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Observador lúcido
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Date Posted: 19/01/05 23:44:18
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Re: União Europeia-uma fatalidade?" on 19/01/05 13:15:15
Sao tantas as questoes que este post ameaça tornar-se quilometrico. Tentarei responder só a algumas, aquelas que parecem mais importantes. Fa-lo-ei com vermelho para distinguir do resto
>Dizia eu
>mas parece-me que é errado
>atribuir as causas determinantes desses "desastres" à
>nossa adesão à União Europeia.
>Sustento que a adesao à UE foi a principal causa
>determinante dos desastres referidos, alem de
>acelera-los.
>Tem todo o direito. Eu apenas gostava de sublinhar,
>(acredite que não é pedantismo, apenas
>a mania do rigor de linguagem...), a expressão
>causa determinante.
>
>Sim, foi devido à adesao. A destruiçao da reforma
>agraria, que poderia e deveria evoluir para a
>agro-industria, levou a isto.
>Sem sarcasmo, julgava que a destruição da reforma
>agrária tinha começado antes da adesão à CEE.
Aqui está um exemplo claro de raciocínio formalista. Toma a data em que se consumou a adesão e não aquela em que foi tomada a decisão de aderir e, a partir da qual, tudo o mais ficou condicionado. Afirmo que a partir de Fevereiro de 1977 toda a política económica portuguesa ficou condicionada ao objectivo de aderir à UE (CEE, como então se dizia). Não faltam exemplos de malfeitorias que principiaram muito antes de o M. Soares, corroborado por toda a classe dominante portuguesa, ter anunciado tal designio.
Mas em
>todo o caso gostaria que me esclarecesse de que
>maneira é que a UE impôs o fim da reforma agrária.
Não o sabia tão ingenuo. Parece pensar que a política faz-se só com documentos públicos e oficiais. Bruxelas pressionou, e muito, pela extinção das UCPs. Há muitos exemplos disso. Converse por exemplo com técnicos do Ministério da Agricultura que participaram em reuniões nessa época. E não foi só através dessa pressão, digamos, política. Foi também através dos financiamentos que eram dados a uns (CAP, latifundiários) e não a outros. A extinção prévia das UCPs foi apresentada como condição para a concretização da adesão.
>Não acompanhei a "coisa" desde o princípio - não vivia
>em Portugal - mas, se bem me lembro a contra-reforma
>começou em fins dos anos Setenta e acabou (mais ou
>menos...) em 1988. Como Portugal aderiu à UE em 1986,
>não estou a ver.
>
>As condiçoes agro-fisicas de Portugal nao sao
>piores que as da Espanha, da Grecia ou da California.
>Pode-se dizer até que são melhores, pois dispoe de
>mais agua (a California por exemplo tem de traze-la de
>fora).
>Estamos em desacordo... E passo a explicar:
>No caso da Espanha, eles têm 26% de terra arável
>contra os nossos 22%. As montanhas em Espanha são
>melhores reservatórios de água do que as nossas... Até
>por estarem mais para o interior ou serem mais altas
>ou estarem directamente na "correnteza" dos ventos
>marítmos (Costa Norte). Resultado, em Espanha têm mais
>de 36.000 kms quadrados de terras irrigadas e nós em
>Portugal para aí uns 6.000. Para uma população que não
>chega a ser 4 vezes mais.
Recordar aqui a não execução do Plano de Rega do Alentejo, até hoje estagnado. Esses numeros teem a ver com isso também.
>A comparação com a Grécia é semelhante mas mesmo
>assim, no caso de terras irrigadas a Grécia tem mais
>de 14.000 kms quadrados. Ou seja, mais do dobro. É a
>vantagem de terem serras onde neva muito...
>No caso da Califórnia, tem toda a razão... Eles até
>têm que importar água. É uma das vantagens de estarem
>numa Federação. A gente tem que estar sempre a
>pedinchar aos Espanhóis para deixarem vir para cá mais
>um bocadinho da água que chove lá em Espanha.
>E a Califórnia tem outra "vantagem" (salvo seja...)
>também podem importar do México, ali ao lado,
>mão-de-obra muito mais barata. Para fazer aqueles
>trabalhos que muito boa gente acha que são duros
>demais, ou que ainda não se podem inteiramente
>mecanizar.
>E isso leva-me de volta à falta de formação ciêntífica
>e tecnológica e de gestão da parte dos nossos
>"camponeses".
De acordo, como matéria de facto. Em desacordo com a ideia de que isso só por si resolve o problema. A questão da estrutura fundiária, da propriedade da terra, do tamanho optimo das unidades de exploração, da política de preços, da PAC, da subsidiação, da faixa etária que se dedica à agricultura, etc, etc podem ser consideradas como até mais decisivas. Recorde-se o fracasso enorme daquele projecto cavaquista em Odemira, que levou até à destruição da terra por envenenamento (excesso de herbicidas e pesticidas). Era um projecto muito "tecnológico" e muito "científico"...
>
>No Luxemburgo onde está o ferro e o carvao
>deles?
>De facto hoje já não... Já passaram à fase da economia
>de serviços. Até porque entretanto esgotaram os filões
>das minas de ferro. Mas, convem lembrar que estavam -
>estão - a "meia-dúzia" de quilómetros do vale do Rhur.
>E na encruzilhada dos países que já no século XIX
>tinham das mais avançadas industrias do Carvão e do
>Aço. Tudo isso deixa marcas estruturantes em qualquer
>economia. Eles era, industriais e “industriais”
>continuam.
>No nosso caso, ainda não nos libertámos completamente
>da ideia de comércio intercontinental do tempo das
>Descobertas. Nós éramos comerciantes, e “comerciantes”
>continuamos...
Sugestão: Leia "Comércio e Poder", de Sandro Sideri, Ed. Cosmos. É uma análise interessante da teoria/programa do Adam Smith.
>
>A Espanha hoje tem a maior frota pesqueira do mundo
>(juntamente com o Japao). E os Estados deles
>sustentaram a industria pesqueira e tambem os
>respectivos estaleiros navais.
>Pois estamos inteiramente de acordo.
>Mas a minha questão era: O que é que isso tem a ver
>com estarmos ou não estarmos na União Europeia?... A
>UE até tem bons exemplos de apoio a esse tipo de
>iniciativas de carcater industrial e tecnológico.
No nosso caso portugues deu péssimos exemplos. Primeiro andou a subsidiar para construirmos traineiras, depois andou a subsidiar para destruirmos as traineiras. As empresas do sector que ainda sobrevivem estão de rastros.
Até
>podiamos ter argumentado com a nossa vocação
>marítima...
>Mas aqui tudo é feito em cima do joelho. Na
>Universidade do Algarve há uma licenciatura e mestrado
>e doutoramento em biologia marítima. Uma jovem
>mestrada (com estágio na Noruega) que eu conheço, teve
>que acabar por abrir - em Faro - uma loja de
>bicharocos, se quis ter uma forma de "ganhar a vida".
>
>O problema da Marinha mercante:
>É precisamente isso que criticamos. (o
>Estado...) Nao tem a tal postura, ou se preferir
>tem uma postura de cocoras frente à UE..
>A minha pergunta é, porque é que se há-de atribuir à
>UE (afinal às pessoas que estão em Bruxelas...) a
>culpa de os "nossos" dirigentes se porem de
>cócoras?...
Não quiz de forma alguma desculpabilizar a classe dominante portuguesa. O seu dirigente mais recente que merece respeito deve ter sido o Conde da Ericeira (séc. XVIII). O que afirmo é que Bruxelas foi conivente e apoiante desta classe dominante e dos seus dirigentes politicos, cujo objectivo era restabelecer
o poder do capital monopolista em Portugal (abalado com a Revolução de Abril), mesmo que às custas do subdesenvolvimento do país".
>Na minha opinião é quase o contrário. Os
>"nossos" dirigentes à falta de capacidade de liderança
>própria - até por algum resquicio de má consciência -
>o que fazem é desculparem-se, por tudo e por nada,
>"com Bruxelas".
>A UE de facto tem as costas largas...
>
>Dizia eu
>No que respeita às
>deslocalizações (para a China, mas não só), se
>estivessemos fora da UE ainda era capaz de ser
>pior.
>Parece-me errado dizer isso. Falando em principio,
>se estivessemos fora da UE teriamos mais controle
>sobre os nossos operadores economicos e o SEE (com
>todas as industrias satelites, a montante e a jusante)
>não teria sido desmantelado como foi.
>Pois... em particular se tivéssemos mais uns milhares
>de engenheiros químicos, agrónomos, electro-mecânicos
>e electrónicos, assim como mais umas centenas de
>milhares de técnicos e operários qualificados (dos
>tais que são capazes de ler e discutir gráficos e
>esquemas de assemblagem e métodos estatísticos de
>controle de qualidade). Não estou a ser sarcástico.
>Apenas a referir - mais uma vez - o nosso principal e
>determinante problema estrutural.
>
>Os crimes de lesa economia nacional cometidos
>nestes ultimos 30 anos devem ser analisados e os seus
>autores responsabilizados.
>A começar pela "reforma" educativa que acabou com o
>ensino técnico-profissional.
Estou de acordo. Foi uma asneira colossal. Mas já se passaram 30 anos desde que ela foi cometida. Porque é que nesse período de tempo não se deram/não se dão os passo para corrigir o erro? Recordo que a fúria privatizadora ameaça até um dos poucos exemplos positivos de boa escola técnio-profissional. Refiro-me à Escola de Telecomunicações de Telheiras, de que o Min. da Educação quer descartar-se (ou já se descartou, não estou bem actualizado).
>Não consigo lembrar-me de medida mais demagógica
>tomada na sequência do 25 de Abril.
>Tanta coisa exaltante para fazer e logo alguém tinha
>que "borrar a pintura toda".
>
>Mas voltando à minha afirmação de
>color="#0033ff">No que respeita às deslocalizações
>(para a China, mas não só), se estivessemos fora da UE
>ainda era capaz de ser pior.
>Se estivéssemos fora da UE tinhamos - à escala global,
>com a OMC - o poder negocial que terá qualquer país
>com 10 milhões de habitantes. Na situação geográfica
>concreta em que está e sem um único recurso natural de
>que possa ser monopolista e que seja essencial para o
>resto da economia mundial.
>Assim, no seio da UE sempre poderemos - se soubermos -
>negociar e/ou reclamar medidas de excepção ("para
>recuperar" e nos "podermos ajustar" às novas
>circunstâncias) como fazem os nossos parceiros na UE.
Utopias. Com a condicionante do "se" podemos ir a qualquer parte. Nem sabem negociar, nem querem saber, nem têm peso negocial. Além disso estão a marimbar-se.
>E, sobretudo, reclamar/negociar no seio da UE medidas
>concretas que se apliquem a todas as empresas da UE,
>visando localizar essas empresas...
>Penalizando-as por deslocalizações, impondo um IVA
>social à escala da UE, exigindo da China, da Índia e
>dos outros países práticas laborais tendencialmente
>iguais às da UE... Aplicando tarifas aduaneiras à
>escala da UE... "Borrifando-se" para os ditames da OMC
>(o que só pode ser feito com a dimensão da UE...).
>
>Fico-me por aqui. A questão da "ideologia
>neoliberal da UE" não cabe já aqui e merece ser
>discutida com outro detalhe.
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter
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