| Subject: Re: Posso meter uma colherada? - |
Author:
Luis Laranja
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Date Posted: 10/01/05 18:39:13
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Re: Posso meter uma colherada? -" on 9/01/05 1:49:05
Senhor Statter.
V. Ex.ª coloca questões muito interessantes, cuja discussão excede em muito os limites temáticos, o interesse da maioria dos intervenientes e a extensão admissível para intervenções num fórum, pelo que não me vou deter a responder-lhe detalhadamente. Não posso deixar, contudo, de responder a algumas, que constituem críticas a afirmações minhas ou que me parecem mais significativas.
Começo pela crítica que V. Ex.ª me dirige acerca da minha afirmação de que “os sistemas são criações do espírito”, a qual constituiria ou sugeriria, na sua opinião, “uma abordagem "idealista"”, visto que “os sistemas que existem começariam por existir enquanto "criação do espírito"”. Julgo que uma tal interpretação se deve a qualquer confusão da parte de V. Ex.ª, nomeadamente, por pensar que os “sistemas (abertos, "porosos" ou fechados) existem antes, depois e independentemente de nós os pensarmos”. O que existe, de facto, é uma realidade muito complexa, constituída por diversíssimas inter-relações de seres, objectos e coisas correspondentes a diversos estados de organização da energia (ou da matéria, como dizem alguns). Se esta realidade é ela própria constituída por variadíssimos sistemas (ou por um sistema geral com os seus sub-sistemas) é coisa que me escapa. Se assim for, caberá ao trabalho contínuo da ciência ir descobrindo esses sistemas e as leis que regem as suas relações internas e externas. No labor de representar adequadamente o objecto prático concreto realidade, baseando-nos em observações, experimentações, conjecturas, hipóteses e teorias, e na sua refutação, inventamos objectos teóricos que designamos por sistemas. Neste sentido, um sistema, com os seus constituintes e relações melhor ou pior definidos, não passa duma criação do espírito. Se isto é idealismo, então, a actividade científica, toda ela obra do espírito humano na interpretação da realidade existente, será o mais lato dos idealismos.
Uma outra questão interessante é a da queda da lucratividade do capitalismo, assim como a crítica que V. Ex.ª me dirige acerca de que pareço “ignorar o facto de a lucratividade do sistema ter estado a oscilar (ao longo dos últimos séculos) em ondas de 50-60 anos (entre picos). As famigeradas "Ondas de Kondratieff"”. O capitalismo tem crises cíclicas, de período ligeiramente variável, e, a modulá-las, terá outras de período ainda mais longo. À medida que os dados forem sendo melhor conhecidos e os instrumentos de análise forem melhorando, descobrir-se-ão, eventualmente, outras modulações, correspondentes a saltos tecnológicos e produtivos do capitalismo, e, porventura, outras, correspondentes não já ao próprio capitalismo mas às grandes transformações económico-sociais de mudança de modo de produção dominante. O que queria referir com a minha afirmação não eram as oscilações periódicas da lucratividade correspondentes às crises cíclicas, nas quais a acumulação gerada não é susceptível de reproduzir a lucratividade que a originou, obrigando à destruição de meios de produção, nem as oscilações ainda mais longas, correspondentes a saltos tecnológicos susceptíveis de proporcionarem novos padrões da lucratividade, mas tão só o facto de o esgotamento das virtualidades do sistema ser anunciado pela queda absoluta da sua lucratividade.
Isto poderá vir a acontecer por duas ordens de razões. Por um lado, pela insolvência duma parte do sistema, que não tendo tido capacidade para se desenvolver verá os seus níveis de produção e de consumo reduzirem-se e, com isso, afectará a lucratividade da parte mais desenvolvida do sistema, cuja maior lucratividade provinha da troca desigual que com ela realizava; isto é, os mais ricos só poderão continuar a sê-lo se os pobres não forem transformados em indigentes. Por outro lado, pelo desenvolvimento da parte menos desenvolvida do sistema a um ritmo maior do que a parte mais desenvolvida, estreitando o intervalo da troca desigual até níveis não aceitáveis, ainda que a produção global cresça. Estes dois movimentos contraditórios conjugam os seus efeitos, e correspondem ao que se vai verificando actualmente. Uma parte até agora pouco desenvolvida do sistema capitalista desenvolve-se a ritmos dantes impensáveis, e outra parte definha e parece irremediavelmente perdida.
Falta, porém, ainda muito tempo para o cenário ir tomando esta forma cujos contornos mal se divisam. Há ainda vastas zonas com força de trabalho abundante e educada, e onde não faltam gestores e quadros técnicos capazes sub aproveitados, ávidas de melhorar o seu nível de desenvolvimento, para onde os capitais em excesso nas zonas mais desenvolvidas não deixarão de migrar, como é o caso dos países saídos do comunismo, e outras zonas potencialmente insolventes vão-se aguentando numa estagnação precária através do desenvolvimento do turismo e de muitas outras actividades de lazer e de prestação de serviços (algumas delas possibilitadas pelo desenvolvimento rápido da telemática). Restará ainda ao sistema, para ajustar a sua lucratividade a níveis aceitáveis, o recurso a guerras que acelerem a destruição de meios de produção, que promovam mudanças políticas susceptíveis de ampliarem o mercado em zonas até aqui dominadas por regimes políticos arcaicos ou marginais, etc., etc.
O que designamos por capitalismo, porém, não se reduz a um mero sistema económico, e, muito menos, a um sistema económico restrito às relações de troca livremente estabelecidas no mercado. Trata-se, como todos sabemos, de um sistema económico-social, cuja esfera política exerce uma influência importante no comportamento dos actores no mercado. O Estado, enquanto sub-sistema político de regulação por excelência, detentor dos principais meios de coerção dos actores internos, é capaz de exercer, pela diplomacia ou pela guerra, coerções diversas sobre os concorrentes externos, sejam fornecedores ou compradores, e detém, além do mais, alguma capacidade de regulação das crises. Internamente, escoando, com o seu consumo, parte da acumulação não aplicável em novos meios de produção, que paga, a prazo mais ou menos largo, com a parte cobrada como impostos ou como juros do empréstimo da mercadoria geral moeda, e, externamente, com a influência diplomática, contribui para a manutenção ou ampliação das oportunidades de negócio, e, de modo mais radical, com as guerras, promove a destruição forçada de meios de produção susceptível de recompor a lucratividade perdida.
Por fim, uma questão mais geral, que me parece transparecer das intervenções de V. Ex.ª. Pelo facto de uns se desenvolverem e outros não, ou se desenvolverem a ritmos diferentes, a culpa é atirada por inteiro para o capitalismo. Este é um discurso próximo da cantilena comunista, na qual o capitalismo é o causador de todos os males da humanidade, e que remete para um qualquer desarranjo intelectual. O capitalismo promove o desenvolvimento desigual, é um facto, mas a incapacidade de desenvolvimento evidenciada por muitos povos não pode ser atribuída exclusivamente a este facto. Muitos povos conheciam níveis de desenvolvimento mais baixos do que outros muito antes da ascensão do capitalismo a modo de produção dominante, e, na História, conhecem-se variadíssimos exemplos de povos que souberam aproveitar as oportunidades que se lhe depararam e inverter a sua situação relativa. O capitalismo não tem um rol com os povos e países que serão bafejados pela sua preferência. Tal como as pessoas, os povos são capazes de agarrar as oportunidades que se lhes deparam e de inventar as suas próprias oportunidades, ou não são.
Tenha V. Ex.ª um resto de dia proveitoso.
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