| Subject: Freire e Foucault - 16 a 21 de dezembro |
Author: Isis Pordeus
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Date Posted: 08:09:56 12/16/02 Mon
Colegas e Vera
O artigo de Warschauer pretende discutir o comportamento dos participantes em uma lista de discussão mediada por computador, e as relações interpessoais que se estabelecem entre os participantes, a partir da dicotomia ‘igualitarismo’ e ‘controle’. Para tanto lança mão do pensamento de Freire (que advoga a construção de uma relação mais igualitária entre professor e alunos) e de Foucault (utilizando a metáfora do Panoptico, que simboliza o controle social exercido pela autoridade e pelo grupo, uma vez que o Panoptico significa em ultima instancia o ‘olho de Deus que tudo vê’).
A questão central do artigo – se a utilização da comunicação mediada por computador em sala de aula ajuda o desenvolvimento da relação entre professor-aluno da forma proposta por Freire ou se resulta em maior controle e coerção no modelo do Panoptico de Foucault – chega a conclusão de que não há como evitar atritos ou perturbações, mas que essas ocorrências devem/podem ser utilizadas pelos participantes como oportunidades para a reflexão sobre como o grupo de fato reproduz as relações de poder encontradas no macro-ambiente (a sociedade, o mundo e as relações de dominação no mundo globalizado). Afinal, uma lista de discussão é o local para o aluno exercer o direito a ‘fala’, a expressar sua opinião e contribuir com o grupo.
Isso é muito bem explicitado em um artigo de Graham Hall, quando afirma que ‘as abordagens criticas enfatizam o direito dos alunos de falar, a sala de aula se tornando uma arena histórica e politicamente contextualisada. Empoderamento, emancipação e transformação social são tidos como objetivos explícitos dessas abordagens. Eu creio que seja essencial que os participantes desenvolvam seu próprio entendimento do que significa trabalhar criticamente dentro de seus próprios contextos.’ (‘critical approaches emphasise the learners’ ‘right to speak’, the classroom becoming a historically and politically contextualised arena. Empowerment, emancipation and social transformation are held as the explicit aims of these
approaches. I believe it is essential that participants develop their own understandings of what it means to work critically within their own contexts.’ (HALL, sem data).
A questão colocada pelo texto opõe autonomia a gerenciamento/controle da sala de aula. Entretanto a utilização da metáfora do Panoptico de Foucault/Bentham evoca uma idéia negativa a respeito do controle social. A convivência dos membros de uma comunidade deve envolver dois componentes essenciais para equilibrar essas relações: (1) a reflexão, no sentido de ponderar antes de emitir uma opinião ou critica, e (2) o respeito ao faze-lo. Quando um dos participantes falha nesses quesitos, o grupo ou o professor deve intervir e negociar uma solução para o conflito. No texto ora analisado, a questão que acaba por precipitar a intervenção do professor resultou de um debate entre dois participantes onde havia sinais claros de assimetria de poder, que pode ser uma manifestação freqüente em qualquer discussão, afinal grupos não são formados por clones obedientes e disciplinados segundo a mesma cartilha. Há desigualdades sim, em qualquer grupo, e cabe ao professor evitar que essas desigualdades resultem no estabelecimento de micro-sistemas reprodutores de desigualdades sociais. A sala de aula é o local da educação como pratica social, que deve ser transformadora nos níveis individual e social. Dentro dessa concepção, ‘a sala de aula emerge como um local de luta, seja por poder, conhecimento, ou identidade’ (HALL, sem data).
Um grande problema é que a concepção de linguagem como um bem universalmente distribuído e acessível a todos, que é comumente a visão da lingüistica, encobre o fato de que a linguagem é um capital simbólico, e não é distribuído e compartilhado universalmente, mas reflete e perpetua as desigualdades sociais do contexto em que se inscreve (BOURDIEU, 1998).
Embora o objetivo possa ser o desenvolvimento da autonomia dos aprendizes, o próprio termo ‘desenvolvimento’ nos lembra sempre que se trata de um processo, portanto um estagio intermediário, inacabado, em construção. É nesse espaço que se faz necessária a mediação do professor. De outro modo, o professor estaria se furtando ao seu papel de mediador e facilitador no desenvolvimento global do aprendiz, uma vez que o foco na autonomia não deve suplantar ou obscurecer o desenvolvimento de outras habilidades, como civilidade, cidadania, respeito ao outro, visão critica e capacidade para a interdependência e colaboração, através da reflexão e do dialogo.
Finalizando, as implicações para o ensino mediado pelo computador não são muito diferentes das responsabilidades compartilhadas entre professor e aprendizes em qualquer grupo. Na busca do desenvolvimento de maior autonomia existe uma gradual transferencia do controle do professor para os alunos, com o deslocamento do centro, do professor para o aluno. Nesse processo dificuldades certamente surgirão, e o professor deve estar atento e antecipar como essa dinâmica pode se dar.
Conforme BREEN & MANN (1997: 145), “se devemos explorar a autonomia atraves da pratica, uma antecipaçao pragmatica das dinamicas possiveis das relaçoes sociais na sala de aula, e como estas podem constantemente impactar nas oportunidades para o aprendiz ser autonomo, parece ser um elemento essencial em uma pedagogia para autonomia” (“... if we are to explore autonomy through practice, a pragmatic anticipation of the likely dynamics of the social relationships in the classroom and how these may constantly impact upon the learner’s opportunities to be autonomous seems to be an essential element in a pedagogy for autonomy.” (p. 145)).
VOLLER (1997), em seu artigo questionando se o professor possui um papel dentro da aprendizagem autônoma, recorre a Wright, 1987, que define o papel do professor como possuindo duas funções: uma gerencial e a outra instrucional. (“... he (Wright, 1987: 45-46, apud ) defines a teacher’s role as having two functions: a management function, which is related to the social side of teaching, particularly to motivation and control of learners, and an instructional function, which is related to the task-orientated side.” (VOLLER, 1997 : 99))
O controle das interações na comunicação mediada por computador, assim como em uma discussão presencial, deve ser do professor, nas instancias em que o grupo não for capaz de se auto-regular. A auto-regulaçao faz parte da construção da interdependência, que por sua vez faz parte da construção do aprendiz autônomo. A reflexão sobre o gerenciamento do grupo não pode ter um caráter genérico ou dogmático. Cada grupo deve ser examinado em suas particularidades: quem são, qual o contexto, quais os objetivos e também qual o grau de maturidade dos participantes. Na minha opinião, é desejável que os alunos tenham liberdade para expressar seus pontos de vista, buscando sempre a critica construtiva, o desafio a reflexão e aprendendo a aceitar a reciprocidade desse tratamento.
Referencias
BOURDIEU, Pierre. A produção e a reprodução da lingua legitima. IN Pierre Bourdieu: A economia das trocas linguisticas: o que falar quer dizer. São Paulo: EDUSP, 1998 .
BREEN, Michael. P. & MANN, Sarah. J., P. Shooting arrows at the sun: perspectives on a pedagogy for autonomy. IN BENSON, P. & VOLLER, P. Autonomy & independence in language learning. London and New York: Longman, 1997.
HALL, Graham. Local Approaches to Critical Pedagogy: An investigation into the dilemmas raised by critical approaches to ELT. (sem data)
VOLLER, P. Does the teacher have a role in autonomous language learning? IN BENSON, P. & VOLLER, P. Autonomy & independence in language learning. London and New York: Longman, 1997.
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