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Guilherme Statter
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Date Posted: 9/01/05 1:49:05
In reply to:
Luis Laranja
's message, "Re: Posso meter uma colherada?" on 7/01/05 21:02:44
Senhor Laranja,
Eis alguns comentários, esclarecimentos e reflexões que se me oferecem relativamente a este seu último texto: Irei transcrevendo os seus escritos porque me parecem merecer a pena.
Começo pela frase que primeiramente me causou alguma estranzeza:
um sistema não passa duma criação do espírito
Será certamente uma forma de falar da parte do sr. Laranja. Digo isto na medida em que os seus textos anteriores pareciam sugerir uma abordagem uma abordagem, se não "materialista", pelo menos "positivista".
Esta sua frase sugere uma abordagem "idealista" (os sistemas que existem começariam por existir enquanto "criação do espírito").
A ser esse o caso (essa a sua abordagem) é respeitável, mas estaremos aí em desacordo.
Os sistemas (abertos, "porosos" ou fechados) existem antes, depois e independentemente de nós os pensarmos.
Sim, em termos de teoria dos sistemas, poderia dizer-se que o capitalismo caminha para um sistema fechado. Como V. Ex.ª deve saber, um sistema não passa duma criação do espírito, e os qualificativos de abertura ou de fecho com que são caracterizados os sistemas são muito relativos.
Tem razão, mas penso que temos a este respeito ideias algo distintas. Digo isto na medida em que proponho antes uma "escala" de abertura (ou "porosidade"), considerando os sistemas "abertos" ou "fechados" como duas situações limite ou nas extremidades de uma escala em que se consideram os sistemas, desde os "totalmente abertos" até aos "totalmente fechados". E claro, como bem assinala o sr. Laranja, a classificação será sempre relativa.
Veja o caso dos sistemas vivos, que sendo classificados de sistemas abertos caminham igualmente para o aumento da sua entropia, definham e morrem. Mas, no sentido de que o sistema capitalista, tendo-se expandido por todo o lado, caminha para se transformar num sistema único e, com tal facto, terá a sua lucratividade a diminuir,
Aqui estamos em desacordo. A abordagem convencional em teoria dos sistemas parece atribuir o grau de abertura dos sistemas, de acordo com a sua organicidade e imprevisibilidade de comportamento.
Deve ainda referir-se que enquanto um sistema fechado se caracteriza por um equilíbrio cinético reversível, um sistema aberto é caracterizado pela sua determinação rumo a um estado estacionário dinamicamente irreversível. Vimos assim a reencontrar aqui as ideias dos clássicos da economia política, segundo os quais a economia (mundial) tenderia para um estádio estacionário. Nesta perspectiva a economia mundial ou o sistema-mundo seria assim considerado como um sistema aberto.
Esta é a posição típica dos economistas convencionais.
O que eu proponho (e não cabe aqui explicar com ainda mais detalhes...) é que o sistema-mundo (capitalista) já atingiu (na viragem do século XIX para o século XX) as suas fronteiras planetárias e, em consequência tornou-se num sistema fechado. Julgo já ter dito (?...) mas o facto é que a Terra ainda não tem trocas comerciais ou outras (social ou económicamente relevantes) com outros planetas.
Por outro lado, quando o sr. Laranja diz
e, com tal facto, terá a sua lucratividade a diminuir, parece ignorar o facto de a lucratividade do sistema ter estado a oscilar (ao longo dos últimos séculos) em ondas de 50-60 anos (entre picos). As famigeradas "Ondas de Kondratieff".
Até princípios do século XX, a saída para a "crise" era sempre ou a expansão colonial ou a guerra com os rivais nas fronteiras.
Depois com a ocupação de todo o planeta passou-se às guerras "mundiais". No caso da Segunda-Guerra a destruição de estruturas físicas foi de tal ordem que RE-criou adentro do sistema novos espaços de expansão. Que durou uns 30 anos. Depois tem sido uma evolução "estagnada" (sustentada pelo Estado Providência e "contrato fordista").
Sublinho o facto de a queda da lucratividade ser inerente à lógica intrínseca do funcionamento de uma economia de mercado. A queda da lucratividade não se deve ao facto de o sistema ter chegado (ou, se preferir, estar a caminho...) de ser um sistema fechado.
O sistema capitalista não é extra-terrestre, não apareceu de pára-quedas nem veio em qualquer nave espacial. Germinou no seio de sistemas que o antecederam, antes mesmo deles perecerem, nomeadamente, colmatando-lhes as lacunas e as insuficiências e superando de modo mais vantajoso as suas contradições. Não foi, também, criação de qualquer mente iluminada, mas resultou das práticas de miríades de actores que foram aproveitando oportunidades onde existiam, inventando outras, e vencendo barreiras as mais diversas, de modo a ir respondendo às necessidades existentes e às que ele próprio foi criando. O que é, no que se transformou, transcende as representações que os actores tiveram das suas práticas, e transcende mesmo a representação que nós próprios hoje fazemos dele. Digamos que é muito mais complexo do que possamos imaginar, ainda que estejamos na posse do conhecimento das suas características essenciais.
Não podia estar mais de acordo!
Kenneth Boulding e/ou Stafford Beer consideram mesmo o sistema socio-económico como "probabilístico hiper-complexo"... Mas, a questão básica é que há as tais "características fundamentais". Estamos aí perante 3 ou 4 variáveis independentes e que se podem medir/avaliar. Por outras palavras, se é verdade que o sistema que vier a seguir (na História milenar da Humanidade...) não vai resultar de esquemas pré-concebidos por mentes ou grupos mais ou menos iluminados, também não deixa de ser verdade que vai sendo possível explicar e prever o comportamento deste sistema em que vivemos.
De qualquer modo, o facto do capitalismo caminhar para
a estagnação e o perecimento não nos deve merecer preocupação maior.
Aí, peço desculpa, mas acho que temos muito que nos preocupar... As coisas não acontecem só por obra e graça da "mão invísivel" smithiana ou apenas segundo os ditames do "espírito santo do mercado". Desde a poluição galopante, até ao fervilhar de guerras e guerrinhas, confesso que quando brinco com os meus netos, estou muitas vezes a matutar no mundo que lhes estamos a criar... Mas enfim, optimista (reservado...) até ao fim!
Hoje em dia, fervilham já milhentos ensaios inovadores de saídas mais eficazes para os constrangimentos que o sistema vai apresentando, por enquanto ainda restritos às técnicas e aos objectos que são produzidos, mas cujo desenvolvimento não deixará de exigir alterações e transformações nas formas sociais pelas quais as pessoas participarão na produção e na fruição dos objectos.
Pois. Tem toda a razão... Mas, repito, essas alterações só acontecerão se alguns grupos sociais quiserem e/ou se outros grupos sociais deixarem... Os marxistas falavam a esse respeito de "luta de classes".
Escusamos de imaginá-las, porque a realidade ultrapassará os esquemas mais criativos, mas devemos perscrutá-las, para as compreendermos e melhorarmos. Por isso, agora, como em todo o tempo, a preocupação maior não deve constituir a luta abstracta pelo derrube do capitalismo enquanto sistema económico-social - ela própria um contra-censo, porque do que se trata, quando chegar a altura, é da luta pela substituição da classe dirigente. Então, pessoal com outras perspectivas, perfilar-se-á, de forma mais visível ou encapotada, para tomar as rédeas do poder de modo a proporcionar melhores condições de desenvolvimento às relações de produção que entretanto tiverem emergido e pretendam desenvolver-se. As coisas, para os actores, aparecerão sob outros objectivos, muito mais restritos e limitados, e desenrolar-se-ão de um modo contínuo no tempo, como se as roturas fossem apenas políticas, mas do que se trata é da produção da revolução social.
A este respeito, cheira-me que o Schumepeter era muito capaz de estar de acordo consigo. E já aqui tive ocasião de referir que se calhar, daqui a umas décadas, já estaremos em "socialismo", sem que muito boa gente se tenha apercebido disso. E mais por força das decisões dos grandes empresários do que dos partidos políticos. Claro que uma tal transformação não passará despercebida a quem andar mínimamente atento... E, como será evidente, os ditos partidos políticos são muito capazes de ter "alguma coisa" a ver com essa transformação.
Também como em todo o tempo, agora, o essencial é lutar por objectivos concretos muito mais comezinhos, a começar por outra proporção para a distribuição da riqueza criada, contra as injustiças e os privilégios, as guerras de pilhagem, etc., etc.
Não podia estar mais de acordo!!!
MAS, quando o sr. Laranja afirma
Dizer-se que os povos das sociedades menos desenvolvidas não têm já nada a esperar do capitalismo é muito redutor e derrotista. Não terão a ganhar se não forem capazes. É de esperar que tenham muito mais dificuldades, que encontrem adversários nos próprios assalariados do capitalismo desenvolvido, mas têm direito a uma vida melhor, e isso só o desenvolvimento do capitalismo nas suas regiões ou o aparecimento de alternativas ainda mais competitivas (porque não é claro que as alternativas ao capitalismo emirjam e se desenvolvam nas regiões mais desenvolvidas, como aconteceu, de resto, com o próprio capitalismo) lhes poderão proporcionar.
Já estamos outra vez em desacordo.
E é outra vez a estória do sistema fechado!.
É que a nem a Indonésia, nem a África do Sul, a Nigéria ou a Índia (e estou a apenas a referir alguns dos países com maior dimensão...) podem esperar HOJE ter uma evolução semelhante à dos países do Noroeste da Europa ao longo do século XIX.
O Capitalismo que eles lá têm não é "subdesenvolvido". O que eles lá têm é a fracção "pobre" do capitalismo mundial. Fracção "pobre" essa que também está a aumentar nos países do Centro. O coeficiente de Gini está a aumentar em todos os países (com a notável excepção da África do Sul), e está também a aumentar ENTRE os países...
Daí o haver autores que falam da brazilianização dos EUA...
Ou da "Belindia" (a riqueza da Bélgica e a pobreza da Índia).
Fico-me por aqui.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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