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Subject: Re: Citação de Marx (Grundrisse) - V


Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 3/02/06 22:23:22
In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "Citação de Marx (Grundrisse)" on 29/01/06 21:03:47

Estava eu a falar do trabalho improdutivo do Dr. Paulo Fidalgo e dizia que, de acordo com as sagradas escritura do santíssimo profeta São Carlos de Tiers, o seu trabalho de médico não era produtivo.
Já se for o médico João Semana a fazer o mesmíssimo tipo de trabalho numa clínica privada de uma companhia de seguros privada, então já será trabalho produtivo na medida em que esse trabalho permitirá à companhia de seguros cobrar uma mais-valia por cada acto clínico e através dessa cobrança de "mais-valias" a companhia de seguros faz o básico e fundamental do capitalismo: a acumulação. Mas atenção... Se o dr. João Semana se despedir e abrir um consultório só dele e passar a fazer o mesmíssimo trabalho que fazia na clínica privada (da tal companhia de seguros capitalista), cobrando até os mesmos preços (mas vendendo mais e melhor porque agora faz o seu trabalho com mais empenho e atenção personalizada...), então nesse caso o médico João Semana passa à categoria analítica de artesão e passa a fazer a sua própria acumulação (na medida em que factura mais que aquilo que consome).
A vulgata marxista não gosta muito deste esquema de coisas porque a "exploração" como que desaparece e aparece em seu lugar uma coisa a que alguns chamam de "auto-exploração".
Mas atenção!!! A tal vulgata marxista gosta ainda menos disto tudo na medida em que aquilo que temos que fazer é considerar que a actividade da própria e capitalística companhia de seguros se passa já não na esfera da produção, mas sim na esfera da circulação!!!. Onde, como todos sabem e segundo as sagradas escrituras, só há troca de valores. Não há criação de mais-valias. Não há trabalho produtivo...
Temos assim que o nosso dr. João Semana pode ir paulatinamente enriquecendo (ganhando mais do gasta, dia após dia, mês após mês e ano após ano...) sem que haja trabalho produtivo nem exploração. Pode, não quer dizer que o faça.
Em todo o caso parece que continuamos com a não existência de trabalho "produtivo" porque como explicámos na mensagem anterior, os custos de manutenção e reprodução da força-de-trabalho competem só aos proprietários da dita cuja "força-de-trabalho".
Ou seja, já estão incluídos no Capital Variável quando este se apresenta perante o Capital Constante.
Mas imaginemos que o nosso dr. João Semana além de médico resolve virar empresário. Nas suas horas livres (embora se esfalfe a trabalhar no seu consultório, sempre terá algum tempito para descansar...) e até aproveitando a experiência que vai vivendo com o contacto diário com dezenas de pacientes, um dia tropeça numa ideia para um produto que não sendo a banha da cobra sempre permitirá – pensa ele – curar muito melhor uma determinada maleita.
Como ao longo dos anos o nosso dr. João Semana acumulou algum capital (coisa de capitalistas...), contrata os serviços de um farmacêutico, engenheiro fabril e um economista, elabora um projecto (com o Excel é um instante, embora eu prefira o Lotus 123) e vai a um banco. E arranca para a fabricação de um novo remédio.
Então é assim: As tarefas do farmacêutico, do engenheiro fabril e do economista (apesar de serviços) vêm a ser considerados como "frais de production" e ao que parece vão ser mesmo imputados ao preço final de venda do novo remédio. São capital variável (pago pelo dr. João Semana) e dão origem a mais-valia…
Mas… espera aí! Alto e "pára o baile"!…
Então e o trabalho não-produtivo do médico Paulo Fidalgo que fazia a manutenção da força-de-trabalho (e que cujos custos eram ou são por conta dos proprietários da dita cuja força-de-trabalho), então esse trabalho não-produtivo não acaba por também dar origem a mais-valia?... A regra transitiva da matemática não será para aqui chamada?...
Ou a lógica será para outros ramos do conhecimento?...
Parece confuso, mas não. De facto não. O trabalho não-produtivo do médico Paulo Fidalgo não dá mesmo origem a mais-valia. Já foi pago do bolso dos proprietários da força-de-trabalho….
Como assim?!... Então e quem é que paga os impostos (que o Estado utiliza para pagar ao médico Paulo Fidalgo)?... São só os trabalhadores (os proprietários da força-de-trabalho) ?!...
Pois é. O melhor é mesmo sair desta floresta de enganos (onde uma coisa às vezes tem uma máscara e outras vezes tem outra) e olhar a floresta de longe. Ver a sociedade humana como um todo e dentro dela as "classes" e os "tipos de trabalho" como categorias analíticas. Sem deixar de olhar para os ocupantes concretos dessas "categorias analíticas".
Esta distinção entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo é sem dúvida muito interessante e útil ou produtiva (até de um ponto de vista heurístico) mas se não se tem cuidado com o seu caracter permanentemente contingencial, arriscamo-nos a ter consequências do tipo das que se encontram em Fred Moseley "The Decline of the Rate of Profit in the Postwar U.S. Economy: An Alternative Marxian Explanation,
Review of Radical Political Economics; 22(2-3), Summer-Fall 1990, pages 17-37"
.
Para este autor a causa da queda da taxa de lucro nos EUA no período do pós-guerra seria sobretudo o facto de ter aumentado a proporção do trabalho "improdutivo" relativamente ao trabalho "produtivo", em vez da explicação convencional (marxista ortodoxa) exposta por (ou derivada directamente de) Karl Marx.
Aproveitando a distinção (que noutro contexto tem utilidade) entre trabalho "produtivo" e trabalho "improdutivo", o que o sr. Moseley faz é confundir os efeitos com as causas.
Isto porque justamente em consequência do aumento continuado da Composição Orgânica do Capital e da maior e cada vez mais crescente produtividade, há no sistema uma tendência quer para a sobreprodução, quer para o aumento cada vez mais visível de "trabalhadores redundantes" e sobretudo um aumento (ia a escrever "desproporcionado") de trabalhadores dos "Serviços". Os tais "improdutivos"
Metendo aqui uma colherada de tipo normativo (considerar. o que "seria bom" em vez daquilo que efectivamente "é"), assinalo que nestes serviços se incluem funções de facto socialmente úteis (investigação ciêntífica, medicina, artes, lazer…) enquanto que outras serão de caracter muito mais duvidoso. Baran e Sweezy apontam em particular a gigantesca máquina da publicidade...
Só para concluir esta charada toda, cá para mim a maior homenagem que se pode prestar a Karl Marx é não o considerar "intocável" e, sobretudo, não considerar a sua obra como "as sagradas escrituras".
Mas para isso - depois de estudar minimamente a obra - é preciso cada um pensar por si.

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Replies:
Subject Author Date
Com essa dos actos médicos estarem na esfera da circulação já deste outra vez meia volta! (NT)Ex-militante(dizendopara continuares,pode ser qu lá chegues) 3/02/06 23:29:54
produção e consumopaulo fidalgo 5/02/06 12:06:51


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