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Subject: A morte vem sempre amanhã


Author:
Miguel Romão, A Capital, 16/06/05
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Date Posted: 16/06/05 20:16:17
In reply to: Secretariado do Comité Central do PCP 's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29

A morte vem sempre amanhã
Miguel Romão, A Capital, 16/06/05

Miguel Esteves Cardoso, que já foi uma referência nos jornais para uma geração que é a minha, escreveu, há bastantes anos atrás, uma crónica memorável após a morte do professor Lindley Cintra, intitulada «Estão a morrer os nossos pais».

No funeral de Álvaro Cunhal, no funeral de Eugénio de Andrade, é deste título que me recordo. Da morte dos nossos founding fathers, sem cabeleiras setecentistas e sem exércitos nas trincheiras, mas, mesmo assim, pais fundadores do regime, seja ele um regime político ou um regime sensorial.

Que país seria este sem a luta de Cunhal e sem as amoras de Eugénio? Igual ao que é, dirão muitos. Com menos génio e menos ser, digo eu.

A todos para quem hoje as palavras «ditadura», «censura», «perseguição», fazem apenas parte de um imaginário próprio de Hollywood, em que há sempre «bons» e «maus», e os «bons» vencem sempre no fim, e o fim é sempre daí a noventa minutos, será difícil configurar sequer o que são oito anos preso em isolamento, como Cunhal, preso por insistir noutras palavras, dentro de uma vida que é real, que existe fora do ecrã, numa vida onde as pessoas se tocam e se perturbam e as palavras têm sempre consequências.

Por mais que se diga que o Estado Novo foi afinal suave na sua novidade, que foi doce, taciturno e morno como todos nós, sem mágoa e sem previsão, não chega: era também o tempo em que as palavras estavam proibidas, em que os votos eram insultos, em que a verdade tinha um dono.

Esquecer isso, com o tempo e com a vontade de condescender, é sempre vacilar perante nós próprios. E a figura de Cunhal ajudava a não esquecer e a não vacilar. Possamos então ser sempre dignos da memória e nela continuar todos os dias até amanhã.

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Subject Author Date
Já não há gente com tomates e princípios?Tiago Rodrigues, A Capital, 16/06/0516/06/05 20:19:40


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