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| Subject: O mito de que vivemos numa sociedade sem classes é uma farsa, em que a maioria das pessoas acredita | |
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Author: Noam Chomsky, Donaldo Macedo |
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Date Posted: 1/12/05 11:56:03 In reply to: Noam Chomsky, Donaldo Macedo 's message, "Quanto maior é a necessidade de falar sobre os ideais da democracia, menos democrático é o sistema" on 1/12/05 10:47:58 PARA ALÉM DE UMA EDUCAÇÃO DOMESTICADORA: Um Diálogo com Noam Chomsky, Donaldo Macedo University of Massachussets, Boston, USA (…) Donaldo Macedo: É realmente uma constatação triste, a de que apesar de os fatos que agora relatou serem tão óbvios, a classe instruída dos EUA, à excepção de uma pequena minoria, ter sido incapaz de estabelecer as ligações históricas necessárias para desenvolver uma compreensão rigorosa do mundo. O vice-presidente Dan Quayle teve uma leitura correcta da Guerra do Golfo, ainda que não intencionalmente, ao descrevê-la como “uma vitória avassaladora para as forças agressoras”. O presidente Bush foi apanhado num lapso freudiano semelhante durante uma entrevista conduzida pela âncora do canal de televisão de Boston, Channel 5, Natalie Jacobson. Ao referir-se à Guerra do Golfo, Bush disse “Cumprimos a nossa agressão” em vez do certamente pretendido “Cumprimos a nossa missão”. As palavras aparentemente trocadas de Bush e de Quayle põe a nu a pedagogia das grandes mentiras. As suas declarações capturam com precisão a essência da hipótese colocada por José Ortega y Gasset, de que se aquilo a que chamamos a nossa civilização fosse “deixada em paz” e deixada à mercê de comissários como Henry Kissinger daria origem ao renascimento do primitivismo e do barbarismo. Os seus exemplos do barbarismo no Kosovo, Turquia, Colômbia e Laos apontam para o barbarismo da civilização. Em muitos casos, o alto nível de sofisticação técnica atingido pela nossa assim chamada civilização tem sido utilizado das formas mais bárbaras, como foi provado pela utilização das câmaras de gás nos judeus e os bombardeamentos do Laos e do Camboja. Com certeza não é uma civilização iluminada aquela que se orgulha de reduzir o Iraque a um nível pré-industrial – matar dezenas de milhares de vítimas inocentes, incluindo mulheres e crianças, e mantendo Saddam Hussein, o nosso senhor da guerra, no poder. Noam Chomsky – É habitualmente esperado que a acção militar dos EUA deixe o tirano assassino do Iraque no poder, prosseguindo com o seu programa de armamento e minando qualquer inspecção internacional que exista. Também se devia chamar a atenção para o fato de os piores crimes de Saddam terem sido cometidos enquanto ele era um aliado e um parceiro comercial favorecido dos EUA e que, imediatamente depois de ele ter sido expulso do Kuwait, os EUA observaram silenciosos enquanto ele se foi o responsável pela chacina dos iraquianos rebeldes – primeiro os xiitas e depois os curdos – recusando mesmo o acesso destes a armas capturadas dos iraquianos. As histórias oficiais raramente transmitem uma imagem exacta do que está a acontecer. As histórias oficiais também não criarão as estruturas para desvendar a verdade. Uma educação que busca um mundo democrático deveria fornecer aos estudantes as ferramentas críticas para fazer as ligações que desvendariam as mentiras e enganos. Em vez de doutrinar os estudantes com mitos democráticos, as escolas deveriam envolvê-los na prática da democracia. Donaldo Macedo: É pouco provável que as escolas deixem de doutrinar os estudantes com mitos, já que é através do poder da propagação dos mitos que a ideologia dominante tenta abafar a manifestação de uma democracia verdadeiramente cultural e manter a presente hegemonia cultural e económica. Eu concordo com você, quando você diz que as escolas deveriam envolver os estudantes na prática da democracia. Contudo, como você já apontou diversas vezes, para o conseguir as escolas têm de fornecer aos estudantes as ferramentas críticas para desvendar o conteúdo ideológico dos mitos, para conseguirem começar a compreender melhor porque é que, por exemplo, o professor de David Spritzler e o director da escola, que tinham investido fortemente no sistema doutrinal dominante, se deram ao trabalho de sacrificar os princípios do próprio Juramento de Fidelidade para impedirem Spritzler de viver na verdade, uma vez que indivíduos que querem viver na verdade representam uma ameaça real ao sistema doutrinal dominante e devem ser eliminados ou, pelo menos, neutralizados. Por isso, não devemos ficar surpresos com o fato de o professor e o director tentarem impedir David Spritzler de apontar a hipocrisia e a diferença de classes na nossa sociedade supostamente sem classes. Noam Chomsky – O mito de que vivemos numa sociedade sem classes é uma farsa, mas uma em que a maioria das pessoas acredita. A minha filha, que é professora numa universidade pública, conta-me que a maioria dos estudantes dela se consideram de classe média e não mostram qualquer sinal de consciência de classe. Donaldo Macedo – O próprio discurso acadêmico aponta para a ausência de consciência de classe. Apesar de nos meios de comunicação social se encontrar o termo classe trabalhadora e também classe média (como “uma redução dos impostos para a classe média”), nunca se vê mencionada uma classe dominante ou classe alta. Noam Chomsky – Uma classe dominante de certeza não encontrará. É simplesmente suprimida. E os estudantes da classe trabalhadora como os da turma da minha filha não se consideram da classe trabalhadora. Isso é outro sinal de uma verdadeira doutrinação. Donaldo Macedo – A elite dominante, ajudada pela intelligentsia, fez grandes esforços para criar mecanismos que perpetuam o mito de que os Estados Unidos são uma sociedade sem classes. Com todo o debate acerca da falha da educação neste país, uma das variáveis que nunca é mencionada é a classe, apesar de a classe ser um factor determinante para o sucesso escolar. A maioria dos estudantes que não passam de ano provêm geralmente das classes mais baixas, e contudo os educadores evitam religiosamente utilizar a classe como um factor nas análises e afirmações. Em vez disso, criam todo o género de eufemismos como “economicamente marginais”, “estudantes desfavorecidos”, estudantes “em risco” etc., como um processo de evitar nomear a realidade da opressão de classes. E se se utilizar a classe como um factor de análise, é-se imediatamente acusado de guerra de classes. Lembra-se da campanha presidencial de 1988, quando George Bush admoestou o seu oponente dizendo, “Não vou deixar que esse governador liberal divida esta nação... Eu acho que isso é para as democracias europeias ou algo do género. Não para os Estados Unidos da América. Não seremos divididos por classes... somos o país dos grandes sonhos, das grandes oportunidades, do jogo limpo, e esta tentativa de dividir a América em classes falhará porque o povo americano irá perceber que este é um país muito especial, porque qualquer pessoa a quem seja dada uma oportunidade pode vencer e realizar o sonho americano”. Noam Chomsky – Sim, é um país muito especial se se for rico. Para tomarmos um exemplo muito simples, repare como o sistema tributário se torna cada vez menos progressivo ao enriquecer os ricos através de um grande corte fiscal e enormes subsídios que ao longo da história têm sido dados às corporações. Bush está certo ao falar de uma guerra de classes. Porém, é uma guerra de classes concebida para esmagar ainda mais os pobres. Todos os indicadores apontam que a pobreza tem se mantido alta entre as crianças, e a desnutrição está piorando com os programas levados a cabo para promover os “valores familiares”. O assalto ao estado do bem-estar social serve para esmagar ainda mais os pobres, as mães que recebem pensões e outras pessoas que precisam de ajuda, enquanto mantém intacta a poderosa ama, subsidiando corporações com transferências maciças de dinheiro. Nós temos um sistema de seguro social, mas é um seguro social para os ricos. Para se manter um sistema de seguro social em bom estado de funcionamento para os ricos, é preciso ter uma classe empresarial altamente consciente. As outras pessoas têm que ser convencidas de que vivem numa sociedade sem classes. As escolas sempre estiveram a serviço da manutenção deste mito. Notas 1 Tradução livre da citação: Paulo Freire. The Politics of Education. Culture, Power, and Liberation (South Hadley, Mass.: Bergin & Garvey, 1985), 103. [NT: Este livro corresponde aos textos publicados em Ação cultural para a liberdade e outros escritos, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976] 2 Ibid. Para além de uma educação domesticadora (NT1) Juramento à bandeira dos EUA: “Eu prometo lealdade à bandeira dos Estados Unidos da América e à República a qual representa, uma nação, sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos”. In: http://www.usflag.org/pledge.portuguese.html. (NT2) A Comissão Trilateral é uma organização internacional privada que congrega cerca de 325 personalidades líderes em diversas áreas de actividade – empresarial, política (excepto quando em funções governamentais), académica e imprensa – provenientes das três maiores regiões industrializadas e democráticas do mundo: América do Norte, Japão e Europa. In: http: /www.fpglobal.pt/pt/tril.html. NT3 Grande empresa estadunidense, líder no mercado das telecomunicações. Correspondência Noam Chomsky, Massachussets Institute of Techonology, Boston, USA. Donaldo Macedo, University of Massachussets, Boston, USA. Entrevista realizada em junho de 1999 e publicada em Currículo sem Fronteiras com autorização do entrevistador e do entrevistado. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| As outras pessoas têm que ser convencidas de que vivem numa sociedade sem classes | Margarida | 1/12/05 16:58:51 |