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Subject: Homem rico, homens pobres


Author:
Clara Ferreira Alves
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Date Posted: 6/11/05 16:08:00

Era uma vez um homem que tinha a certeza de que ia ser eleito presidente. Era uma posição de conforto que o autorizava a ser magnânimo, silencioso, délfico, esfíngico (e poderoso). Bastava-lhe, dizia ele para si mesmo, aguentar o barco para navegar as águas serenas da vitória e evitar as borrascas lendo o boletim meteorológico. A posição do vencedor à partida é a posição do milionário, do rico, e esta é uma posição inexpugnável e uma suprema vantagem sobre a posição dos pobres. Nenhuma das angústias existenciais reduzidas, como vou comer, como vou pagar a renda, a prestação, a mensalidade, a vida, atormenta o rico. O rico tem outras ordens de preocupações das quais a essencial e essencialmente interessante é nunca ser pobre e nunca deixar de ser rico. Posição compreensível e lógica, diga-se de passagem, porque a posição do rico é mais confortável que a do pobre e a posição do vencedor mais confortável do que a do vencido (por mais que a moral da história diga o contrário e a parábola ensine que o reino dos céus é dos pobres e que os ricos não entrariam lá nem que fossem iguais a um camelo que conseguisse passar numa agulha). A história é amoral, e quem escreve a história são os vencedores. O vencedor desta história sabe isto muito bem, visto que ele mesmo já esteve na posição do pobre quando correu contra um rico da altura que é hoje presidente (e continua rico mas em breve volta a ser pobre e, mais do que pobre, destituído) e perdeu. E não deixa de ser uma conclusão interessante sobre as repetições da história que o homem que um dia perdeu contra o outro rico seja agora considerado o vencedor da pátria (se o homem não mudou, a pátria deve ter mudado bastante). A política (dizem os teóricos de café) é uma longa habituação às mutações dos organismos vivos, é um exercício que ensina a humildade e a paciência, a espera da mudança dos ventos. Mudança, essa coisa de que o mundo é composto, é o que as pessoas querem e gostam em democracia. Para inverterem a sua condição de pobreza nesta história, os quatro candidatos pobres teriam de jogar no totoloto, jogo que a política admite e que já teve dois vencedores inesperados (um que continuou rico e emigrou para a Europa onde prosperou e outro, seu amigo, que se arruinou e ficou mais pobre do que antes, andando agora por aí) ou teriam que aceitar a sua pobreza e convertê-la em riqueza. Nos tempos que correm, isto é muito difícil sem recurso à Bíblia, à batota, à sorte e à generosidade alheia. Assim, os quatro candidatos pobres o mais que podem fazer é invocar os deuses da esquerda e rezar para que eles não estejam mortos embora se diga por aí e com certa razão que Deus está morto, Marx está morto e nós próprios não nos sentimos lá muito bem. Quanto à sorte é um acaso inexistente e a generosidade alheia quer qualquer coisa em troca (e só aceita vencedores à partida, desde que inventaram a estranha ciência das sondagens). A batota não é possível, por causa dos computadores (e porque isto não é o Iraque livre e democrático). Ora bem, o que têm estes quatro pobres, que não percebem nada de finanças, para dar? Política e ideologia (que têm péssima reputação). Ora, nos tempos que correm cada vez é mais difícil distinguir entre esquerda e direita. Dantes, os ricos eram de direita e os pobres eram de esquerda mas o uso indiscriminado de electrodomésticos, o crédito à habitação, a televisão, o Estado-Providência e a Caixa de Previdência (ou o Estado-Previdência) fizeram de muitos pobres uns ricaços por comparação e estes pobres identificam-se com os ricos e com os vencedores e não com os outros pobres e vencidos. A coisa está, portanto, preta. Mais preta se torna quando se constata que os pobres não têm animosidade política ou ideológica contra o rico (note-se que a palavra aqui é usada em sentido metafórico, simbólico, o que quiserem) e até nutrem respeito por ele porque sabem que já foi, em tempos, um pobre como eles são agora. Por sua vez, o candidato rico, justamente porque é rico, pode dar-se ao luxo de respeitar e nunca precisar de atacar os candidatos pobres, porque isso seria o mesmo que um brutamontes bater num tipo fraco de braços, seria o mesmo que um campeão de pesados bater num peso-pluma com tuberculose (estas imagens neo-realistas dão muito jeito, embora não sejam do melhor gosto mas esse foi um dos problemas estéticos do neo-realismo, e já agora, quem dos eleitores ainda presentes se lembra do neo-realismo?). Donde, dizia-se acima, a coisa está preta, e o rico mais rico de dia para dia. Tanto mais que se diz por aí que o outro rico da história, suposto paladino de um dos concorrentes pobres, é ele mesmo um aliado natural do nosso rico, e que esta foi uma excelente ocasião para se ver livre de uns pobres que o andavam a maçar e a mendigar para os lados do palacete do Largo do Rato, dando mau aspecto aos portões e às reuniões. Um desses pobres, aliás, já vai sendo altura de o enterrar de vez no panteão da história, mais o seu antigo amigo que não deu pelo tempo que passa e continua a achar que fascismo nunca mais e outros anacronismos (os medricas contemporâneos, cujo contributo para a história foi pegarem no controle remoto da televisão e zaparem, gostam muito de gozá-los por causa disto). Matam-se estes dois coelhos de uma cajadada, e comem-se à caçadora, que a época de caça vai alta. Os pobres que restam são decorativos. A janela de oportunidade (como se diz agora) dos quatro pobrezinhos é serem muitos enquanto o candidato rico é só um. Foi assim que a revolução bolchevique cresceu e se multiplicou, para não falar na ideologia subjacente (e já agora, quem dos que andam por aí, sabe o que quer dizer a palavra bolchevique?), pela força numérica. Assim, se os quatro pobrezinhos juntarem os seus votos todos pode ser que consigam destronar o rico, embora o rico, que sabe fazer contas, não esteja nada preocupado com esta aritmética. Por fim, para não passarem de pobres a miseráveis, só resta aos pobres deixarem de fazer aquilo que têm feito até aqui, que é verem-se a si mesmos como pobres e convencerem o rico de que a sua fortuna pode desaparecer de um dia para o outro. Na verdade, como todos os ricos, a única coisa que o rico não suporta é voltar a ser pobre.

*A autora da história faz parte da Comissão de Honra da Candidatura de Mário Soares

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