| Subject: A história deles contada por eles |
Author:
João Mesquita
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Date Posted: 4/04/05 21:39:56
Era uma vez a revolução
João Mesquita, Grande Reportagem, 2/04/05
(...) Na noite de 18 de Dezembro de 1974, o semanário político Voz do Povo reservou o teatro Capitólio para uma sessão de apoio ao jornal, que começara a publicar-se cinco meses antes, sob a direcção do médico João Pulido Valente (...). Ao fundo do palco, um enorme pano clamando “democracia para os operários, repressão para os reaccionários” indiciava que algo mais se passaria.
Para que não houvesse dúvidas, outro pano colocado na sala exibia as fotos de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao Tsé-Tung com os dizeres. “Marxismo-leninismo, doutrina sempre jovem e científica”.
Não foi preciso esperar muito para que as centenas de pessoas que enchiam o teatro confirmassem estar-se numa sessão muito especial.
Pelo palco já tinham passado José Mário Branco, entre outros cantores, e o coro da Juventude Musical Portuguesa, onde pontifivcava o actual crítico musical do Expresso João Lisboa.
De súbito toma a palavra um monitor da Lisnave e ex-simpatizante do PCP Eduardo Pires (...). “Como resultado de recentes contactos estabelecidos entre elementos de várias forças políticas que defendem a liquidação do capitalismo e o estabelecimento de uma democracia popular como primeiro passo na construção do socialismo construiu-se uma comissão promotora com vista à formação de um partido político, a UDP, para intervenção no período eleitoral que se avizinha”, informou Pires (...).
As “várias forças políticas” a que o orador se referia eram, basicamente, três grupos da chamada corrente marxista-leninista.
Todos tinham ido buscar inspiração ideológica ao cisma operado no mundo comunista dos anos 50 para os anos 60, entre a China de Mao (acompanhada pela Albânia de Enver Hoxha) e a URSS, e à consequente cisão com o PCP de Francisco Martins Rodrigues (apoiado por Pulido Valente), tempos depois.
Como inspirador da UDP (como, aliás, do jornal) pairava a figura tutelar de Martins Rodrigues (...).
O antigo dirigente do PCP, que já em Janeiro de 1960 acompanhara Álvaro Cunhal na sua célebre fuga (...), deveria ser o líder “natural” do movimento, mas a sua imagem estava definitivamente prejudicada pelo facto de, ao ser preso e torturado de novo pela PIDE, não se ter revelado tão corajoso quanto Pulidi Valente.
(continua)
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