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Subject: Uma candidatura pré-fabricada pelas “sondagens de opinião”


Author:
João Paulo Guerra
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Date Posted: 31/01/06 18:49:39

João Paulo Guerra, Diário, 28/01/86
Uma candidatura pré-fabricada pelas “sondagens de opinião”

Em Novembro de 1983, já lá vão 27 meses, o nome da engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo voltou à cena política. Passados quatro anos sobre o termo do mandato do seu governo de gestão - quatro anos de quase completo apagamento do seu nome - a engenheira era citada, através dos resultados de uma “sondagem de opinião”, encomendada pelo semanário “O Jornal”, como um candidato potencialmente vencedor da eleição presidencial para a sucessão de Ramalho Eanes. A eleição vinha longe, mas havia já quem se empenhasse em baralhar, partir e dar as cartas para o jogo.

Os resultados dessa “sondagem”, publicados faz agora dois anos, relançavam o nome de Pintasilgo colocando-a na grelha de partida para a corrida a Belém. O conjunto das referências ao nome da engenheira, resultante de respostas quer sugeridas quer espontâneas, batia por larguíssima margem todos os outros nomes apurados na sondagem: 39 por cento para Pintasilgo, contra 11 para Nobre da Costa, 7 para Mário Soares, 6 para Salgado Zenha, 4 para o general Garcia dos Santos, etc.

Tratava-se - Tratava a “sondagem” encomendada por “O Jornal” - de apontar um candidato “que o PR deveria apoiar”.

A esta primeira “sondagem” outras se seguiram. Em finais de Janeiro de 84 havia já três “sondagens” sobre as eleições presidenciais que colocavam no terreno, a dois anos das eleições, quatro candidatos principais - Pintasilgo, Mário Soares, Freitas do Amaral e Mota Amaral - e que davam à engenheira a vitória na primeira volta.

Na sua edição de 27 de Janeiro de 84, o semanário “O Jornal” publicava resultados de duas outras “sondagens”. Numa, pedia-se aos entrevistados, sem lhes fornecer qualquer sugestão, que indicassem um nome para Presidente da República. Numa lista de nomes obtidos espontaneamente, Mário Soares era o primeiro. Uma segunda sondavam colocava os inquiridos face a uma lista de oito nomes. Perante as referências sugeridas aos entrevistados, concluía “O Jornal” interpretando os resultados: “Maria de Lurdes Pintasilgo poderia disputar a segunda volta das eleições presidenciais com Mário Soares depois de ser a candidata mais votada. Tanto Freitas do Amaral como Mota Amaral ficariam derrotados para aqueles dois candidatos”.

Em 24 de Fevereiro desse ano, com base em nova “sondagem”, “O Jornal” garantia que “a antiga Primeiro-Ministro, Lurdes Pintasilgo continua a deter a cota mais alta de popularidade” bem como “a menos pronunciada má imagem”. No dia seguinte, o barómetro do “Semanário” assegurava que Pintasilgo “aparece a liderar o elenco de políticos” em melhor posição para disputar a corrida presidencial. Poucos dias depois, o “Expresso” juntava-se ao coro, citando os resultados de um inquérito promovido pelo Instituto Damião de Góis, dirigido pelo major Sousa e Castro, “em que Lurdes Pintasilgo aparece claramente à frente de Freitas do Amaral, Mário Soares, Mota Amaral e sete outros eventuais candidatos”.

Um nome “sugerido”

O método de todas estas “sondagens” foi sempre o mesmo: sugerir ais inquiridos um conjunto de nomes, entre os quais o de Lurdes Pintasilgo. O nome da engenheira, como candidata a Belém, não surgiu pois por indicação espontânea dos eleitores, inquiridos em “sondagens de opinião”, nem sequer por um anúncio da intenção de se candidatar por parte da engenheira. Pelo contrário, em 23 de Janeiro de 1984, no final de uma reunião do MAD, Lurdes Pintasilgo, interpelada pela imprensa, afirmou que tal hipótese não estava no seu “horizonte real”. No entanto os jogos estavam feitos e o nome de Pintasilgo aí estava arvorado em “facto político” e lançado na corrida pelas “sondagens de opinião” encomendadas e tratadas pelos semanários.

O método não serviu apenas para colocar na liça o nome de Lurdes Pintasilgo. Simultaneamente, os semanários atribuíram-lhe também uma área política. Dos outros candidatos lançados por este método, Mário Soares era o candidato da área do PS e Freitas do Amaral do campo do CDS/AD, campo esse que as “sondagens” dos semanários insistiam também em fixar, lançando numa semana, e queimando na seguinte, sucessivos nomes ligados ao PSD - Mota Amaral, Alberto João Jardim, Mota Pinto, Pinto Balsemão e alguns militares. Restavam um candidato, Lurdes Pintasilgo, inpostos pelas “sondagens”, e uma área política, a grande área da APU e do nascente movimento “eanista”. O PS e a direita ficaram pois com os seus candidatos “naturais”, enquanto que as forças democráticas PCP/APU e os “eanistas” - ficavam com um candidato exterior, de raiz ideológica de direita, imposto, ou “sugerido”, pelas “sondagens” dos semanários.

E para que as forças democráticas considerassem o isco comestível, Pintasilgo era artificial e artificialmente lançada na corrida com a perspectiva de vencer. A vitória - com base nos menos de 20% do eleitorado da APU e no eleitorado “eanista”, à altura indefinido - entrava em aberto confronto com a lógica. Mas as “sondagens” não obedecem à lógica, procuram, pelo contrário, antecipar-se e sobrepor-se à lógica.

Nem a APU nem Eanes e os eanistas - que entretanto ganharam uma sigla e uma expressão eleitoral e parlamentar - vieram a apoiar a candidatura Pintasilgo. Mas a candidatura aí ficou, colocada pelas “sondagens” no campo democrático. Quanto às perspectivas de vitória é caso para perguntar se elas alguma vez existiram. Ou, perguntando de outro modo: será que os semanários quiseram dar de brinde às forças democráticas um candidato para a vitória? Será que foi inocente o lançamento, por via das “sondagens”, da candidatura Pintasilgo?

Maria de Lurdes Pintasilgo manteve-se numa posição confortável nas “sondagens” dos semanários até que os partidos que compõem a APU e o PRD definissem as suas posições face às candidaturas e às eleições. A perspectiva da vitória desapareceu então das “sondagens”, que não passaram por isso a ser neutras em termos de intervenção política. Já dentro da campanha eleitoral, o “Expresso” publicou uma derradeira “sondagem”. Do primeiro lugar Pintasilgo baixara para terceiro, meio ponto abaixo de Soares e seis acima de Zenha. Que a sondagem não tinha qualquer correspondência com a realidade, veio a verificar-se claramente nos resultados eleitorais. Mas, seria inocente? A utilização que a candidatura Pintasilgo lhe deu num dos seus tempos de antena responde a esta dúvida.

As “sondagens de opinião”, tal como são feitas e manipuladas, revelaram nesta campanha eleitoral que cada vez menos reflectem a opinião pública e cada vez mais se destinam a influenciá-la e a condicioná-la. O lançamento da candidatura Pintasilgo comprova que as “sondagens” se tornaram num meio de intervenção política. Os resultados eleitorais obtidos por Lurdes Pintasilgo dão razão aos que atribuem à candidatura um carácter de divisionismo, não apenas objectivo, mas premeditado, destinado pelos que encomendam e manipulam “sondagens” a favorecer uma segunda volta entre Freitas do Amaral e Mário Soares. Diz-se, por aí, que há um canal de televisão como prémio. Para quê? Ora, para publicar mais “sondagens”.

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Replies:
Subject Author Date
O Jerónimo era o +simpático. Por causa dos trafulhas das sondagens ficou em 4.º Pulhas! (NT)Ex-militante(coisa está preta pra arranjar bode expiatório)31/01/06 20:14:47
Diz-se, por aí, que há um canal de televisão como prémio. Para quê? Ora, para publicar mais...Margarida31/01/06 20:35:12
Cultura política e origens sociaisJorge Gonçalves31/01/06 20:48:22
Lurdes Pintasilgo e o último lugar - Tal como a tristeza hipocrisia não tem fimArtur Queirós31/01/06 20:53:48
Pintasilgo acusou aliança Eanes-PCP de ter dividido eleitorado que a apoiavaDN, 27/01/8631/01/06 22:09:21
Pintasilgo com 7 por cento considera “divisionista” candidatura de Salgado ZenhaDiário, 27/01/8631/01/06 22:28:52
O significado de um acórdãoO Diário, 21/01/8631/01/06 23:08:50
Tempo de antena de Ângelo Veloso é “intoxicação do povo” – considera PintasilgoO Diário, 18/01/8631/01/06 23:26:18
Pintasilgo também quer suspensão da campanha de Ângelo Veloso - Pior do que FreitasO Diário, 16/01/8631/01/06 23:46:48
Contra-atacar nos bastiões do PCP é palavra de ordem de PintasilgoFernando Diogo 1/02/06 0:38:00
As sondagens e a perversão da propagandaO Diário, 08/01/86 1/02/06 15:13:30
Que trabalheira praqui vai pra dar a volta ao texto...Trabalho prá revolução! (NT)Ex-militante(e já antigament tudo seresumia ajogo eleitoral) 1/02/06 15:23:20
Quem quer que fosse que postou estes textos de 86 aqui prestou um bom serviçoMargarida 2/02/06 13:05:46


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