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Guilherme Statter
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Date Posted: 19/01/05 13:15:15
In reply to:
Observador lucido
's message, "Re: União Europeia-uma fatalidade?" on 18/01/05 23:31:05
Dizia eu
mas parece-me que é errado atribuir as causas determinantes desses "desastres" à nossa adesão à União Europeia.
Sustento que a adesao à UE foi a principal causa determinante dos desastres referidos, alem de acelera-los.
Tem todo o direito. Eu apenas gostava de sublinhar, (acredite que não é pedantismo, apenas a mania do rigor de linguagem...), a expressão causa determinante.
Sim, foi devido à adesao. A destruiçao da reforma agraria, que poderia e deveria evoluir para a agro-industria, levou a isto.
Sem sarcasmo, julgava que a destruição da reforma agrária tinha começado antes da adesão à CEE. Mas em todo o caso gostaria que me esclarecesse de que maneira é que a UE impôs o fim da reforma agrária.
Não acompanhei a "coisa" desde o princípio - não vivia em Portugal - mas, se bem me lembro a contra-reforma começou em fins dos anos Setenta e acabou (mais ou menos...) em 1988. Como Portugal aderiu à UE em 1986, não estou a ver.
As condiçoes agro-fisicas de Portugal nao sao piores que as da Espanha, da Grecia ou da California. Pode-se dizer até que são melhores, pois dispoe de mais agua (a California por exemplo tem de traze-la de fora).
Estamos em desacordo... E passo a explicar:
No caso da Espanha, eles têm 26% de terra arável contra os nossos 22%. As montanhas em Espanha são melhores reservatórios de água do que as nossas... Até por estarem mais para o interior ou serem mais altas ou estarem directamente na "correnteza" dos ventos marítmos (Costa Norte). Resultado, em Espanha têm mais de 36.000 kms quadrados de terras irrigadas e nós em Portugal para aí uns 6.000. Para uma população que não chega a ser 4 vezes mais.
A comparação com a Grécia é semelhante mas mesmo assim, no caso de terras irrigadas a Grécia tem mais de 14.000 kms quadrados. Ou seja, mais do dobro. É a vantagem de terem serras onde neva muito...
No caso da Califórnia, tem toda a razão... Eles até têm que importar água. É uma das vantagens de estarem numa Federação. A gente tem que estar sempre a pedinchar aos Espanhóis para deixarem vir para cá mais um bocadinho da água que chove lá em Espanha.
E a Califórnia tem outra "vantagem" (salvo seja...) também podem importar do México, ali ao lado, mão-de-obra muito mais barata. Para fazer aqueles trabalhos que muito boa gente acha que são duros demais, ou que ainda não se podem inteiramente mecanizar.
E isso leva-me de volta à falta de formação ciêntífica e tecnológica e de gestão da parte dos nossos "camponeses".
No Luxemburgo onde está o ferro e o carvao deles?
De facto hoje já não... Já passaram à fase da economia de serviços. Até porque entretanto esgotaram os filões das minas de ferro. Mas, convem lembrar que estavam - estão - a "meia-dúzia" de quilómetros do vale do Rhur. E na encruzilhada dos países que já no século XIX tinham das mais avançadas industrias do Carvão e do Aço. Tudo isso deixa marcas estruturantes em qualquer economia. Eles era, industriais e “industriais” continuam.
No nosso caso, ainda não nos libertámos completamente da ideia de comércio intercontinental do tempo das Descobertas. Nós éramos comerciantes, e “comerciantes” continuamos...
A Espanha hoje tem a maior frota pesqueira do mundo (juntamente com o Japao). E os Estados deles sustentaram a industria pesqueira e tambem os respectivos estaleiros navais.
Pois estamos inteiramente de acordo.
Mas a minha questão era: O que é que isso tem a ver com estarmos ou não estarmos na União Europeia?... A UE até tem bons exemplos de apoio a esse tipo de iniciativas de carcater industrial e tecnológico. Até podiamos ter argumentado com a nossa vocação marítima...
Mas aqui tudo é feito em cima do joelho. Na Universidade do Algarve há uma licenciatura e mestrado e doutoramento em biologia marítima. Uma jovem mestrada (com estágio na Noruega) que eu conheço, teve que acabar por abrir - em Faro - uma loja de bicharocos, se quis ter uma forma de "ganhar a vida".
O problema da Marinha mercante:
É precisamente isso que criticamos. (o Estado...) Nao tem a tal postura, ou se preferir tem uma postura de cocoras frente à UE..
A minha pergunta é, porque é que se há-de atribuir à UE (afinal às pessoas que estão em Bruxelas...) a culpa de os "nossos" dirigentes se porem de cócoras?...
Na minha opinião é quase o contrário. Os "nossos" dirigentes à falta de capacidade de liderança própria - até por algum resquicio de má consciência - o que fazem é desculparem-se, por tudo e por nada, "com Bruxelas".
A UE de facto tem as costas largas...
Dizia eu
No que respeita às deslocalizações (para a China, mas não só), se estivessemos fora da UE ainda era capaz de ser pior.
Parece-me errado dizer isso. Falando em principio, se estivessemos fora da UE teriamos mais controle sobre os nossos operadores economicos e o SEE (com todas as industrias satelites, a montante e a jusante) não teria sido desmantelado como foi.
Pois... em particular se tivéssemos mais uns milhares de engenheiros químicos, agrónomos, electro-mecânicos e electrónicos, assim como mais umas centenas de milhares de técnicos e operários qualificados (dos tais que são capazes de ler e discutir gráficos e esquemas de assemblagem e métodos estatísticos de controle de qualidade). Não estou a ser sarcástico. Apenas a referir - mais uma vez - o nosso principal e determinante problema estrutural.
Os crimes de lesa economia nacional cometidos nestes ultimos 30 anos devem ser analisados e os seus autores responsabilizados.
A começar pela "reforma" educativa que acabou com o ensino técnico-profissional.
Não consigo lembrar-me de medida mais demagógica tomada na sequência do 25 de Abril.
Tanta coisa exaltante para fazer e logo alguém tinha que "borrar a pintura toda".
Mas voltando à minha afirmação de No que respeita às deslocalizações (para a China, mas não só), se estivessemos fora da UE ainda era capaz de ser pior.
Se estivéssemos fora da UE tinhamos - à escala global, com a OMC - o poder negocial que terá qualquer país com 10 milhões de habitantes. Na situação geográfica concreta em que está e sem um único recurso natural de que possa ser monopolista e que seja essencial para o resto da economia mundial.
Assim, no seio da UE sempre poderemos - se soubermos - negociar e/ou reclamar medidas de excepção ("para recuperar" e nos "podermos ajustar" às novas circunstâncias) como fazem os nossos parceiros na UE. E, sobretudo, reclamar/negociar no seio da UE medidas concretas que se apliquem a todas as empresas da UE, visando localizar essas empresas... Penalizando-as por deslocalizações, impondo um IVA social à escala da UE, exigindo da China, da Índia e dos outros países práticas laborais tendencialmente iguais às da UE... Aplicando tarifas aduaneiras à escala da UE... "Borrifando-se" para os ditames da OMC (o que só pode ser feito com a dimensão da UE...).
Fico-me por aqui. A questão da "ideologia neoliberal da UE" não cabe já aqui e merece ser discutida com outro detalhe.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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