Author:
Paulo Sucena, Público, 23/07/05
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 23/07/05 15:50:01
Com imensa amargura
Paulo Sucena, Público, 23/07/05
Quando me sentei para comentar um escrito de Fátima Bonifácio, publicado recentemente no Público, apeteceu-me responder àquela prosa dois tons acima do usado pelo velho Almada contra o palaciano Dantas. Mas não vou por aí. Que um pouco, um poucochinho de delicadeza me guie a escrita para não emparceirar na açougada que caiu sobre os professores, os sindicatos e seus dirigentes.
A autora inicia a sua diatribe do seguinte modo: “Quanto aos sindicatos dos professores (FNE e Fenprof, principalmente), convocaram eles uma greve que coincidiu propositadamente com os exames nacionais do 9º e 12º anos, marcados desde Janeiro, há portanto seis meses.” A historiadora (informação inscrita no final do seu artigo) refere a FNE neste parágrafo para depois a deixar de fora da sua prosa pejada de acrimónia, malquerença e maledicência. Ao fazê-lo e ao ignorar o seu secretário-geral, João Dias da Silva, apaga o perfil de um dirigente sindical cuja lisura de processos de relacionamento com a Fenprof foi notável e cuja coragem e postura sindical em muito contribuíram para a unidade na acção conseguida pelas duas federações.
A missão da FNE é explicada num pedaço de prosa cuja grandeza social e política me dispenso de comentar: “A FNE afecta à UGT e através desta ao PS, alinha porque não pode ficar atrás da sua concorrente: perderia a clientela.” A historiadora varreu da história as reuniões havidas entre delegações das duas federações para preparação da luta e considera que a FNE se limitou a seguir a Fenprof. E por que o teria feito? Para não perder a “clientela”. Lapidar juízo – os professores que criaram os sindicatos que constituem a FNE e mantêm o seu funcionamento com as suas quotas não passam de “clientela”. Regressámos à Roma antiga: em cima os patrícios e em baixo os plebeus, seus protegidos.
No parágrafo seguinte, em que se afirma que as duas federações “convocaram uma greve aos exames, e os argumentos para ocultar este facto não apenas irritam pela sua clamorosa hipocrisia, como por suporem que o público é estúpido”, a historiadora fica-se pelo registo da opinião.
Porém, nenhum dirigente da FNE ou da Fenprof disse que a greve não afectava os exames. O que afirmaram é que esta não foi convocada como uma greve aos exames. Após as decisões do Conselho de Ministros de 2 de Junho, era necessário dar uma resposta firme ao Governo, porque direitos negociados e acordados com governos anteriores e consagrados no Estatuto da Carreira Docente não podiam ser dele retirados sem negociação com os sindicatos. Sabendo que o tempo urgia, Fenprof e FNE acordaram na forma de luta a adoptar e aprestaram-se a entregar a um representante do primeiro-ministro uma carta que até hoje não teve resposta. A historiadora também não cuidou de se informar sobre as matérias que as duas federações aceitariam como suficientes para levantar a greve, caso o ME mostrasse disponibilidade para negociar.
Envereda depois por uma argumentação pobre e risível: porquê “agora” e não uma semana ou 15 dias depois. E por que não 25 depois, já com grande número de professores em férias? Em vez de insultar, devia informar-se junto da Fenprof como se monta uma greve aos exames, porque já o fizemos e só não a pusemos em prática porque a direcção da altura considerou que os compromissos assumidos pelo Governo de então permitiam o seu levantamento, o que não foi possível com o silêncio deste Governo. Assim, o que Fenprof e FNE consideraram em Junho passado foi que ou marcavam greve em tempo oportuno, ou já não seria possível materializar a justa revolta dos docentes. É evidente que uma greve de 20 a 23 de Junho nada tinha de popular, mas em momentos de tal complexidade os dirigentes sindicais recorrem aos princípios que sustentaram a sua candidatura e que expuseram farta, clara e democraticamente às dezenas de milhares de professores que os elegeram.
Também não foi popular a greve aos exames que os docentes do ensino superior decretaram em 1995, expandida por dois períodos (como a FNE e a Fenprof o poderiam ter feito agora, marcando greves para todos os dias da 1ª e 2ª chamadas. Esta greve afectou cerca de 18 mil alunos que pretendiam ingressar no ensino superior, para além de outros que foram afectados nas suas provas internas. Pouco me interessa saber hoje se a senhora professora doutora dona M. Fátima Bonifácio foi uma “fura-greves” ou uma entusiástica grevista, porque apenas lhe quis lembrar o que é uma verdadeira greve aos exames.
Quando se refere ao sr. Sucena, pensei que almejava imitar um conhecido analista português que, com subtil intencionalidade, trata A por sr., B por eng., X por prof. E Z pelo nome. Mas não. A sra. historiadora não teve tal pretensão. Interpretemos a sua prosa: “Li há dias no Público uma carta de um docente em que dizia que é uma “hipocrisia” o tratamento de “colega” que os sindicalistas dão aos professores, a tal ponto – concluo eu – estão já divorciados da profissão”. E, mais à frente, acrescenta: “Os do topo, como o sr. Sucena, eternizam-se nos cargos. Não admira que dirigentes destes inteiramente afastados da docência e alheios ao mundo da escola decretem boicotes aos exames de alunos a quem nada ensinam nem conhecem.” As mentiras que sobre mim atira, como se eu fosse um foco vermelho que lhe retira a serenidade, nem sequer vou cuidar de rebater, mas o modo como quis roubar a um cidadão a sua substância profissional, decisiva para a definição da sua própria cidadania, isso jamais lhe perdoarei, porque lhe bastou a opinião de um leitor do Público para me condenar ao ostracismo da classe docente.
Para amaciar a indignação permitam os leitores que os informe que fui eleito dirigente sindical depois de 20 anos de carreira docente, em que, entre outras, desempenhei funções de delegado de disciplina, de director de turma, de membro do conselho directivo, de membro do conselho pedagógico, de dinamizador de cursos de formação para directores de turma, delegados de disciplina e de professores do então chamado 5º ano experimental (actual 9º); fui orientador de teses de exame de Estado, orientador de estágio, orientador pedagógico, co-autor de programas e co-autor de uma antologia de textos de apoio a professores do 5º ano experimental. Quanto ao esquecimento do que é dar uma aula (se isso é possível…), confesso que foi com uma imensa alegria que dei aulas já em tempos de dirigente sindical. Se esses foram aumentos de imensa alegria, este é só de amargura.
Termino com breves comentários a dois excertos reveladores de alguma puerilidade que porventura floriu como florescem por engano rosas bravas no Inverno. Eis a primeira citação: “Ao que tudo indica, esta “luta” é uma luta entre o PCP e o Governo”. E, se a greve tivesse resultado, seria “uma grande vitória política da Fenprof, ou mais exactamente, da força política a que está ligada”. Aqui temos, uma vez mais, a historiadora com uma visão desfocada da realidade, não só porque continua a ignorar o papel da FNE na condução desta greve, como despreza todos os outros sindicatos que a ela publicamente aderiram. A seguir pensa o impensável – o PCP emite uma ordem para a realização de uma greve nacional e a Fenprof, ao recebê-la, de imediato a reencaminha a todos os sindicatos que se limitam a obedecer. Poder-se imaginar que esta greve não resultou da indignação dos professores, mas de um “comando” do PCP é algo que se aproxima do infantilismo político, se olharmos para a composição das direcções de todas as federações e sindicatos de professores. Quanto ao PCP ser considerado o mau da fita, isso já faz parte da história das tristes fitas da política portuguesa.
E vamos ao último período: “Hoje em dia, quando mais do que nunca seriam necessários (os sindicatos, sobre os quais não gastou uma linha a dizer-nos para que são necessários e como o devem ser), parece que os sindicatos mais constituem um problema do que contribuem para a sua solução.” Devo confessar que, para mim, a frase é extremamente ambígua, mas cuido que de algum modo ela pode carregar, implícita, a ideia de que, seja qual for o problema, o melhor contributo que os sindicatos podem dar é promover a sua dissolução e aguardarem que a sra. Historiadora diga ao país o que devem ser e como devem agir.
*Secretário-geral da Fenprof
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
|