o preço pago pelos derrotados na luta pela direcção.
Imagine-se o que pode representar, dos pontos de vista humano e político, militantes honrados e devotados, como mais tarde se provou e se admitiu (“de passagem”), na mais dura clandestinidade, inteiramente dedicados aos seus ideais e ao combate ao fascismo, passarem a ser acossados e denunciados como “traidores”, “provocadores” e “informadores da polícia” (em que está para contar, sem rodeios, como e porque é que Manuel Domingues foi assassinado a tiro). Depois, pelo menos no caso de Vasco de Carvalho, presos pela PIDE (para quem eram comunistas) enquanto segundo a “verdade do PCP” eram agentes da mesma polícia. Assim, em termos históricos, a "reorganização” (além dos efeitos de maior eficácia da luta clandestina) teve um alto preço em tragédias humanas de homens injusta e vilmente estigmatizados. Aqui, em pleno salazarismo e com a guerra a queimar a Europa, imitou-se o pior (num mimetismo pró-soviético que nunca mais abandonou o PCP formatado por Cunhal) que Estaline tinha feito e fazia na URSS (tudo o que Estaline fazia eram façanhas geniais, os crimes também). E continuou-se por esse atalho da “prática revolucionária” e que assumiu foros de canibalismo político – Fogaça que liderou (através do célebre e miserável panfleto de calúnias embrulhado no conto “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”) a “caça aos bufos e provocadores” (uma versão rasca e demente de “caça às bruxas”) acabaria por se ver afastado da liderança e do PCP para que Cunhal emergisse como líder único e eterno (como acabou por acontecer) também se usando contra ele um pretexto de miserável invocação (ser homossexual).
A homenagem do próximo Sábado a Vasco de Carvalho é justa e merecida. Ele tem mais que valor para ser alvo dela. Para que seja uma “compensação da memória” a um velho de vida vivida na luta e sob a lama da calúnia e para que a história, a história da luta do PCP e da luta contra o fascismo, não se encolha perante os candidatos à preservação do silêncio. Para que se saiba e se não esqueça, pelo menos, que lutar contra o fascismo em Portugal, sendo-se comunista, representou dois riscos paralelos - o da vida perante a PIDE e o da honra perante o estalinismo do PCP.
Publicado por joao.tunes in http://agualisa3.blogs.sapo.pt/
>Caros amigos
>
>Vasco de Carvalho, secretário-geral interino do PCP em
>1940/2, vai ser homenageado no próximo dia 25 de Junho
>- já este sábado.
>
>Será às 16 horas, no auditório da Biblioteca Museu
>República e
>Resistência (Espaço Cidade Universitária) - fica ao
>cimo da Rua da
>Beneficiência, junto à sede nacional do PCP na Soeiro
>Pereira Gomes.
>
>A homenagem consistirá numa série de testemunhos
>acerca de todo o
>percurso cívico e político de Vasco de Carvalho.
>
>Pilar Batista Ribeiro, falará do contacto que teve com
>VC no Socorro
>Vermelho Internacional - recorde-se que Vasco de
>Carvalho foi
>dirigente do SVI de 1934 a 1939;
>
>José Pacheco Pereira, falará do papel de VC no PCP e
>na oposição ao
>fascismo, enquanto historiador - que contou com a
>colaboração activa
>de VC na sua biografia de Álvaro Cunhal;
>
>Lurdes Correia, irmã do recentemente falecido Edgar
>Correia e filha
>de um dos principais colaboradores de Vasco de
>Carvalho na direcção
>do PCP, transmitirá o testemunho de seus pais;
>
>José Hipólito dos Santos falará do contacto que teve
>com Vasco de
>Carvalho no Ateneu Cooperativo (antiga Fraternidade
>Operária de
>Lisboa)e na direcção da Associação dos Inquilinos
>Lisbonenses
>(associação onde Vasco de Carvalho viveu intensamente
>a Revolução de
>Abril, nomeadamente nos processos de ocupações de
>casas);
>
>Lúcia Nobre, falará do contacto que teve com Vasco de
>Carvalho na redacção do Boletim Cooperativista;
>
>Isabel Rebelo, falará do contacto que teve com VC na
>cooperativa SEIES
>
>Manuel de Campos, presidente do Instituto António
>Sérgio do Sector Cooperativo, falará concontributo de
>VC para o cooperativismo português e da importância
>deste.
>
>Eu falarei do contributo de Vasco de Cravalho para a
>causa do comunismo.
>
>Vasco de Carvalho terá uma intervenção, creio que, de
>agradecimento da homenagem e sobre o presente e futuro
>do comunismo.
>
>Recorde-se que Vasco de Carvalho foi injustamente
>acusado de ser um provocador ao serviço da PIDE e
>expulso do partido com base nessa acusação. Em
>Fevereiro de 1942 foi preso pela mesma PIDE, passando
>dois anos e meio em Caxias, Aljube e Peniche.
>
>Quando saiu da prisão não quis mais nada com o PCP mas
>nunca deixou de ser comunista e de lutar por tal ideal.
>
>Álvaro Cunhal veio em 1985, no seu livro O Partido com
>Paredes de Vidro, e mais tarde noutros textos,
>reconhecer publicamente que as acusações dirigidas a
>Vasco de Carvalho não tinham fundamento algum e que
>constituiram um grave erro.
>
>A NÃO PERDER!
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