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Subject: Álvaro Cunhal (1913-2005)


Author:
Valério Arcary
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Date Posted: 24/06/05 21:54:29

Álvaro Cunhal (1913-2005)
Valério Arcary *
http://marxismorevolucionarioatual.org/mos451/index2.php?option=com_content&task=view&id=184&Itemid=2&pop=1&page=0


* Valerio Arcary, historiador e professor do CEFET/SP, estudou em Portugal entre 1966 e 1978. Foi membro da Executiva nacional estudantil pró-UNEP nos anos da revolução dos cravos.


Álvaro Barreirinhas Cunhal, nascido em Coimbra em 10 de Novembro de 1913, morreu no passado dia 13 de Junho. Tinha 91 anos. Estava doente há mais de um ano, tendo antes perdido a visão devido a um glaucoma. Foi um dos principais líderes da resistência ao salazarismo. Permaneceu comunista até o fim, fiel a uma escolha que fez aos 17 anos. Muitos milhares de portugueses o acompanharam até o cemitério do Alto da Boavista em Lisboa e se despediram, emocionados, cantando a Internacional.

Na última semana, Cunhal recebeu os louvores das figuras mais destacadas e prestigiadas do regime democrático-liberal português, o presidente e o primeiro-ministro – tanto da esquerda, quanto até da direita – que, diante da comoção sincera que sua morte provocou, o reconheceram como umas das mais importantes e expressivas personalidades da sociedade portuguesa no século XX. No entanto, entre os que se apressaram em enaltecer a coerência do falecido com elogios de ocasião – como recordou Francisco Martins Rodrigues, contemporâneo de Cunhal no Comité Central do PCP, líder da ruptura pró-China nos anos sessenta, e atual editor da revista Política Operária - alguns apenas camuflam o embaraço e desconforto que nunca esconderam, quando em vida, diante do homem que chefiou a longa e heróica resistência dos comunistas à ditadura fascista e que, só pela sua presença, lhes atirava à cara a vergonha de não terem feito o mesmo quando era preciso provar o amor à “Democracia”, que nunca se cansam de proclamar.

Cunhal nasceu em uma família de classe média alta provinciana. O pai, Avelino Cunhal, era advogado, tendo conseguido a nomeação para governador civil da Guarda. Fez o ensino primário em casa, mas mudou aos 11 anos para Lisboa, tendo estudado nos liceus Pedro Nunes e Camões, duas escolas públicas e gratuitas – conquista da expansão da educação depois da República - os mais tradicionais da capital. Em 1931, com 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e foi eleito representante dos estudantes no Senado Universitário. A sua primeira proposta foi acabar com a Mocidade Portuguesa, uma organização de inspiração nacionalista fascistóide. No mesmo ano filiou-se no PCP, e entrou para a Liga dos Amigos da URSS e do Socorro Vermelho Internacional, sacrificando a perspectiva de um futuro confortável e de uma carreira prometedora. Distinguiu-se depressa pela qualidade de seus extraordinários talentos. Não hesitou em unir o seu destino à causa de uma organização, então, muito frágil – o PCP, liderado pelo operário Bento Gonçalves, do arsenal da Marinha, tinha uma implantação essencialmente operária – onde não poderia aspirar outro futuro senão abnegação e sacrifício. Muito jovem, ascendeu a crescentes responsabilidades. Subiu os degraus da hierarquia do partido, ainda minoritário diante da influência do anarco-sindicalismo nos sindicatos, em poucos anos. Em 1935 já era secretário-geral das Juventudes Comunistas e, no ano seguinte, entrava para o Comitê Central que o enviou para Espanha, onde viveu os primeiros meses da guerra civil, uma experiência que o inspirou para o seu romance "A Casa de Eulália". Aos 24 anos, em 1937, sofre a primeira prisão, no Aljube e Peniche. Em Maio de 1940 foi novamente preso. Estudou na cela e foi à Faculdade, sob escolta policial, defender a sua tese (100 páginas, confiscadas depois pela PIDE) sobre a realidade social do aborto e a defesa de sua despenalização. Os examinadores, entre eles ninguém menos que Marcelo Caetano – que sucederá Salazar - aprovaram seu trabalho de conclusão de curso com uma nota final de 9,5, uma façanha intelectual rara.

Formado intelectualmente no ambiente político-cultural dos anos trinta sua personalidade foi forjada pelo engajamento generoso e idealista dos apoiadores das Brigadas Internacionalistas - que se voluntariaram para ir lutar contra o franquismo na guerra civil espanhola – e pela esperança revolucionária na transição ao socialismo na URSS e a revolução mundial. Mas, lembremos também, Cunhal foi um estalinista irredutível. Como a maioria dos jovens atraídos nesses anos pela causa da luta contra o fascismo, aderiu sem reservas ao culto à personalidade de Stalin, e admitiu sem pudores a necessidade do terror nos processos de Moscou, defendendo as espantosas reviravoltas pragmáticas da política do Estado soviético. Cunhal foi um filho do seu tempo: chegando à vida adulta na terrível década que seguiu a crise de 1929, quando aqueles que se uniam às idéias socialistas estiveram diante do desafio da luta contra o nazi-fascismo, se fez comunista sob o extraordinário impacto internacional da revolução russa, mas também das misérias burocráticas que vieram depois da derrota da revolução alemã, com Stalin, Kruschev, Brejnev e, finalmente a restauração capitalista impulsionada por Deng Xiao Ping na China, desde 1978, e Gorbatchev em 1985. Nunca deixou textos consistentes que explicassem as razões que o levaram a julgar socialista um regime onde os trabalhadores eram oprimidos e a desigualdade social, que preservava os privilégios da burocracia do Estado, permanecia intacta.

Entregou sua vida à resistência ao salazarismo. Em 1941, trabalhou brevemente no Colégio Moderno – prestigiosa escola particular - a convite de João Soares, e foi até professor particular de Mário Soares. Já no final do ano passou à clandestinidade, de onde só saiu depois do vinte cinco de abril de 1974. Até 1947 conseguiu reorganizar o partido – dilacerado pela repressão – e restabelecer as relações com a Internacional Comunista (interrompidas em 1938) e ganhou todas as lutas internas, sendo já o responsável pelo relatório político apresentado no II e IV Congressos. Preso de novo pela PIDE em 1949, no ano seguinte é levado a julgamento e é condenado a quatro anos de prisão, seguida de oito anos de degredo, que correspondia ao exílio nas colônias africanas. Na prisão, escreve e desenha. Esteve mais de oito anos isolado de qualquer contacto com o mundo exterior numa cela. "Quando se tem um ideal, o mundo é grande em qualquer parte", lembraria mais tarde. No dia 3 de Janeiro de 1960 conseguiu fugir espetacularmente do Forte de Peniche – uma fortaleza erguida em um promontório muito alto de frente para o mar - em uma operação que uniu organização e audácia, articulada por uma minuciosa infiltração de um militante do PCP como agente carcerário. No ano seguinte é eleito secretário-geral. Mesmo vivendo no exílio, entrou e saiu várias vezes do País sem ser preso, e conseguiu publicar em 1964 o "Rumo à Vitória", possivelmente, o texto de referência programática mais importante do PCP.

Cinco dias após o 25 de Abril de 1974, Cunhal regressou a Lisboa para, em 15 de Maio, quinze dias depois de ser ovacionado por mais de meio milhão de portugueses no histórico Primeiro de Maio em que a revolução começou a medir forças com Spínola, tomar posse como ministro sem pasta no primeiro governo provisório, apesar da reação burguesa, muito contrariada. O PCP era o partido que reunia os heróis da resistência: só os membros de seu comitê central tinham cumprido durante quase meio século, somados, mais de duzentos anos de cadeia. Encontrou um partido com pouco mais de quatro mil militantes e pouca iniciativa, que perdia influência nas classes médias anti-fascistas para a socialdemocracia e para a esquerda católica, e ultrapassado nos meios juvenis, crescentemente, pelas dinâmicas organizações das dissidências maoístas, e pelos trotskistas.

Sendo a liderança mais influente do PCP, foi um dos responsáveis pela impressionante organização, em poucos meses, de um partido de cem mil militantes, solidamente implantado em todos os grandes centros produtivos estratégicos, com importante influência nas classes médias e na intelectualidade, e ainda com audiência no MFA. Mas, nos meses decisivos de 1975, entre o fracasso da segunda tentativa de golpe liderada por Spínola, no 11 de março, e o 25 de novembro, quando a contra-revolução logra retomar o controle da disciplina nas Forças Armadas sob a chefia de Ramalho Eanes, levou seu partido a perder o encontro com a história. Depois de ter apelado ao longo de décadas, incansavelmente, à revolução, mesmo quando outros setores da esquerda, como Mário Soares, equivocadamente, apostavam na reforma do regime ditatorial, quando esta finalmente começou a desenhar-se no calor da crise revolucionária, passou a bradar contra os “atos irresponsáveis”. O papel do PCP, leal até ao fim aos ditames da política externa da URSS, foi decisivo para o desenlace da derrota da revolução que, por ironia da história, não cansou de esperar durante os quarenta e oito anos de ditadura. Cunhal foi o líder do PCP que instituiu em plena situação revolucionária, apoiado na sua incontestável autoridade moral, uma disciplina férrea, o clima da ortodoxia, o princípio da aceitação obediente e uma cultura interna de medo à crítica, próprios do estalinismo. Conseguiu, no entanto, a proeza de sem se desacreditar perante os trabalhadores organizados, poupar à burguesia o calvário de uma revolução.

Isso não impediu que o capitalismo português tenha odiado Cunhal até o fim, intensa e furiosamente, pintando-o como um “diabo” vermelho sob a acusação de que quis “tomar o poder”. As classes proprietárias e seus aliados das horas “difíceis”, quando o perigo da revolução socialista era iminente - como Mário Soares e a socialdemocracia durante o “verão quente” de 1975 - precisam, muito convenientemente, de ter um espantalho e uma justificação diante da história para o infame golpe militar de 25 de Novembro. O PCP não se moveu, contudo, em nenhum momento da revolução em direção à insurreição. Ao contrário, seus quadros e militantes, salvo exceções, trabalharam ativamente junto aos trabalhadores e às organizações que influenciavam, como a ampla maioria dos sindicatos, para limitar a extensão e, sobretudo, a centralização da dualidade de poderes que se expressava através das comissões de trabalhadores, das comissões de soldados e nas unidades coletivas de produção no Alentejo. Defenderam a subordinação do poder popular, inflexivelmente, ao MFA e, nos momentos decisivos, ao V Governo, liderado por Vasco Gonçalves.

A incontornável aversão a Cunhal pode ser explicada, portanto, como uma expressão indireta de um horror à classe trabalhadora que se exprimia politicamente através de seu partido, o PCP. A arcaica e assustada burguesia portuguesa estava acostumada à dominação colonial e habituada à resignação do povo à ditadura. Não conseguiu esquecer o terrível sobressalto e assombro diante da revolução, que levou à estatização de mais de metade do PIB do país em menos de um ano, e a presença dos milhões de explorados e oprimidos nas ruas seguindo as bandeiras vermelhas. Confundem o avanço irreprimível dos trabalhadores com “planos tenebrosos” da direção do PCP que, na realidade, se limitou a seguir a reboque, tentando e em muitos momentos conseguindo controlar a onda revolucionária da ação popular.

Cunhal foi deputado entre 1975 e 1992, mas só por curtos períodos ocupou o lugar na bancada do PCP, dedicando pouca atenção à vida parlamentar, priorizando as tarefas de direção política do PCP aos debates na Assembléia da República. Em 1992 cedeu liderança do PCP a Carlos Carvalhas, para passar a presidente nacional do Conselho Nacional do PCP, um cargo criado à sua medida e extinto anos depois. Foi operado a um aneurisma da aorta, em 1989, em Moscou. Com obras publicadas como militante político (entre as quais "Partido com Paredes de Vidro"), só em 1995 reconheceu publicamente ser o Manuel Tiago da ficção literária "Até amanhã Camaradas", "Cinco Dias e Cinco Noites", "Estrela de Seis Pontas" e "A Casa de Eulália" e o António Vale que assinava temas plásticos e fazia desenhos. Nos últimos anos esteve sempre afastado da cena política devido à sua avançada idade e ao seu estado de saúde. Álvaro Cunhal teve uma filha única, Ana (a mãe foi a sua companheira de exílio Isaura Dias) embora a mulher dos seus últimos anos fosse Fernanda Barroso.

Nos meses decisivos de sua vida foi o principal inspirador de uma estratégia fundamentada na busca de um meio-termo: construir uma inserção independente do Estado português no Sistema Internacional, reconhecendo a independência das colônias e revigorando o enfraquecido Movimento dos não alinhados, mas sem desafiar as pressões que atavam o PCP à política externa da URSS e à coexistência pacífica com os EUA. Uma ruptura anti-capitalista estava, portanto, descartada. Perseguia uma tática capaz de acalmar a indignação dos pobres sem atemorizar as classes médias acomodadas, enquanto mantinha influência do aparelho do PCP sobre setores da classe operária e suas organizações. Não parece suficiente para quem sempre se reivindicou do título de comunista e revolucionário.

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A ignorância é muito atrevida!João Carlos o 1º28/06/05 20:05:57
Um rol de disparatesJoão Carlos o 1º28/06/05 20:20:46


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