| Subject: A cegueira dos aparelhos partidários |
Author:
Joaquim Sarmento
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Date Posted: 11/08/05 18:16:52
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "Às arrecuas" on 25/07/05 11:16:13
Tenho reflectido muito ultimamente sobre as contradições que se colocam permanentemente a um militante e dirigente partidário, como é o meu caso, obrigado a optar entre duas soluções políticas que se anulam, uma que vai ao encontro do acervo de valores da sua consciência e outra que serve interesses estratégicos do partido a que pertence, quase sempre conjunturais e descaracterizadores do seu programa e ideário.
Não é somente uma conflitualidade a superar-se nos patamares da ética da responsabilidade e ética da liberdade. O conflito polariza-se entre a salvaguarda coerente das nossas convicções e a absolutização do partido, que não pode constituir um fim em si mesmo, tal Leviatã a entrincheirar a nossa harmonia interior e a vilipendiar os imperativos da nossa consciência.
Os aparelhos partidários e, nessa perspectiva, os partidos, da direita à esquerda, são todos conservadores, funcionam como cilindros ou rolos que esmagam inapelavelmnete quem se oponha à bússola ou girândola da sua direcção.
A subserviência dos militantes às direcções partidárias tem reflexos dramáticos na subordinação dos deputados ao governo, onde pontifica o líder do partido, sendo premiada a vassalagem, em detrimento da postura crítica, inimiga da rotina, da incompetência e do amiguismo.
Os aparelhos partidários tendem a tornar-se uma das maiores fragilidades das democracias contemporâneas e um eixo crescentemente totalitário, que vai esmagando, sem disso nos darmos conta, a criatividade e pluralidade no seu interior, descredibilizando a política e afastando da polis um número cada vez maior de cidadãos, com repercussões na abstenção eleitoral, no desencanto dos jovens, no afastamento de quadros valiosos da intervenção política.
Estas considerações entroncam naturalmente com as recentes movimentações em torno das presidenciais e a mais que provável candidatura de Mário Soares e o consequente assassinato político de Manuel Alegre.
Soares é uma figura incontornável da democracia portuguesa. Ninguém põe isso em causa. Mas não deixa de ser perturbante que o PS tenha de ancorar-se no senador Soares e transformá-lo numa espécie de remake hodierno de Frei Bartolomeu dos Mártires, como se todos estivéssemos velhos e tenha que ser ele, Soares, aos 80 anos, a pedir a nossa reforma. O vazio ideológico que grassa no PS tem no recurso a Mário Soares uma bóia de salvação, não deixando, porém, de representar um perverso e injusto cerco a Manuel Alegre, um dos poucos dirigentes socialistas que sempre pautaram o seu discurso e a sua praxis pela ênfase ao cultural e à força das ideias.
Mas Alegre não é um seguro eleitoral contra todos os riscos. E o aparelho do PS, respondendo a um sinal verde de Sócrates, acorreu lesto a divinizar Soares, arremessando para o silêncio Alegre, como se este não existisse, não tivesse sentimentos, não respirasse e não merecesse uma explicação.
O PS, na ânsia de ganhar tudo, arrisca-se, ao assassinar os seus generais, a perder tudo e sobretudo a perder a alma. Estou, pois, solidário com Manuel Alegre. Aliás, o autor de Praça da Canção sempre se poderá confortar na sua solidão com o desabafo clássico: "Os corvos voam em bando, a águia voa sozinha."
Presidente da concelhia de Lamego e membro da comissão nacional do PS
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