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Subject: Cultura política e origens sociais


Author:
Jorge Gonçalves
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Date Posted: 31/01/06 20:48:22
In reply to: João Paulo Guerra 's message, "Uma candidatura pré-fabricada pelas “sondagens de opinião”" on 31/01/06 18:49:39

Cultura política e origens sociais

Jorge Gonçalves, Diário Económico, 31/01/06

A sociedade portuguesa está cada vez mais preconceituosa no que respeita à qualificação dos cidadãos de acordo com as suas origens sociais.

Esses tiques preconceituosos sempre foram visíveis nas academias, no mundo mediático ou nos fóruns intelectuais. A ideia de elite e de liderança estava conceptualmente ligada a uma certa cultura de linhagem em que a principal regra de aferição era o mundo de origem.

Parece verificar-se, nos tempos de hoje, a extensão desta realidade ao mundo da política e dos políticos, embora com algumas variações e matizes que não encaixam nas regras gerais.

Desde logo, a qualificação geral de esquerda e direita. Era do senso comum e da história político-social – numa certa visão do mundo – identificar a esquerda como um espaço politico em que se integravam as classes trabalhadoras, os que provinham de origens sociais mais desprotegidas, enquanto as elites dominantes (económicas ou políticas) representariam a direita a que se associava o autoritarismo e a postura conservadora.

Mas também, e por força da identificação das origens sociais, se atribuía à esquerda valores de solidariedade, de justiça social, de modernidade civilizacional, enquanto se olhava para a direita como exactamente o inverso disso tudo.

E o que temos hoje? A nossa realidade política mantém os mesmos quadros de referência do passado?

Que se mantêm os preconceitos, não parece restarem dúvidas. Basta atentar no ruído produzido durante a recente campanha presidencial e as referências directas e indirectas ao valor intelectual dos candidatos Cavaco Silva ou Jerónimo de Sousa, a sua alegada incapacidade para avaliar os factores da modernidade, a sua falta de densidade cultural ou a sua incapacidade para bem representar o Estado e os cidadãos.

Este facto revela que, hoje, os cidadãos continuam a ser social e politicamente qualificados mais pela sua origem social do que pelos valores e princípios que exprimem ou pelo mérito que revelam no seu percurso de vida.

Cavaco Silva e Jerónimo de Sousa apresentam – para uma certa esquerda intelectual – tudo aquilo que sociologicamente ela não é. E nesse sentido terão mais de identificação do que de distinção.

De facto, a esquerda portuguesa integra matizes que nada têm a ver com as referências históricas e a representação social que sempre a caracterizaram. A nova esquerda, que entre nós se identifica com o Bloco, pouco ou nada tem a ver com o fundamento social da esquerda sociológica, integrante e mobilizadora dos trabalhadores e pequenos e médios empresários, assumindo a função política que os pensadores leninistas atribuíam às elites liderantes.

Sendo esquerda, é exactamente o espaço que menos incorpora e menos representa os que deveria, em coerência, mobilizar.

As elites são, em política, importantes e, em certas circunstâncias, mesmo decisivas. Um pressuposto essencial é, no entanto, que se identifiquem claramente com os que pretendem representar e que estes se sintam representados por elas, sob pena de se evoluir para uma vacuidade política que apenas serve para alimentar os apetites e as buscas de glória de alguns.

Pode ser-se de esquerda e pretender que alguém não possa ser Presidente da República porque não cita algum intelectual da moda? Ou que esteja impedido de representar o Estado e os cidadãos porque o seu percurso de vida não se ajusta ao modelo teórico intelectualmente bem definido?

Tal atitude revela, isso sim, intolerância totalitária (que apontam a outros) e uma cultura de segregação social e cultural que, essa sim, deveria estar arredada de quem projecta unir e representar os portugueses.

Ocorre-me, para ilustrar esta afirmação, reconduzir-nos a dois artigos de duas personalidades da vida intelectual portuguesa, mas que bem revelam o que distingue uma cultura de saber fundado nos valores da personalidade humana e da reflexão livre e autónoma e uma outra sustentada pela arrogância e por outros vícios.

Eduardo Lourenço, em reflexão sobre as eleições presidenciais e a propósito da candidatura de Mário Soares, lembrava que a boa decisão política deve ter em conta o tempo e as circunstâncias, o que demonstra que nem sempre a vontade individual ou o seu impulso estão ajustados ao sentido colectivo dos cidadãos.

Bem distinta esta atitude da que Clara Pinto Correia assumiu, também em artigo, próprio e identificado, que não foi mais longe do que explorar os gostos e as atitudes da mulher do Presidente eleito.

Aqui se manifesta o que distingue as esquerdas intelectuais em Portugal. A que reconhece o sucesso e a que se limita a gerir a herança.
____

Jorge Gonçalves é jornalista e assina esta coluna quinzenalmente à terça-feira.

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Replies:
Subject Author Date
Lurdes Pintasilgo e o último lugar - Tal como a tristeza hipocrisia não tem fimArtur Queirós31/01/06 20:53:48
    Olha que estória mais interessante... (NT)Visitante Cínico (e a matutar nas coisas da vida...)31/01/06 21:16:36


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