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Date Posted: 13:00:27 07/29/03 Tue
Author: Sônia Pessoa
Subject: Re: Semana 13
In reply to: Vera Menezes 's message, "Semana 13" on 17:56:35 07/28/03 Mon


Analiso, a partir do raciocínio de Lakoff sobre metáforas e guerra, trechos do discurso do presidente George W. Bush, em 17.03.2003, quando declarou oficialmente guerra ao Iraque. Optei por dividir em tópicos, pois o exemplo ficou um pouco longo. Espero contribuir e não cansá-los...
1) International Politics is Business (Aqui o estado é um ator racional). O presidente americano reivindica a tentativa de negociação, vista como uma proposta de mão única, durante alguns anos para justificar a invasão ao Iraque. "... o mundo se engajou em 12 anos de diplomacia. Nós aprovamos mais de uma dúzia de resoluções no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nós enviamos centenas de inspetores de armas para o exterior para o desarmamento do Iraque. Nossa boa fé não teve retorno". O Iraque é apresentado como um país desleal nas negociações "O regime iraquiano usou a diplomacia como um truque para ganhar tempo e vantagem. Desafiou de forma uniforme as resoluções do Conselho de Segurança exigindo total desarmamento". Bush não hesita em pedir aos iraquianos que preservem as fontes de riqueza do país, em uma demonstração clara de que Guerra é Política e Política é Negócio: "Em qualquer conflito, seu destino dependerá de suas ações. Não destruam poços petrolíferos, uma fonte de riqueza que pertence ao povo iraquiano".

Assim como Lakoff, buscamos, mais uma vez, fundamentação na filosofia do general prussiano Karl von Clausewitz citada acima. O militar considerava a guerra como uma questão de análise do custo-benefício em que cada nação deveria recorrer ao conflito para atender aos seus objetivos. O lucro político deveria ser superior aos custos com a guerra e, em situação contrária, a guerra deveria ser encerrada. Como exemplo, vemos a declaração de Bush "Os americanos entendem o custo do conflito porque nós já o pagamos no passado. A guerra não tem certezas, exceto a certeza do sacrifício".

2) War as violent crime (guerra compreendida em termos de sua dimensão moral). O compromisso moral do presidente com o país, assumido por meio de juramento, prevê a garantia da segurança das famílias americanas: "Antes que esse dia de horror chegue, antes que seja tarde demais para agir, este perigo deve ser removido. Os Estados Unidos da América têm a autoridade soberana para usar a força e assegurar sua própria segurança nacional. Tal dever cabe a mim, como comandante-em-chefe pelo juramento que fiz e me comprometi a cumprir".
Se a guerra é um crime violento, para declará-la, faz-se necessária a existência de um inimigo perigoso, que justifique moralmente tal iniciativa. O inimigo conta com aliados tão perigosos quanto ele. "O perigo é claro: usando armas químicas, biológicas e, um dia nucleares obtidas com a ajuda do Iraque, os terroristas poderiam satisfazer sua ambições declaradas e matar milhares e centenas de milhares de pessoas inocentes em nosso país ou qualquer outro".

3) War as a competitive game (guerra compreendida como xadrez, boxe ou futebol; o militar é treinado para ganhar). Cada movimento em um jogo como o xadrez é cuidadosamente calculado, assim como na guerra. A primeira jogada prevê a eliminação dos atos reprováveis: "No Iraque livre não haverá mais guerras de agressão contra seus vizinhos, nem fábricas de veneno, nem execuções de dissidentes, nem câmaras de tortura e salas de estupro. O tirano em breve terá ido. O dia em que vocês serão libertados está próximo".
Em um segundo momento, é preciso estar atento à possibilidade de uma jogada de mestre do adversário: "Em desespero, ele e grupos terroristas podem tentar conduzir operações terroristas contra o povo americano e nossos amigos. Esses ataques não são inevitáveis. Eles são, contudo, possíveis".
E, por fim, é hora de manifestar a estratégia adotada para o jogo: "Terroristas e Estados terroristas não revelam essas ameaças com declarações antecipadas e formais. E responder a tais inimigos apenas após eles atacarem não é autodefesa. É suicídio. A segurança do mundo requer que Saddam Hussein seja desarmado já".

O que estaria, então, escondido sob a metáfora O estado é uma pessoa? Os Estados Unidos são concebidos como herói tal qual a concepção dos contos de fada: a pessoa que resgata uma vítima inocente ("se precisamos iniciar uma campanha militar, ela será dirigida contra os homens fora-da-lei que governam seu país, e não contra vocês. Quando nossa coalizão tomar o poder deles, vamos entregar os alimentos e remédios de que vocês precisam. Vamos pôr abaixo o aparato do terror e ajudar vocês a construir um novo Iraque, que seja próspero e livre"), e que derrota e pune um vilão malvado e culpado – alguém que age mais pela moral do que pelas razões venais ("Todas as décadas de engano e crueldade chegaram agora ao fim. Saddam Hussein e seus filhos devem deixar o Iraque dentro de 48 horas") ou ainda ("Neste século, quando homens maus conspiram com o terror biológico, químico e nuclear, a política da conciliação poderia provocar uma destruição jamais vista na Terra").
Abraço, Sônia

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