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Date Posted: 17:40:55 06/24/03 Tue
Author: Maria Raquel Bambirra
Subject: Re: Tarefa 8 - Complexidade das coerências complexas
In reply to: Maria Célia 's message, "Tarefa 8 - Complexidade das coerências complexas" on 06:47:59 06/24/03 Tue

Ei, gente!

Espero que o feriado de vocês tenha sido bem bom! Li as mensagens da Célia e da Marlene e tenho que confessar que acho o processo de estruturação metafórica bastante complexo. Não acho fácil explicar a construção de uma metáfora normalzinha. Pior ainda se ela for complexa, formada por justaposições de partes significativas de conceitos diferentes, ou como bem citou a Célia, derivada de bases conceituais de orientações diferentes, na formação de um todo frasal significativo... Acho sim difícil explicar, mas acho muito fácil perceber na nossa produção lingüística, o tempo todo! Inclusive já até descobri que essa estratégia individual de seleção das construções metafóricas, seja a nível de palavra e ou expressões, seja a nível gramatical ou em função da sintaxe, quando da elaboração de orações, períodos, essa estratégia faz com que eu goste mais de conversar com algumas pessoas que outras, e que eu goste mais de ler alguns escritores que outros... Interessante como as pessoas escolhem as palavras pra falar com a gente, não acham não?

Bom, com relação à linguagem dicionarizada. Pra mim os vocábulos em estado de dicionário não são vivos. Não têm significado nenhum. Têm apenas denominações. São nominados. Prestam-se a formar um arcabouço sócio-histórico-cultural a ser compartilhado pela coletividade, no sentido de servir como ferramentas usadas por todos para dar vida à língua que vai significar o mundo e nós mesmos, através das interações que estabelecemos no nosso dia-a-dia. A palavra só existe contextualizada. E a prova disso é a de que nós não nos comunicamos usando a palavra dicionarizada...

Lakoff e Johnson são dois gênios e "mataram uma grande charada", tiraram um dos importantes véus que cobrem o fato ainda misterioso da palavra ser tantas em uma só. Ou ser tanto sentimento, tanta vivência, tanta gente, em uma só!

Vou colocar um poema de Ferreira Gullar, lindo. Mas vou colocar porque adoro a forma delicada e respeitosa como ele trabalha a significação. Quem sabe alguém se anima a comentá-lo comigo?

NA LAGOA

A cidade
debruçada sobre
seus afazeres surda
de rock
não sabe ainda
que a garça
voltou.

Faz pouco, longe
daqui entre aves
lacustres a notícia
correu: a lagoa
rodrigo de freitas
está assim de tainhas!
-- oba, vamos lá
dar o ar
de nossa graça,
disse a garça

e veio:

desceu
do céu azul
sobre uma pedra
do aterro
a branca filha das lagoas

e está lá agora
real e implausível
como o poema
que o gullar não consegue escrever

( Fonte: GULLAR, F. Muitas Vozes: poemas. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p.9.)

Meu comentário de leve:

O título do poema, contrastando com as primeiras palavras do poema, já começa provocando-nos, por impor um deslocamento no pensamento da gente. Na lagoa. Ele está falando de algo que acontece na lagoa ou na cidade? Ou na lagoa que fica na cidade? Teria uma lagoa na cidade? Ao final do poema, vamos perceber que o título funciona como uma âncora para o desenrolar dos fatos. É o concreto. É o que se vê. É quase a palavra dicionarizada, que vocês mencionaram. Digo quase porque lagoa vem precedida da preposição na. E esta preposição pontua, define. Não é uma lagoa qualquer. É a lagoa Rodrigo de Freitas, que o poeta enxerga. Daí, se fora de um contexto explícito (que só é dado ao final do poema), "na lagoa" deixa de ser linguagem dicionarizada para ser linguagem referencial. Daí a ancoragem, a fixação de um ponto.

De cara, a palavra cidade aparece como uma metáfora de personificação. Está para os cariocas. Acho sutil e bonito ele descrever o caos de um dia útil na cidade do Rio e denunciar o que isso causa nos cariocas -- alienação da realidade. Mais ainda, é interessante percebermos a denúncia que ele deixa no ar com relação aos valores que nossa sociedade elege atualmente (dinheiro = tempo e trabalho; rock = som eletrônico "pesado", longe dos sons da natureza). O fato importante e não notado, fato que denuncia a alienação do carioca, é a volta de uma garça à lagoa R. Freitas... As expressões "debruçada sobre seus afazeres" e "surda de rock" dão-nos a sensação exata de milhões de pessoas atarantadas, ocupadas em suas rotinas corridas de trabalho e sobrevivência no Rio de hoje, mergulhada na poluição sonora, sem tempo para nada, incapaz de perceber o mundo a sua volta.

Na estrofe seguinte temos "a notícia correu". Aqui é uma metáfora ontológica! Interessante que sugere fofoca, jeito de se espalhar uma notícia numa cidade do interior, por exemplo, numa coletividade menor, onde o interesse de um tem chance de ser o interesse de todos ou da maioria, onde as pessoas têm mais "tempo" e disposição para ouvir umas às outras (longe daqui...).

"a lagoa rodrigo de freitas está assim de tainhas!" Está assim é ótimo! Isso é um exemplo de abstração, que só encontra coerência dentro do contexto da conversa das aves lacustres, excitadas em dividir a boa nova do alimento farto.

Então há a personificação da garça que "fala" que vai "dar o ar de sua graça". Convida as "amigas" a fazerem o mesmo, melhor dizendo. Além da rima de graça com garça, elemento que também dá coesão ao texto, amarra-o, a expressão dar o ar da graça é uma construção metafórica compartilhada culturalmente pelos brasileiros. Tem uma conotação sofisticada, uma vez que não é qualquer um que "dá o ar da graça", ou pelo menos não era, quando a expressão foi criada. Dar o ar da graça é coisa pra gente chic, importante, que vai fazer o favor de comparecer a algum evento, dando como presente aos demais o ventinho que fica depois que você passa. O ar da sua passagem pelo evento. E a palavra graça é metáfora simples de pessoa.

"Desceu do céu azul sobre uma pedra do aterro". Aqui tenho minhas dúvidas, mas arrisco feliz em dizer que ele usa da orientação espacial "up-down" e tudo que isso significa (quero dizer para cima é bom, bonito, azul, limpo, silencioso, ecológico, não poluído, feliz, leve e suave como o vôo de uma ave, branca, filha, etc.) para contar da viagem da garça. Ela desce e desce sobre. A metáfora filha branca das lagoas é uma imagem muito bonita para a garça.

"e está lá agora/real e implausível" Coitada da garça, ganhou o adjetivo de implausível, ou seja, algo como não merece reconhecimento, aplauso, não fez por onde estar ali, ou até num sentido oposto, deveria saber que seu lugar não é ali. Isso é uma abstração no meu ponto de vista. Não há coerência no fato de uma garça ser plausível ou implausível. Tal adjetivação é usada para seres inanimados. Este deslocamento só vai fazer sentido e adquirir coerência quando ele compara a garça (e nela a idéia do fato de a garça estar ali), com "o poema que o gullar não consegue escrever", já que esse sim, pode ser implausível. Em outras palavras, o poema empresta seu caráter inanimado para a garça para que ela possa ser implausível e devolver a ele, poema, uma solidariedade, uma cumplicidade factual. É genial esta construção! E prova o quanto este poema de Gullar, assim como quase a totalidade de sua obra, é extremamente plausível.

Bom, colegas, já falei demais por hoje. Deixo vocês com suas reflexões. E volto logo pra trazer algum exemplo de homonímia para discutirmos também, que isso faltou no meu poema-exemplo. Até!

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