Author:
fernanda câncio (DN)
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Date Posted: 24/07/05 17:14:18
Alargar o campo do possível foi essa a bela frase que Sartre inventou para o Maio de 1968 em França e concedeu usar para o Portugal pós-11 de Março que visitou durante quase um mês. Um possível que incluía agora - então - a tentativa de concretização de todos os sonhos ou, na fórmula específica do processo revolucionário, todas as superações, todas as reivindicações, todos os ajustes de contas.
Sartre interessou-se sobretudo por aquilo que fazia o folclore do Verão Quente ocupações de fábricas, casas e herdades, experiências comunais, igualitarismos instantâneos como o que se encenava então no Ralis (o quartel de Lisboa que foi atacado no 11 de Março), onde gostou de ver, num almoço da messe de oficiais, praças lado a lado com sargentos, tenentes e brigadeiros.
Estava em causa, neste processo de alargamento do possível, sobretudo aquilo que então se denominava de posse dos "meios de produção". Mas nas entrelinhas das herdades pilhadas, das propriedades apropriadas, das fábricas nacionalizadas, das manifestações e contramanifestações, golpes e contragolpes, bombas e barricadas, comunicados e contracomunicados que faziam as parangonas de jornais e televisões e deslumbravam os visitantes estrangeiros havia outra revolução, a chamada cultural.
Aquela que se interrogava sobre o como da união entre intelectuais e "trabalhadores" - e trabalhadores, em 1975, não era quem trabalhava, eram só os do campo e das fábricas, a arraia-miúda dos "camponeses" e "operários". A revolução cuja angústia era corporizada por um Ballet Gulbenkian que, em conferência de imprensa, dizia querer ser "mais popular e mais útil ao povo" e falava da dificuldade de "dançar sobre cimento" nas suas deslocações às fábricas. A revolução à luz da qual o músico Jorge Lima Barreto dissecava a estética kitsch de Beatles e Rolling Stones, cujo êxito, dizia, "sustentado na revolta, não decide, jamais, o conflito das classes" (porque, bem entendido, tudo era julgado pelo seu contributo para esse fim).
A revolução teorizada por Eduardo Prado Coelho, então confesso admirador das teorias de Cunhal e Vasco Gonçalves e dos editoriais do Avante! (e "surpreso" com a "espectacular pobreza teórica do PS", embora com uma menção para "a subtileza" e "o ardil" de Marcelo Rebelo de Sousa), nas muito rubras páginas de um DN dirigido por Henrique Barros e José Saramago, onde, citando Trotsky, Engels e Estaline, concluía que se "a oposição simplista entre a cultura burguesa e a cultura proletária é a forma como a cultura burguesa tende a enunciar o problema de modo a reforçar-se no exercício do seu domínio", a solução, ou caminho, passaria por "uma dupla inscrição da revolução cultural, inscrevendo-se ora no campo do mesmo (contra a cultura burguesa) ora no campo do outro (a favor da cultura revolucionária)".
"A reconversão do indivíduo". Onde se riscaria, neste duplo território, o manifesto de uma anónima Comissão dos Autores sem Editor que, em nome de todos os escritores, incluindo "inéditos e semi-inéditos, incomunicados ou incomunicáveis", reivindicava o direito inalienável à publicação? Reclamavam ainda, "com urgência, o estudo e o exercício de uma profunda reforma da linguagem literária dos escritores portugueses", já que, frisavam, "a usurpação da linguagem ao serviço de uma classe dominadora e desvirtuadora das outras classes foi em Portugal especialmente nefasta". O fim em vista, afinal, era o mesmo que toda a gente parecia desejar "a autêntica reconversão do indivíduo".
Se alargar o possível é reconfigurar os limites da realidade conhecida, todos os limites podiam ser inimigos da liberdade, mesmo que, e sobretudo se, intransponíveis. Os limites da capacidade, do talento ou mesmo da literacia surgiam como contra-revolucionários, fascizantes. Isso mesmo se lia nas palavras de um representante de uma revista então publicada, a Yenan, que, segundo o Expresso de 5 de Abril de 1975, disse a Sartre, num encontro na casa de Imprensa, que, se não fosse aquela publicação a imprimir textos de "autênticos operários", nada haveria para ler em Portugal, já que os livros que se publicavam no País desde o 25 de Abril eram todos de "imperialistas ou social-fascistas". Atendendo a que o próprio Sartre andava pelos escaparates das livrarias, e por acaso na lista dos mais vendidos - em que, diga-se, figurava também Emanuelle, a Anti- -Virgem, para além de Marquês de Sade, Che Guevara, Mário Soares, Álvaro Cunhal e Rosa Luxemburgo -, não será estranho que tenha, de acordo com o citado semanário, ficado interdito. Valeu o grito de Baptista Bastos "Então Stendhal é imperialista?"
Proletário é que Stendhal não era; daí até ao imperialismo é um fósforo e portanto uma bem provável possibilidade - aliás, alargando-se o campo do possível, tudo é, correndo o risco da tautologia, possível. E era em nome da liberdade e da revolução, havia jornais - era o caso do DN, dirigido por quem mais tarde seria laureado Nobel da Literatura - que se recusavam a publicar notícias relacionadas com as ideias de partidos que consideravam "contra-revolucionários", enquanto plasmavam, sob o título "Apoio popular a Vasco [Gonçalves, então primeiro-ministro]" comunicados inteiros das comissões de moradores do Alto dos Tocinheiros "pelo seu teor e por serem bastante representativos". O mesmo Vasco tinha direito a uma página inteira para esmiuçar a sua visão da revolução, em que era preciso "mandar uma quantidade de gente para campos de trabalho", para os "recuperar". Na mesma linha estava um editorial do DN (não assinado), de 1 de Agosto, em que se clamava por "violência implacável contra os inimigos da revolução".
Isto enquanto o escritor Luís Pacheco, a meio de uma crítica literária, apela ao saneamento de Vitorino Nemésio (porque teria rejeitado, na Bertrand, a publicação de um autor "comunizante") e na Sociedade Portuguesa de Autores vários escritores se travam de razões, a propósito de episódios como aquele em que, no meio de um debate sobre a nacionalização do teatro, Natália Correia teria dito "O Movimento das Forças Armadas já desrespeitou o seu programa." Chocado com a heresia, um funcionário da SPA apelidou a afirmação de "muito grave" e "contra-revolucionária"; Natália respondeu com um estalo - e o funcionário com outro. Este caso mais o de uns saneamentos sumários sustentaria um levantamento de 75 sócios da SPA, incluindo Mourão Ferreira e Natália, contra o presidente Luiz Francisco Rebello (que escrevera no DN: "Não há liberdade contra a revolução"), num confronto ao qual não faltam acusações mútuas de cumplicidade com o regime deposto e de aggiornamentos demasiado céleres.
É este planeta outro que mais um célebre das letras internacionais, o colombiano Gabriel García Márquez, visita em Junho para concluir que está como na sua terra. "Para os latino-americanos, este processo é muito claro, parece ser de qualquer país nosso. É o drama do subdesenvolvimento (...)". Ainda assim, Márquez deixa alguns avisos "É inaceitável que socialismo e liberdade de criação sejam incompatíveis, como tratam de fazê-lo acreditar os terroristas do capitalismo e, com efeito, o têm feito temer muitas vezes alguns erros idiotas dos países socialistas."
A sorte de García Márquez é que o funcionário da SPA não andava por ali, ou não se livraria de uma boa bolachada. Como escreve Prado Coelho, outra vez ele, está tudo a mudar muito rápido e as cabeças, mesmo as mais pensantes, não resistem à vertigem. "Não há sétimo dia para descansarmos. Por vezes sentimos à nossa volta que os nervos estalam - como naquelas tardes de Verão em que tudo conspira para que se façam crimes." E crimes houve, crimes vai haver. Quanto ao sétimo dia... Ainda estamos à espera.
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