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Tiago Rodrigues, A Capital, 16/06/05
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Date Posted: 16/06/05 20:19:40
In reply to:
Secretariado do Comité Central do PCP
's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29
Já não há gente com tomates e princípios?
Tiago Rodrigues, A Capital, 16/06/05
Fazem o que fazem porque tem de ser. É a gente que conta. A gente que faz o que tem necessidade de fazer. E é uma necessidade que vem do sentido de justiça, ou duma crença, ou paixão, ou duma raiva ou de qualquer coisa que toma conta deles e não lhes permite passar o dia no sofá entregues ao vazio de um dia depois do outro. Esta é a gente que conta.
Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade eram assim. Movidos pela necessidade da política e da poesia, moveram e comoveram o País. É apenas justo que sejam recordados assim, agora que partiram. Mas irrita-me solenemente quem diz que eram os últimos. Os próprios Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade seriam os primeiros a considerar um disparate de dimensões astronómicas essa ideia que tem corrido televisões e conversas de casa de pasto.
«Já não há gente assim», queixa-se o País. Percebo que, até certo ponto, se exagere no elogio fúnebre, mas pergunto-me o que significa dizer «já não há gente assim».
Estão a referir-se exactamente a quem? A gente movida essencialmente por princípios e valores humanos? A gente com tomates? Não há? Estamos, portanto, entregues à selva desumana do lucro? Ah, sim? Estamos perdidos?
Os pessimistas terão respondido sim a esta última pergunta. Para os pessimistas, que têm o hábito irritante de se auto intitularem lúcidos ou realistas, estamos todos perdidos. Passámos o ponto de não retorno na estrada que leva ao fim dos valores humanos. Para eles, estamos entregues aos bichos, vale tudo, até arrancar olhos e salve-se quem puder porque «já não há gente assim». Excepto eles, é claro, que têm valores mas como são pessimistas não acreditam que possam influenciar o curso dos acontecimentos. É pena.
Eu, que sou da célebre «geração rasca», já assisti a este pessimismo geracional no passado. Eu, que vivo na Amadora, berço da «geração arrastão», assisto diariamente ao abismo entre quem vai ser o futuro e quem domina o presente. E eu, só na minha rua, conheço muita gente que conta. Muita gente com tomates e princípios. Curiosamente, têm quase todos menos de 30 anos.
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