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Subject: Lurdes Pintasilgo e o último lugar - Tal como a tristeza hipocrisia não tem fim


Author:
Artur Queirós
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Date Posted: 31/01/06 20:53:48
In reply to: João Paulo Guerra 's message, "Uma candidatura pré-fabricada pelas “sondagens de opinião”" on 31/01/06 18:49:39

JN, 29/01/86
Por Artur Queirós, enviado do JN

Lurdes Pintasilgo e o último lugar
Tal como a tristeza hipocrisia não tem fim

Alguém disse que de todas as coisas tristes, a mais triste é esta: podia ter sido.
Em relação à candidatura de Lurdes Pintasilgo, a grande tristeza, de facto, é que podia ter sido. Podia ter sido a candidatura do sonho, da esperança, e logo à partida se viu que tinha o último lugar garantido.

No Alentejo, só quem não viu aquela caravana mover-se atabalhoadamente à procura de ninguém, só quem não ouviu o discurso da candidata podia acreditar que alguma vez Lurdes Pintasilgo tinha hipóteses de ir buscar votos à área da APU. Foi patético ver, em Beja, 40/50 pessoas gritarem que “Pintasilgo vai ganhar e o país vai funcionar”. Aquele magote de pessoas foi engrossando por elementos que viajavam na caravana e dos quais muitos tinham vindo de Lisboa para passar aquele sábado no Alentejo.

Os alentejanos disseram “não” à candidata. Ela própria se encarregou de deitar fora mais votos ao atacar as cúpulas do Partido Comunista Português. É verdade que em Moura se juntaram algumas centenas de pessoas. Mas a esta concentração não foram estranhos os ranchos que actuaram . Quando há festa não se olha à cor do candidato.

Houve quem visse multidões no Alentejo, apoteose, uma onda imparável de vitória. Eu apenas vi a solidão e uma candidata acompanhada por um elemento da Comissão Política que apenas dizia: esta é a nossa candidata e vai dizer algumas palavras.

A candidata falhou no Alentejo, em Setúbal e no distrito de Lisboa, com excepção do concelho de Loures onde a UDP fez um trabalho de mobilização importante. Mas falhou porque não foi apoiada. Porque não tinha máquina nem organização nem “staff” nem nada.

E quando ouvi, na noite de domingo, os elementos da Comissão Política atribuir as culpas da derrota a Eanes e a Ângelo Veloso (porque ofereceu o seu tempo de antena a Zenha) fiquei com a certeza de que a hipocrisia, tal como a certeza, não tem fim.

A Comissão Política abandonou a candidata à sua sorte, à sua imaginação, aos seus bons e maus humores. Ouvi Lurdes Pintasilgo fazer o “discurso da modernidade” às mulheres dos pescadores de Esposende e o “discurso da cultura” a um grupo de apoiantes em Castelo de Paiva. Quando a campanha devia acelerar, a candidata entrou de férias. Na quarta-feira, dia 22, a campanha começou às 18 horas por terras do Ribatejo. Na quinta-feira, dia 23, a candidata foi dar um passeio a Setúbal. De manhã foi uma amena cavaqueira num café do Seixal, depois de ter visitado os mercados de Corroios e Torre da Marinha. Por aí se ficou a sua actividade. À tarde conversou com jornalistas na Pousada de Palmela. Tudo seria irremediavelmente nulo se Zeca Afonso não tivesse decidido sair de casa e ir à estalagem de Palmela levar-lhe o seu apoio e solidariedade. A campanha recomeçou às 17.30 horas no Bairro da Camarinha, e depois foi o comício à noite, no pavilhão do Vitória. Um grande espaço para uma candidatura com pouco poder de mobilização. E o resultado viu-se. Nunca lá estiveram mais de duas mil pessoas.

Na sexta-feira, último dia da campanha, foi um passeio pela linha do Estoril. De novo a solidão, a indiferença do eleitorado. Três dias de campanha - os decisivos! - que a candidata praticamente deitou pela borda fora.

É a “Comissão Política” de Lurdes Pintasilgo que tem sérias responsabilidades nesta derrota mais do que previsível: já era uma certeza logo ao segundo dia. Eu, pelo menos, nunca tive dúvidas. Mas não me cabia escrevê-lo, porque aos jornalistas compete descrever os factos e não especular sobre resultados eleitorais.

Eu tinha razão.

Podia ter sido diferente. Por exemplo, se a “Comissão Política” e a própria candidata tivessem tido a coragem de desistir quando viram que tudo estava perdido. E ainda estou para perceber como foi npossível Sousa e Castro dizer-me, na sede da Luciano Cordeiro, eram já 19 horas, que ainda havia hipóteses da segunda volta se a taxa de abstenção fosse pequena.

Boaventura Sousa Santos disse aos jornalistas que a “Comissão Política” “contabilizou” (sic) mal a força das máquinas dos partidos que, disse, “foram impecáveis”. Quis dizer aquele destacado membro da “Comissão Política” de Lurdes Pintasilgo que o órgão a que pertencia subestimou a força dos partidos.

Hipocrisia à parte, não há dúvidas que a “Comissão Política” foi pouco política e não viu o que o homem da rua sabe de cor e salteado. O eleitorado está ancorado nos partidos e só um terramoto é capaz de o tirar de lá.

Maria de Lurdes Pintasilgo podia ter sido a presidente da República. Se estivesse a competir sozinha ou apenas contra Freitas do Amaral. Com adversários do gabarito de um Mário Soares ou Salgado Zenha, devidamente apoiados por impecáveis máquinas partidárias, tal jamais seria possível.

E aqui a candidatura tem importantes responsabilidades. Sempre ouvi dizer que a política é a arte de fazer amigos e aliados. Lurdes Pintasilgo, figura de proa do movimento eanista, partiu para a corrida de Belém sem o apoio de Eanes e do partido que consubstancia o movimento eanista, o PRD.

Era legítimo que a candidata esperasse o apoio de Eanes já com o comboio em marcha por falta de alternativa. Mas tal não sucedeu e o apoio passou para Zenha. Nestas condições, não há dúvidas de que Lurdes Pintasilgo falhou politicamente. Nem sequer conseguiu o apoio do movimento de que fazia parte. E aqui pergunta-se: Por que seguiu sozinha?

A Comissão Política da candidatura devia saber que apenas com a máquina da UDP não se ia a lado nenhum, porque a UDP nem sequer consegue eleger Mário Tomé para o Parlamento. E assim devia aconselhá-la a não avançar. Avançou. Aí está o resultado. O que se espera de todos é que deixem a hipocrisia em casa e assumam os erros cometidos.

Manuel Silva, membro da ComissãoPolítica, disse no domingo à noite na sede da Luciano Cordeiro que a culpa desta derrota também foi dos jornalistas.

Cá por mim acho tudo isto demasiado triste. Apenas porque se houve alguns profissionais que se esqueceram das suas responsabilidades profissionais e fizeram o papel do “cronistas oficiais” da candidatura (o que criou à volta de Lurdes Pintasilgo um falso clima de vitória) houve alguns que foram irrepreensivelmente sérios e isentos. E, modéstia à parte, conto-me entre esses, apesar de ser (e continuar a ser) um admirador e apoiante de Lurdes Pintasilgo.

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Olha que estória mais interessante... (NT)Visitante Cínico (e a matutar nas coisas da vida...)31/01/06 21:16:36


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