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Subject: A melhor maneira de descobrir como funciona uma democracia funcional é praticá-la.


Author:
Noam Chomsky, Donaldo Macedo
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Date Posted: 1/12/05 11:29:58
In reply to: Noam Chomsky, Donaldo Macedo 's message, "Quanto maior é a necessidade de falar sobre os ideais da democracia, menos democrático é o sistema" on 1/12/05 10:47:58

PARA ALÉM DE UMA EDUCAÇÃO DOMESTICADORA:

Um Diálogo com Noam Chomsky, Donaldo Macedo
University of Massachussets, Boston, USA
(…)

Donaldo Macedo: Isso é uma forma de moralismo selectivo. Participar nesse moralismo selectivo também fornece a esses comissários a base racional para justificar a sua
cumplicidade com aquilo a que Theodor Adorno chamou “recusa teimosa de ver”. Eu vivi em duas ditaduras muito diferentes, a de António Salazar, em Portugal, e a de
Francisco Franco, na Espanha, e a censura nesses regimes totalitários era crua, inequívoca e policiada. A experiência que tenho da censura na democracia dos EUA
é de que esta é muito mais difusa e frequentemente exercida de uma forma subliminar ou através dos colegas (incluindo os estudantes) no contexto do trabalho.
Por falar em democracia, não é irónico que nos Estados Unidos – um país que se preza por ser a primeira e mais democrática sociedade do Primeiro Mundo – as escolas continuem a ser extremamente antidemocráticas? Elas continuam antidemocráticas não só nas suas estruturas administrativas (por exemplo, os directores são nomeados e não eleitos), mas também enquanto locais que reproduzem a ideologia dominante, que por seu lado desencoraja o pensamento crítico e independente. Dada a natureza antidemocrática das escolas, como pode a educação estimular o pensamento crítico em termos de criatividade, curiosidade e necessidades dos estudantes?

Noam Chomsky – Existiam alternativas ao actual sistema escolar antidemocrático que acabou de mencionar. Por exemplo, eu tive a sorte de estudar numa escola baseada em
ideais democráticos, onde a influência das idéias de John Dewey se sentiam fortemente e onde as crianças eram encorajadas a estudar e investigar enquanto processo de descoberta da verdade por elas próprias. Qualquer escola que tenha de impor o ensino da democracia já é suspeita. Quanto menos democrática é uma escola, mais necessidade tem de ensinar idéias democráticas. Se as escolas fossem realmente democráticas, no sentido de oferecerem às crianças as oportunidades de terem a experiência da democracia na prática, não sentiriam a necessidade de as doutrinar com lugares-comuns sobre a democracia. De novo, eu me sinto um felizardo por a minha experiência escolar não se ter baseado na memorização de falsidades sobre quão maravilhosa era a nossa democracia. A influência de Dewey não se estendeu a todas as escolas, apesar de ele ter sido uma figura eminente do liberalismo norte-americano e um dos principais filósofos do século XX.
Também me lembro que, quando moço, fui conselheiro num campo de férias, e presenciei com frequência o sucesso de um processo de doutrinação semelhante ao da recitação do Juramento de Fidelidade que você descreveu há pouco. Lembro-me de ver crianças emocionando-se muito, a ponto de chorarem, ao recitarem as canções patrióticas hebraicas que nem sequer compreendiam. Algumas das crianças diziam as palavras completamente erradas, mas isso não reduzia o seu estado emocional. O verdadeiro ensino democrático não gira em torno da instilação do patriotismo ou da memorização mecânica dos ideais da democracia. Nós sabemos que os estudantes não aprendem dessa maneira. A verdadeira aprendizagem ocorre quando os estudantes são convidados a descobrir por eles próprios a natureza da democracia e o seu funcionamento.
A melhor maneira de descobrir como funciona uma democracia funcional é praticá-la.
E isso as escolas não fazem muito bem. Uma boa medida do funcionamento de uma democracia nas escolas e na sociedade é o grau de aproximação entre a teoria e a realidade, e é sabido que tanto nas escolas como na sociedade existe um grande abismo entre as duas.
Em teoria, numa democracia todos os indivíduos podem participar em decisões que têm a ver com as suas vidas, determinando como são obtidos e utilizados os recursos públicos, que política externa a sociedade deveria seguir e assim por diante. Um teste simples mostrará o abismo entre a teoria, que diz que todos os indivíduos podem participar nas decisões que envolvem as suas vidas, e a prática, em que o poder concentrado pelo governo funciona como um limitador da capacidade dos indivíduos e grupos de gerirem os seus próprios assuntos ou, por exemplo, de determinarem a forma da política externa que querem adoptar.
Tomemos os presentes bombardeio em Kosovo e no Iraque. A situação em Kosovo antes do bombardeio de 24 de Março era, no mínimo, terrível. No dia 24 de Março começou o bombardeio e em poucos dias apareceram milhares de refugiados vindos de Kosovo e houve um aumento dramático de estupros, matanças em massa e tortura – uma consequência directa e previsível do bombardeio que foi executado com a declarada intenção de ser um esforço humanitário para proteger a população de etnia albanesa. Bom, não é preciso um grande esforço para perceber que uma situação que era terrível se tornou catastrófica depois do bombardeio, que uma situação horrível em Kosovo acabou ganhando proporções catastróficas depois da “intervenção humanitária” da OTAN. Seguindo a Declaração Universal de Direitos Humanos, a OTAN reclamou o direito a uma “intervenção humanitária” para por fim à limpeza étnica de albaneses. Como podemos ver, os bombardeios da OTAN conduziram directamente a um aumento radical na limpeza étnica e da carnificina em Kosovo: conduziram a um forte aumento dos assassinatos, estupros e tortura de pessoas de etnia albanesa, o que não constitui grande surpresa. De fato, o comandante da OTAN, General Wesley Clark, informou imediatamente à imprensa que este seria um efeito “inteiramente previsível” do bombardeio.
Se fôssemos aplicar a mesma linha de argumentação que justificou a “intervenção humanitária” em Kosovo, a OTAN deveria bombardear outros países, por exemplo a Colômbia, e também um dos seus membros, a Turquia. De acordo com estimativas do Departamento de Estado dos EUA, a taxa anual de assassinatos políticos praticados pelo Estado e pelo respectivo aparelho paramilitar na Colômbia está quase no mesmo nível que em Kosovo antes dos bombardeios da OTAN, e há aproximadamente um milhão de refugiados fugindo dessas atrocidades. Com o aumento da violência nos anos 1990, a Colômbia se tornou o principal destinatário de armas e treino estadunidenses no hemisfério ocidental e essa assistência está aumentando sob o pretexto de uma “guerra contra a droga”, rejeitado por todos os observadores sérios. A administração Clinton foi particularmente generosa nos elogios ao presidente da Colômbia, César Gaviria, cuja administração foi responsável por “chocantes níveis de violência”, de acordo com organizações de defesa dos direitos humanos.
No caso da Turquia, a repressão dos curdos nos anos 1990 ultrapassa largamente a escala de Kosovo antes dos bombardeios da OTAN. Esta atingiu o seu auge em meados da década de 1990: um índice é a fuga de mais de um milhão de curdos da província para a capital oficial curda, Diyarbakir, entre 1990 e 1994, à medida que o exército turco devastava o campo. Em 1994 foram estabelecidos dois recordes: foi o “ano de pior repressão nas províncias curdas” da Turquia, segundo relatos in loco de Jonathan Randal, e o ano em que a Turquia se tomou o “maior importador individual de material de guerra estadunidense e, assim, o maior comprador de armas do mundo”. Quando grupos de defesa dos direitos humanos expuseram a utilização de jactos estadunidenses pela Turquia para bombardear aldeias, a administração Clinton usou subterfúgios para contornar leis que exigiam a suspensão da entrega de armamento, tal como fazia na Indonésia e em outros locais. De novo, se seguíssemos a linha de argumentação da Declaração Universal de Direitos Humanos, citada pela OTAN como justificação para os bombardeios em Kosovo, a OTAN teria justificativas mais que suficientes para bombardear Washington.
Vejamos o caso do Laos. Durante muitos anos, milhares de pessoas, na sua maioria crianças e camponeses pobres, foram mortas nas planícies de Jarros, no norte de Laos,
aparentemente o cenário do mais violento bombardeio de alvos civis na história – e talvez o mais cruel. O violento ataque de Washington a uma sociedade de camponeses pobres não tem nada a ver com as suas guerras na região. O pior período começou em 1968, quando Washington foi obrigado a iniciar negociações (sob pressões populares e econômicas), interrompendo o bombardeio sistemático do Vietnã do Norte. Henry Kissinger e Richard Nixon decidiram então desviar os aviões para o bombardeio do Laos e do Camboja. As mortes deveram-se às “bombies”, pequenas armas anti-pessoais muito piores que minas terrestres: foram concebidas especificamente para matar pessoas sem afetaram caminhões, edifícios etc. A planície ficou cheia de centenas de milhões destes dispositivos assassinos que, de acordo com o fabricante, Honeywell, apresentam uma taxa de falha de detonação de 20 a 30 por cento. Estes números sugerem um controle de qualidade notavelmente fraco ou uma política de assassinato de civis de acção retardada. As bombies foram apenas uma fracção da tecnologia utilizada, que incluiu mísseis avançados que penetravam em cavernas onde famílias procuravam abrigo.
Actualmente, a estimativa é de centenas de baixas anuais provocadas por bombies, podendo atingir “uma taxa anual de 20.000 acidentes no país”, resultando em morte, em mais da metade dos casos, segundo o relato do veterano correspondente na Ásia, Barry Wain, da edição asiática do Wall Street Journal. Uma estimativa conservadora é, então, que a crise apenas deste ano que passou é aproximadamente comparável a Kosovo antes dos bombardeios. Contudo, as mortes estão muito mais concentradas entra as crianças – mais de metade, segundo as análises publicadas pelo Comitê Central Menonita que trabalha na zona desde 1977 para reduzir as contínuas atrocidades.
Os meios de comunicação social dos Estados Unidos aplaudiram a intervenção da OTAN em Kosovo para impedir a limpeza étnica dos albaneses, apesar de o bombardeio ter aumentado tragicamente a limpeza étnica e outras atrocidades. Mas no caso de Laos, em que somos directamente responsáveis pelas mortes, a reacção dos EUA foi não fazer nada. E os meios de comunicação social e os comentaristas mantiveram-se calados, respeitando as normas segundo as quais a guerra no Laos foi considerada uma “guerra secreta” – ou seja, bem conhecida, mas abafada, como foi o caso do Camboja a partir de março de 1969. O grau de auto-censura foi extraordinário nessa altura, tal como é actualmente. A relevância deste chocante exemplo é óbvia. Enquanto os meios de comunicação social dos EUA exultaram quando o Tribunal Internacional indiciou Slobodan Milosevic por crimes contra a humanidade, Kissinger, um dos arquitetos da carnificina no Laos, continua livre e é celebrado como “perito” cujo “ponto de vista” sobre os bombardeamentos em Kosovo era ansiosamente buscado pelos meios de comunicação social.
No caso do Iraque abundam as atrocidades, com civis iraquianos sendo chacinados por uma forma particularmente maliciosa de guerra biológica. Em 1996, quando questionada sobre a morte de meio milhão de crianças iraquianas em cinco anos, a secretária de estado Madeleine Albright comentou na Televisão Pública dos Estados Unidos que “nós achamos que o preço vale a pena”. De acordo com estimativas atcuais, ainda são mortas cerca de 4.000 crianças por mês e o preço “ainda vale a pena”.
Uma análise mais cuidadosa da Guerra do Golfo revela os mesmos princípios condutores da “intervenção humanitária” ou da intervenção para salvaguardar “democracias” dos EUA em todo o mundo. Os meios de comunicação social e as classes instruídas repetem obedientemente as palavras do presidente George Bush de que “a posição da América é a mesma que sempre foi – contra a agressão, contra aqueles que utilizam a força para se sobreporem à lei”, apesar de alguns meses antes ele ter violado os princípios da América “contra a agressão, contra aqueles que utilizariam a força para se sobreporem à lei” ao invadir o Panamá. O presidente Bush foi o único chefe de estado a ser condenado pelo Tribunal Mundial pelo “uso indevido de força” – na guerra dos EUA contra a Nicarágua. A reivindicação de Bush de “alto princípio” foi uma anedota, já que os Estados Unidos não defenderam nenhum alto princípio no Golfo, o mesmo valendo para qualquer estado envolvido. A resposta sem precedentes a Saddam Hussein não se deveu à sua agressão brutal – foi porque ele pisou os calos errados, tal como Manuel Noriega fizera alguns anos antes. Ambos eram rufias que já tinham sido amigos do presidente Bush. Saddam Hussein é um assassino sem escrúpulos – como era antes da Guerra do Golfo, quando era nosso amigo e um dos parceiros comerciais preferidos. A sua invasão do Kuwait foi certamente uma atrocidade, mas não chegou aos pés das atrocidades cometidas com o apoio dos EUA e chegou ao mesmo nível de muitos crimes semelhantes levados a cabo pelos Estados Unidos e os seus aliados.
Por exemplo, a invasão e anexação de Timor-Leste pela Indonésia quase atingiu proporções de genocídio: um quarto da população (700.000) foi morta, um massacre que excedeu o de Pol Plot, comparativamente à população, no mesmo número de anos. Tanto os Estados Unidos como os seus aliados apoiaram estas atrocidades. O ministro dos negócios estrangeiros australiano justificou o seu consentimento à invasão e anexação de Timor-Leste dizendo simplesmente que “o mundo é um lugar bastante injusto, cheio de exemplos de aquisição pela força”. Contudo, quando o Iraque invadiu o Kuwait, o seu governo denunciou a invasão com uma declaração alto e em bom tom de que os “países grandes não podem invadir vizinhos pequenos e ficar incólumes”. As verdadeiras preocupações da política dos EUA no Golfo eram de que as incomparáveis reservas energéticas do Médio Oriente se mantivessem sob o nosso controle e que os enormes lucros por elas produzidos ajudassem a suportar as economias dos Estados Unidos e do seu cliente britânico.
(…)

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Replies:
Subject Author Date
O mito de que vivemos numa sociedade sem classes é uma farsa, em que a maioria das pessoas acreditaNoam Chomsky, Donaldo Macedo 1/12/05 11:56:03
    As outras pessoas têm que ser convencidas de que vivem numa sociedade sem classesMargarida 1/12/05 16:58:51


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