| Subject: Freire e Foucault - 16 a 21 de dezembro |
Author: Denise Araújo
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Date Posted: 18:49:27 12/16/02 Mon
Atividade da semana: Discuta os modelos de relações interpessoais segundo Freire e Focault e suas implicações no ensino mediado por computador. Tentem completar com outros textos.
Mediante à diversidade de benefícios relacionados ao ensino/aprendizagem de uma LE mediado por computador, alguns autores têm se dedicado a estudos sobre os efeitos da comunicação on-line nas estruturas de poder existentes nos discursos de professores e aprendizes nesse tipo de interação. Estudos tais como de Warschauer & Lepeintre (1997) tratam de questões desse tipo ao refletirem sobre os efeitos da comunicação eletrônica na aprendizagem de uma LE segundo dois modelos de relações interpessoais: a de Paulo Freire e a de Focault. Ao lidarem com estas duas visões antagônicas, os autores discutem se as interações que emergem de listas de discussões on-line propiciam o desenvolvimento de novos papéis entre professores e aprendizes segundo o modelo de Freire, ou se promovem a manutenção do poder por parte do professor segundo a visão de Foucault (o Panoptismo).
Ao analisarem os dois modelos e suas implicações para o ensino mediado por computador, os autores (1997: 05) ressaltam a filosofia de educação libertadora de Paulo Freire salientado que, as vezes mal compreendida, leva-nos a acreditar na abdicação total do papel de liderança e autoridade do professor. Nesse sentido, é preciso compreendermos cuidadosamente a substância desse pensamento a fim de transformarmos a nossa prática docente e a educação como um todo. Segundo Freire (2001), a educação deve ser vista como um caminho para a libertação daqueles considerados oprimidos pela política dominante encarando-os como agentes (e não sujeitos) na construção do conhecimento e respeitando as suas necessidades e escolhas, cabendo a ambos – professores e aprendizes um trabalho colaborativo onde o “diálogo e a co-investigação” sejam a meta (Freire, 1994 citado em Waschauer & Lepeintre (1997: 04) para a construção de um ambiente de aprendizagem autônoma, como proposto pelo ensino de línguas mediado por computador. Mas, no entanto, devemos ter em mente que: “True autonomy does not lead to being alone, free and independent. True autonomy leads to responsability and to interdependence” (Hoffmans-Gosset, 1996: 158 citado em Blin: 2002 – slide 20). Acredito, como Blin (ibid) e Freire, que alguma direção/intervenção por parte do professor neste tipo de interação como também em sala de aula é necessária haja vista ser o professor o facilitador e mediador no processo, desde que este não domine todas as participações restringindo, coagindo e/ou moldando as vozes dos participantes. Sabemos, obviamente, que o conflito deve ser visto como algo inerente a qualquer tipo de interação social e, sobretudo, na Educação desde que compreendamos que o processo de aprendizagem se desencadeia a partir da “necessidade, do conflito, da inquietação”; ou a partir de situações de “desequilíbrio” (Piaget apud Rosa, 2000). Dessa forma, parece-nos que cabe ao professor assumir o papel de “desestabilizador da ordem.vigente”, comportando-se, assim, como uma peça importante que contribuirá para o desenvolvimento e emancipação de seus alunos, ao contrário do seu treinamento e alienação. Ao transpormos as implicações deste modelo para o ensino medidado por computador, acredito, como Paulo Freire, que devemos desafiar os nossos alunos, instigá-los à dúvida, retirar dos mesmos as certezas que os colocam, na maioria das vezes, também em situação de comodismo a fim de conscientizá-los sobre o inevitável papel a ser assumido por eles na aprendizagem e na transformação da sociedade.
Por outro lado, ao analisarmos o modelo proposto por Foucault e suas implicações no ensino mediado por computador através do exercício do controle e do autoritarismo nas discussões on-line, acredito ser uma das principais causas para tanto a falta de consciência crítica por parte do professor sobre o poder do seu discurso sobre os seus aprendizes. Sabemos que as relações de poder conferidas à figura do professor pela sociedade da qual faz parte podem influenciar as suas ações em sala de aula, e neste caso, nas interações on-line. Conforme estudo de Moraes (1997), o comportamento discursivo de alguns professores na interação com os alunos pode ser regulado pela “marcante presença do poder” que é incorporado por ele como “registro de autoridade conferida mas que é gerador de impedimentos” (ibid, p. 45). Assim, diante dessa postura assumida pelo professor através do seu discurso dominante em contextos de ensino/aprendizagem e, mais especificamente, mediado por computador, acredito que o aprendiz pode vir a tornar-se um alvo fácil para a “intervenção e controle”, sendo impossibilitado, consequentemente, de exercer uma consciência crítica sobre o processo de aprender uma nova língua e sobre o seu verdadeiro papel na luta pelas desigualdades sociais. Acredito, ainda, como Fairclough (1995) que a ausência de consciência crítica por parte de ambos – professores e aprendizes sobre os seus respectivos papéis poderá condenar o aprendiz à subordinação à figura do professor e, ao mesmo tempo, legitimar as relações de poder existentes nos diversos contextos de ensino-aprendizagem e na sociedade como um todo.
Para finalizar, deixo esta citação para, a partir da mesma, refletirmos sobre a nossa prática como professores de línguas em torno do tema em discussão nesta semana: “Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar.” (Freire, 1996: 46).
Um abraço a todos,
Denise Araújo
Referências:
FAIRCLOUGH, N. Critical discourse analysis: the critical study of language. New York: Longman, 1995.
FREIRE, P. Educando o educador. In: FREIRE, A. M. A. (org.) Pedagogia dos Sonhos Possíveis. São Paulo: UNESP, 2001, p. 55-83.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MORAES, M. G. O Discurso do Professor de Língua Inglesa na Sala de Aula. In: VIANA, N. (Org.). APLIEMGE: Ensino e Pesquisa. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 1997.
ROSA, S. S. Construtivismo e mudança. São Paulo: Cortez, 2000.
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